Assustei os alunos… Será?

Assustei os alunos, as alunas e qualquer um que cogitasse contratar os meus serviços de consultoria linguística, fosse para aulas fosse para revisão de texto. Torço para que não os tenha afugentado de vez.

Apenas descobri isso hoje, quando vi a foto do meu perfil de WhatsApp. Afinal, quem gostaria de ter como professor uma pessoa com esta cara?

Há alguns dias, tenho saído por alguns lugares de Lisboa a divulgar aulas de Português para estrangeiros. Isto acontece há cerca de duas semanas. Vejo sítios frequentados por falantes de outros idiomas e lá vou divulgar o meu nome, contactos e serviços.

Vez ou outra, retorno a alguns desses lugares e aproveito para observar como os meus anúncios estão. Papel destacado, um sorriso é-me arrancado. De imediato, vêm-me duas ideias: a primeira é o interesse de alguém por aprender Português, e a segunda, um aluno ou uma aluna para mim. Sinceramente, penso logo na segunda: oportunidade de trabalho.

img_20180531_1957411.jpg

Quando regresso a um sítio e vejo que me vandalizaram a propaganda, questiono-me se foi ação de um concorrente ou de algum possível estudante decepcionado ou assustado com o semblante do professor, ou seja, a cara feia que você viu logo acima.

img_20180531_2023581.jpg

Não obstante esses casos de vandalismo, notei que, na maioria dos locais, os anúncios conservam-se em bom estado ou foram removidos pelos prováveis discentes. Sim, os meus iminentes alunos e alunas, pois não me demorarão a chamar!

Entretanto, os dias passam-se… e ninguém me contacta. De facto, até então, ninguém me ligou. Por um lado, o silêncio deles tem-me deixado um pouco triste e desanimado. Por outro, tem-me feito refletir sobre estratégias de marketing; sobretudo, marketing pessoal.

Então, o que fiz de errado? Indaguei-me, antes de verificar o meu WhatsApp.

De início, voltei-me à mensagem no topo do anúncio, que redigi em Inglês, a enfocar o público estrangeiro em Lisboa. Elaborei o seguinte texto: “PORTUGUESE LESSONS”, em letras garrafais e seguido de “with a professional who holds a teaching experience in an international and multicultural environments. I have taught Portuguese as foreign language in Ghana and as maternal language in Brazil”, numa linha abaixo e em letras menores.

Julguei importante comunicar a minha experiência docente em Ghana e no Brasil. O contexto multicultural mencionado serve para ambos os países, mas, em especial, Ghana, onde o meu corpo discente era culturalmente diversificado. Algumas turmas abrigavam estudantes de países francófonos vizinhos, além dos ganenses. Muitos deles falavam três ou mais idiomas e desejavam acrescentar o Português aos seus conhecimentos linguísticos. Embora o anúncio ocultasse tais detalhes, introduzia com brevidade uma trajetória profissional. Logo, depois de pensar nisso, inferi que a causa da demora não seria o texto; senão, muitos recusariam o contacto telefônico e o endereço de e-mail.

Foi, então, que resolvi ver a minha foto do WhatsApp, pois, vez ou outra, fico a mudar aquilo. Ponho uma, ponho outra… e até me esqueço da cara que lá tenho.

Ui! Assustei-me a mim mesmo. Só aí entendi por que, noutro dia, um amigo me perguntou se estava tudo bem comigo. Que cara feia, hein! Ali estava a causa. O professor. Eu mesmo. Euzinho espantei os alunos, as alunas, os clientes de revisão de texto… e a mim mesmo.

Agora, torço para que o efeito do susto seja reversível. Não há como mudar o passado, mas há como construir um presente melhor ou, ao menos, investir no hoje, concentrar-se no que está ao alcance, na melhoria das condições de vida imediatas.

