O taxista torcedor do Gana

Aconteceu-me há uns quatro anos, em Acra, Gana. Estava nas redondezas do Hospital Militar, perto da Estação 37, entre 18h e 19h. Muitas pessoas queriam voltar para casa. Dia de jogo: Brasil vs. Gana. Estava difícil pegar ônibus, tro-tro (como lá é chamada a van) e mesmo táxi. Empurra-empurra, disse-me-disse, corre-praqui, corre-pracolá… uma confusão danada.

Ufa. Depois de algum tempo, estava eu sentado dentro de um táxi, com mais três pessoas. Éramos todos estranhos uns aos outros. Só tínhamos algo em comum: sair dali em direção a Madina. De Zongo Junction, em Madina, eu ainda iria até Sakora, Sun City, bairro onde morava.

Pronto, táxi lotado, o motorista deu partida, mas, antes, deixou claro que só iria até Madina e que cada um pagaria 2Ghc. Durante o trajeto, muita conversa sobre futebol. Eu, calado. Alguém percebeu o meu silêncio. Obruni, where’re you from? Eu disse Brazil. Risos. Algumas piadas referentes à atuação do time brasileiro foram feitas. Eu sorri desajeitadamente. Eles continuaram envolvidos em suas apostas de quantos gols e coisas do tipo. Deixaram-me em paz. E eu sentia-me agradecido. Não estava para muita interação. Não aprecio futebol e, ademais, eu estava exausto devido ao dia de trabalho concluído ainda há pouco.

Stop. O táxi parou, alguém desceu, continuamos. Stop over there, please. Desceu alguém mais. À medida que a longa fila de carros avançava em direção a Zongo Junction, os passageiros iam descendo e, automaticamente, pagando o valor antes indicado. Conforme a dinâmica dos táxis compartilhados, descendo alguém no meio do trajeto, outra pessoa poderia juntar-se ao grupo restante, ocupando a vaga deixada. Este, porém, não foi o caso naquele dia.

A certa altura, dei-me conta que só estávamos eu e o taxista. Ele perguntou onde eu gostaria de descer, pois lá estava Zongo Junction, trânsito agitado e caótico, impossível de o táxi avançar um pouco mais. Logo, seria mais inteligente parar um pouco antes e caminhar para a estação mais próxima, a fim de pegar um tro-tro ou outro transporte para Sakora.

Here it’s ok. Eu falei isto dois ou três minutos depois. Ele fez menção de estacionar o carro, mas, com o trânsito engarrafado, nenhum automóvel mexeria do seu lugar por um tempo, e ele pediu-me para sair ali mesmo. Eu fi-lo de bom grado, mas, antes disso, tirei o dinheiro da carteira e estendi-lhe a mão. 4Ghc, ele pronunciou, recusando-se a aceitar o valor. Da-be-da-be-da-be… You said 2Ghc, chale. Eu disse que o valor tinha sido combinado antes e, então, não era justo ele mudar o preço naquele exato instante.

Apesar do cansaço, eu estava decidido a não ceder à chantagem. Proferi algumas expressões em Twi, surpreendendo-o e tentando fazer-me amigável e dissuadi-lo da tentativa de extorsão. Não obtive sucesso. Ele ainda tentou arrancar de mim o dobro do preço estipulado pela corrida, com argumentos bastante conhecidos por qualquer usuário de táxi em Acra, independentemente de ser estrangeiro ou nacional.

_ Obruni, this place is too far oooo. And traffic is too much.
_ Chale, it is not, you know, it is not too far. And traffic is always too much in Accra, you know.

Enquanto ele insistia falando de distância e congestionamento, eu perdia um pouco da minha paciência e, de súbito, elevei o tom de voz, dizendo que ou ele recebia aquele valor ou eu desceria ali mesmo e muito grato pela carona que ele me havia dado. Chale, if you don’t take this money, I only have to say Thanks for the ride. Ok?

Ele fitou-me surpreendido e, ao mesmo tempo, decepcionado por não ter logrado na chantagem. Eu estendi-lhe a mão com o dinheiro de novo.

Which team you support tonight?, ele indagou-me sorrindo. Oxente. Ainda mais esta, eu pensei. Orapor que time eu torceria? Sem paciência, eu gritei Ghana, man, Ghana, me patcho.

Ele gargalhou, pegou os 2Ghc, eu desci e fechei a porta do carro. Ele deu partida e acenou-me Obruni, obruni, goodbye ooo.

Eu sorri, por fim, e segui para a próxima estação. Em poucos minutos, eu deveria estar dentro de outro táxi, barganhando, argumentando e, com sorte, entendendo-me com mais um taxista, mas o destino seria outro. Hey, Sakora? E talvez, de novo, futebol fosse motivo de conversa. Oxalá eu soubesse usá-lo para barganhar o preço da corrida.

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5 Comments Add yours

  1. Fabio diz:

    sei não viu esse taxista!! kkk ta no alecrim é?

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    1. Quase, quase. risos. Mas foi num bairro de Acra tão agitado quanto o Alecrim.

      Obrigado pelo comentário, Fábio. É sempre obter o retorno dos visitantes do blogue. Sinta-se à vontade para ler, comentar e compartilhar textos e fotografias.

      Abraço.

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  2. Murilo, de facto, o texto configura-se como conto. Obrigado por ter-me alertado. 🙂

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  3. Adorei! But, Obruni, this is a tale, isn’t it? 😛

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