Revelada a causa do problema, parti para a solução: alterar a fotografia de rosto do WhatsApp. Algo, a princípio, fácil de fazer, mas qual das minhas caras atrairia mais clientes, digo, alunos e alunas a curto prazo? Melhor: qual delas não os poria a correr?

Enquanto vou ali trocar a foto, peço-lhe um favor. Sim, a você que me lê neste momento peço o favor de divulgar as minhas aulas. Se souber de alguém entusiasmado em estudar Português com sotaque brasileiro e com um professor que possui experiência no ensino do idioma tanto como língua materna quanto como língua estrangeira, basta entregar um papelito daqueles lá de cima.

Já me ponho a torcer que me venham e que venham rápido, enquanto há espaço na agenda. 🙂

Agradeço-lhe sempre pela leitura e pela divulgação. Até a próxima!

 

Anúncios

Cês, cês-cedilha e esses no Clandestino

«Sopa de tomate, raviólis grelhados e com recheio de carne, arroz chao-chao, sopa ácida e picante, arroz branco, chop suey de gambas, raviólis com recheio de vegetais…»

«E a quantidade?»

«Um de cada, depois pedimos mais.»

A empregada de mesa deixou-nos papel e caneta. Fomos céleres em escutar o bucho de cada um. Parecia até uma conferência de panças.

«Ah, mas é melhor pedir logo dois raviólis de cada tipo.»

«Tens razão.»

«Então, vamos lá…»

Dentro de poucos minutos, buscávamos a empregada de mesa, com os pedidos devidamente anotados. Vimo-la e acenamos. Ela, tão ocupada com uma mesa repleta de gente, ignorou-nos sem cerimônia. Na segunda tentativa, sem intervalo entre esta e a primeira, nenhum sinal por tímido que fosse. A fome daquela turma deveria estar mais comprida do que a nossa. Na terceira, um de nós pôs-se de braço erguido, a balançar o papelinho num ato de desespero, como se esse fosse uma bandeira improvisada por indivíduos ilhados, a pedir socorro.

Lá estávamos no Clandestino, como é conhecido talvez o mais famoso restaurante chinês de Lisboa. É importante salientar que é um restaurante popular ou, melhor, um popular restaurante popular ou, ainda melhor, um restaurante que é chinês e popular e bastante frequentado e muito barato e, por ser barato, bastante conhecido e frequentado e popular. É lógico que a comida é gostosa, tem de ser gostosa para cativar os clientes. E o é! Não sei se me faço compreender ou se apenas encho o texto de palha, como dizem em Portugal (ou, como dizem no Brasil, encher linguiça.).

Dizem que existem muitos clandestinos pela cidade, mas refiro-me mesmo àquele Clandestino, com cê maiúsculo, que de clandestino nada tem e que parece ser frequentado por todos e todas que passam pelo Largo da Severa, na Mouraria. Não raramente, forma-se fila ao longo da escada. Quando o dia está tranquilo, um arranja logo uma mesa ou, no máximo, espera uns minutinhos, quando a fila é mínima e concentrada na entrada do estabelecimento, localizado no segundo piso de um edifício pequeno e descerimonioso daquela zona. Nesse dia, a sorte estava do nosso lado.

A empregada de mesa retornou para recolher o papelito com o nosso pedido de socorro, leu-os para si e, logo em seguida, repetiu-os em voz alta para confirmá-los conosco:

«Para bébé?»

«Hã?»

«To drink? Vinho? Wine?»

«Vinho com picante combina?», não nos tínhamos decidido. De facto, não nos tínhamos atentado para bebidas, quando a fome agudizava.

«To drink?», a empregada de mesa interrogou-nos de novo, com certa impaciência, pois outros estômagos gritavam a sua fome e um grupo de pessoas serpenteava-se à porta.

«Prefiro a cerveja ao vinho agora.»

«Cerveça? Beer?»

«Uma, duas… alguém mais?»

«Ok, três cerveça.»

«Isto, três cervejas.»

«Super Bock?»

«Para mim, uma chinesa.»

«Cineça?»

«Sim, por favor.»

«Super Bock.»

«Quero uma chinesa também.»

«E uma água, para mim.»

«All?»

«Yes.»

«Ops, a Chinese beer, please.»

A empregada de mesa olhou-nos com um «hã?», mas logo percebeu que o pedido vinha de outra mesa. As vozes cruzadas não se deviam ao nível da nossa fome. Ali, a concorrência é notada não somente pela espera, mas também pelo comportamento dos frequentadores, que falam, gargalham, brindam, fazem os seus pedidos… todos e tudo simultaneamente.

«Tô morrendo de fome.»

«Também, mas, enfim, após algum tempo de espera, ansiedade e sofrimento, eita, lá vêm, lá vêm, lá vêm…»

«Agora, sim.»

«Até que enfim! Tô morta.»

«E eu?»

«Quase sepultado.»

«Oh, walking-dead-people, chegou, mas, ei, e as cervejas?»

«Please, we ordered some beers and water.»

«One minute, ok?»

«Ok. Thanks.»

«Passa-me os raviólis, por favor.»

«Me dê esse prato aí, por favor.»

«Passa-mo, antes que eu morra.»

«Toma-o, exagerada.»

«Pegue aí, ó.»

«É sério, estou faminta.»

Empanturrávamos por quase uma hora. Entre os vaivéns de pratos, papeávamos amenidades sem nos dar por saciados.

«Raviólis fritos.»

«Sim, sim, mais um prato.»

«Ah, mais duas cervejas.»

Enquanto os novos pedidos nos eram providenciados, as amenidades e as cervejas abrandavam-nos o ardor do picante. Eu tão entretido estava, que raramente sabia quem falava. Apenas escutava as vozes, tentava sintonizar o paladar e a audição, porém não era tarefa fácil. Mas recordo-me da palavra «s-e-C-ç-ã-o» proferida com certa ênfase no cê antes do cê-cedilha. Era uma voz feminina com sotaque português, que foi seguida por uma voz masculina com sotaque brasileiro a continuar a sua narrativa, sem sentir-se inibido pela entonação afetada da amiga. Ele, então, pronunciou «seção» de novo. A correção foi-lhe direcionada mais uma vez. Dessa vez, ele demonstrou o seu descontentamento com o comportamento da amiga:

«Ai, tá bom, né?! Vamos deixar a “secção” que também pode ser “seção” e vamos alegrar a nossa “sessão”, mas agora “s-e-s-s-ã-o” [soletrou compassadamente letra a letra], embora não sejamos um corpo deliberativo, mas vamos lá. Não nos desentendamos pela pronunciação ou pelo emudecimento de uma consoante, certo?»

«Cessão.»

«Como?», o meu amigo que falava tornou a cabeça e perguntou na direção da voz.

«Esqueceste a “cessão” com cê e dois esses. Só te queria dizer que concordo contigo, amigo. São tantos sons e tantas letras, que mais me importa falar e comunicar», o rapaz com sotaque angolano também entendia da língua. Achei que iríamos juntar as mesas, mas não foi para tanto.

Eu estava meio tonto e, no intervalo da conferência linguística, não esperei muito para buscar a empregada de mesa. Vi-a e aguardei que ela olhasse em minha direção. Fê-lo. Ergui a garrafa vazia e, com uma voz arrastada, implorei-lhe: «One more beer, please.» Escutei uma voz com sotaque cabo-verdiano: «Duas, por favor.»

Virei-me para o amigo para confirmar se era uma para ele e uma para mim, mas não: era um rapaz da mesa vizinha. Ali é sempre assim. A audição, o olfato e outros sentidos imiscuem-se. Confundimos todos, assim como as necessidades dos clientes.

«Quere algo más?»

«Por enquanto, não, mas é só por enquanto», rimos todos com a interação entre o grupo da mesa vizinha e a empregada de mesa.

Facilmente, percebe-se a confluência de sons, movimentos, cheiros (até de cigarro, pois, infelizmente, há quem fume lá dentro.), línguas, culturas, nacionalidades… São mundos que se encontram; às vezes, abalroam-se, mas só às vezes.

Era noite de uma sexta-feira ordinária, mas que se fazia especial, pois encontrávamos amigos para celebrar nada além da vida. E tudo ia tão bem até os cês, cês-cedilha e esses pousarem na sopa. Comecei logo a sentir a pimenta. Ardia a língua. Balbuciei para a funcionária da casa: «outa cerv…»

«Quere outra cerveça?», ela indagou-me. «Portugueça ó cineça?»

Agora foi o amigo cabo-verdiano que confirmou: «cineça, sim, cineça, melhor», sob uma chuva de regozijos.

Se estivéssemos ali a escrever, certamente não registaríamos (nem registraríamos) “ssinessa”, “cinessa” ou “xineça”. É que queríamos mesmo era a cerveja. Aperreava-me pensar em fazer transcrições ortoépicas ou fonéticas naquele momento, aquando as papilas gustativas estavam a dilatar.

Nota de falecimento

Nunca pensei ser tão difícil elaborar uma nota de falecimento. O meu irmão pediu-me para fazê-lo.

***

Hoje, durante as primeiras horas do dia, faleceu o meu tio que era irmão gêmeo do meu pai. Eu soube aproximadamente às 10h, quando vi a mensagem de WhatsApp do meu irmão enviada às 9h43min, no fuso horário de Lisboa; em Mossoró, eram talvez 6h.

Perguntei-lhe a hora em que o seu cérebro parou de funcionar definitamente, mas não com estas palavras. Ele disse-me que tinha sido hoje, pela madrugada, mas não com estas palavras. Recebeu a ligação da minha irmã às 5h, para comunicar o facto.

Há dias, o tio sofrera um acidente vascular cerebral (AVC) e, entretanto, internado num hospital, sobrevivia por meio de aparelhos. Nenhuma palavra, nenhum gesto. Nenhum esgar a demonstrar desgosto pela situação em que se encontrava. A depender de todos para tudo, o que lhe importava? A vida já se reduzira à cama do hospital e aos aparelhos. Os médicos atestavam um mínimo de atividade cerebral. Em que estava a pensar nos últimos dias, nos últimos minutos de vida? O que lhe importava?

O cérebro era o que lhe mantinha morto entre os vivos. Sim, morto já estava o corpo. Um AVC, uma isquemia, talvez pequenos derrames de que não tenhamos tido conhecimento. O corpo paralizara por completo exactamente no dia em que recebera alta para retornar à casa. Quando o preparavam para partir, a isquemia… Parecia ele a implorar que o deixassem ali, que não valia a pena tentar… não valia a pena…

***

Por vezes, o meu irmão demanda-me esses favores de súbito e com urgência. «Hey, faz-me aí um texto para eu mandar aos clientes. Informa que amanhã faremos bolo e pão especial, por ocasião da Páscoa.»

Há pouco, mandou-me um WhatsApp. «Faz-me uma nota de falecimento para podermos publicar. Deves dizer que o tio trabalhou em tal e tal lugar.»

Levei um tempo para responder-lhe: «Não sei como o fazer.» Hoje me dou conta de que “nota de falecimento” é um dos tipos de texto mais difíceis de redigir.

«Gay.»

«Gay.»

Tornei o rosto e vi-o de costas. Já não me olhava. Observou-me tempo suficiente para ler-me e identificar-me talvez com o rótulo mais fácil para si.

Aconteceu-me noutro dia, quando subia uma travessa que liga a Avenida Almirante Reis à Rua do Benformoso, em Lisboa. Ele passou por mim e cumprimentou-me com um “gay“. Poderia ter sido um “paneleiro”, mas foi um “gay“.

Pegou-me de surpresa, realmente não esperava e, se tivesse pensado melhor, se de facto tivesse a chance de interagir com aquele indivíduo, ter-lhe-ia interpelado se ele também o era. Talvez lhe tivesse perguntado se estava tão na cara a minha “gueitude”. Se me confirmasse que estava, eu sorriria feliz da vida. Uma vez fora do armário, não me venham impô-lo de novo.

Porém, nada disse. Houve nenhuma interação para além da sua voz e da minha escuta. Segui para a casa. Fiquei sem saber se aquele “gay” significaria um “Boas-vindas” e um “Sinta-se em casa”, uma vez que sou novo na área, ou se seria um insulto e um aviso do tipo “Cuida-te, que tô de olho em ti”.

Fiquei intrigado. Seria aquela uma expressão de homofobia? Seria uma atração pelas minhas feições confusas para alguns tanto quanto familiares para outros, resultantes da união entre tipos humanos diferentes? Terá sido pela aparência, pelas duas argolas grossas que pendem das minhas orelhas e que me dão um ar distinto e, ao mesmo tempo, ordinário, com a barba preta, fechada e volumosa? Terá ele me achado um “boy formoso” na Benformoso?

De facto, em torno do seu “gay”, só há espaço para ilações. A única certeza que tenho é a de que lhe chamei a atenção. Fui notado por alguém cujo rosto desconheço e que pode estar incomado com a minha presença na Benformoso, mas também pode estar entusiasmado.

Se me tivesse dado a oportunidade da interlocução, indagava-me «Gay?», e ter-lhe-ia eu respondido com brio:

«Bem gay

Poema do anojamento


nem alegrias
nem tristezas:

aquando
juízes trabucam como
atalaias e verdugos
a mercê dos imperialismos,
aparentemente caducos, mas,
a todo o momento,
de sobreaviso para o bote
(e sempre há a chande de mais um,
do próximo golpe.);

aquando
magistrados tramam
ódios contra
os pobres,
os oprimidos,
os subalternos e
os seus parcos representantes;

aquando
togados se convertem
nos mais vis
comissários da desordem;

aquando
os da Justiça pelejam
para encarcerar
a esperança.


anojamento.

 

É melhor (não) esquecer!

Mal pus os pés à rua e logo me apercebi de que, às pressas, saí do supermercado, sem conferir o troco que a caixa me dera. De pronto, veio à mente a imagem da nota de cinco euros e algumas moedas na palma da minha mão, a qual prontamente se fechou e levou a quantia ao bolso do casaco.

Entregara-lhe uma nota de dez para tirar o valor referente a cinco pães d’água e uma manteiga da marca mais barata. A compra custar-me-ia dois euros e menos de trinta cêntimos, restando-me sete euros e setenta e poucos cêntimos.

A imagem do troco na palma da minha mão estendida. A imagem da minha mão fechada a invadir a escuridão do bolso e ali confiar a quantidade de dinheiro que eu tinha.

Abri a algibeira, peguei todo o dinheiro, contei-o e… menos de sete euros, por volta dos cinco euros e alguns cêntimos. Ai, que raiva senti de mim mesmo.

Dois euros. Perdi dois euros. Já não dava para retornar ao supermercado e reclamar o meu direito. Como provaria que eu não tinha má intenção? Como provaria que a caixa se enganara com a conta, e não eu? Ao pôr os pés fora do estabelecimento, perdi a razão de reclamar os dois euros. Dois euros. Que merda. Que raiva. Dois euros. Perdi-os.

“É melhor esquecer e estar atento da próxima vez em diante”, pensei. Fui para casa, com os meus pãezinhos d’água e a manteiga. Com aqueles dois euros, teria comprado até queijo. “É melhor esquecer,” pensei, “pois outros virão.”

Dias depois, regressei ao mesmo supermercado. Fui direto à secção de pães. Quatro pães d’água.

No caixa, coincidentemente, a mesma funcionária do outro dia. Desta vez, eu tinha moedas e daria o valor contadinho, para evitar mal-entendidos. Quatro moedas de vinte cêntimos.

“Sessenta e quatro cêntimos”, ela informou o valor da compra.

Passei-lhe as quatro moedas que separara.

“Obrigado e até próxima”, ela disse-me ao entregar duas moedas miúdas: uma de cinco e outra de um cêntimo.

Mais cauteloso, percebi que me faltavam dez cêntimos. Com a palma da mão ainda aberta, mostrei-lhe:

“Faltam dez cêntimos”, disse-lhe. “Dei oitenta.”

“Hã?”, ela fez cara de desentendida, mas, para a minha surpresa, pegou uma moeda de dez cêntimos e entregou-ma junto com as seguintes palavras: “Só vi setenta.”

Sem mais, agradeci e senti-me aliviado, mas, ao mesmo tempo, assarapantado. Uau. Por pouco, não perco dez cêntimos, assim como ocorreu com os dois euros noutro dia. Uau. Aprendi a lição, tenho de ser atencioso nesses momentos, mesmo que a fila esteja gigantesca e que pessoas apressadas e impacientes se chateiem por esperar um pouco mais. Uau. Epa. Como assim? Se só viu setenta, como me deu os dez cêntimos faltantes, sem nem conferir a nota da compra, nem contestar? Será que o supermercado não confere o registro do caixa ao fim do dia? Epa, de novo. Eu, de novo? Será que tenho cara de rico, a quem não faz falta unzinho aqui, outro acolá? Ou será que tenho cara de parvo, a quem vale tirar uns níqueis a cada ida ao supermercado?

“É melhor esquecer,” saí à rua, a falar comigo mesmo, ainda confuso, “mas… uau, dois, dez… fogo.” Outros andantes olhavam-me estranhamente. “É melhor não esquecer. É melhor não esquecer, pra não acabar a pão e laranja”, sem lhes dar a mínima, segui com o meu solilóquio, a cada passo em direção à casa.

Concorrência desleal: Grindr, Tinder, Growlr, Badoo, MeetME…

Concorrência desleal: foi isso que me veio à cabeça depois daquele encontro inusitado num supermercado próximo à minha morada. Digo inusitado, porque imagine que, em Lisboa, eu venha encontrar um amigo dos meus tempos adolescentes em Mossoró. Digo inusitado, porque imagine encontrar alguém num supermercado e do nada começar a falar sobre os atuais desafios enfrentados pelos profissionais do sexo (ou, se preferir, pode chamar de prostitutos, garotos de programa, GP’s, michês…). E, então, foi isso que me aconteceu noutro dia.

Escutei alguém chamar o meu nome, olhei para ver quem era e reconheci-o. Cumprimentos daqui, cumprimentos dali, atualização rápida e aparentemente interessada da vida alheia, até que eu lhe revelo o encerramento da minha bolsa de investigação e, por conseguinte, a minha procura por emprego. E, como tenho jogado vez ou outra, tentei brincar com a possibilidade de eu enveredar pelo mercado do sexo.

“Pensei até em me prostituir, mas aí a idade, quase quarenta, quem contrataria os meus serviços?”, disse-lhe eu, o amigo riu e eu ainda acrescentei: “Mas, afinal, quem paga por sexo hoje em dia? São tantas ofertas, são tantos aplicativos…” Naquele momento, ele parecia-me desconcertado com o rumo da conversa.

Com frequência, vejo pessoas a andar por aí com o celular na mão, com os olhos na tela, com os ouvidos e o coração atentos a qualquer notificação do “app” escolhido. É verdade que podem aguardar informações variadas, não necessariamente ligadas aos chamados “social networking sites”, os quais não necessariamente apresentam cariz sexual. Há quem argumente que o principal objetivo das múltiplas versões dessa tecnologia não seja o de promover o sexo, mas, sim, a amizade, o namoro e também sexo.

A finalidade depende das intenções de cada usuário. Bem, independentemente disso, num passar de olhos nas ruas, no metrô, no ônibus, pode-se pensar que uns e outros caminham não com um telefone à mão, mas com uma bússola. 

Em alguns tantos casos, o ponteiro da bússola funciona com os níveis de testosterona acima do normal. E ainda numa confusão entre o desejo por sexo e o desejo por paixão ou por um vínculo afetivo duradouro, alguns usuários desses aparelhos acreditam-se prestes a alcançar o príncipe encantado a poucos metros dali, a poucos minutos… Ops, quase esbarra noutro corpo guiado por outra bússola, digo, por um “app”.

O meu amigo ainda se mostrava desconcertado com o papo. Acho até que se arrependeu de ter-me cumprimentado. Ao menos, essa era a impressão que eu tinha, mas ele logo teceu o revelador comentário: “A dez minutos do local, em dez minutos chega… é assim hoje”. Eu ri e demonstrei a minha compreensão daquilo que dizia.

“E depois ainda se apaixona”, ele acrescentou.

“Se apaixona?”, perguntei-lhe rindo e, em seguida, emendei: “Assim é demais: de graça e ainda se apaixona. Aí não. Aí não dá. Assim, é concorrência desleal!”

“Como ganha-pão, é melhor tentar outra coisa”, sugeriu-me, mostrando-se mais entendido no assunto do que eu.

Resolvi dar-lhe razão. Afinal, há versões de bússolas para todas as “tribos” e todos os gostos: Grindr, Tinder, Mamba, Badoo, MeetME, Scruff, Gay.com, Growlr… A oferta é vasta e de graça (ou, ao menos, sem custos adicionais ao seu pacote de internet). Não dá para iniciantes, nem para castos (como eu!) nesse mercado.

Um cabelo no meio da salada

No meio da salada tinha um cabelo. Havia um fio de cabelo na salada vegetariana. Um fio de cabelo castanho-escuro entre os vegetais. Havia cerca de 30cm de cabelo no meio da alface, do tomate, da cebola e da cenoura ralada. Nunca me esquecerei daquele fio de cabelo na minha salada, nem mesmo do que eu estaria por presenciar naquela tarde de terça-feira.

Lisboa, perto das 14h do dia 14 de fevereiro de 2017, eu e Murilo ainda não tínhamos almoçado, não tínhamos cozinhado nada em casa e já estávamos atrasados para o trabalho. Então, saímos de casa e caminhamos até um restaurante nos arredores da Fundação Gulbenkian.

Chegamos ao restaurante. Comida vegetariana, saudável, fresquinha e feita na hora, bom atendimento, boa localização, tudo por um bom preço. Não havia muito a matutar onde e o quê comer. Já conhecíamos o espaço. Lá estávamos.

A garçonete indicou-nos uma mesa e deu-nos uns minutos. Acomodamo-nos e verificamos o cardápio. Ela voltou e anotou os pedidos. Para mim: um rolo belga. Para Murilo: seitan com molho de tomate. Para beber: nada. Das vezes que lá vamos, costumamos não pedir nada para beber, mas eles insistem em trazer-nos um copo com água e uma rodela de limão, o que me faz lembrar um amigo da adolescência que falava que eu tinha cara de limão. Nunca compreendi por que ele dizia aquilo e ria logo em seguida.

Enquanto preparavam os pratos, Murilo lia uma notícia no celular, e eu assistia à TV, mas a fome, as horas e o trabalho a fazer ocupavam-me a mente. Tentava distrair-me a ver o programa televisivo, mas esse era bem desinteressante. E aí, para piorar, o aroma da comida a ser preparada atiçava-me o apetite e fazia-me o estômago roncar mais alto.

Ao nosso lado, havia uma mesa ocupada por um homem e uma mulher. Os seus pratos pareceram-me deliciosos, vi-os de relance e desviei rapidamente o olhar. Não é interessante e educado cobiçar a comida do próximo.

Nada parecia ajudar o meu cérebro a abduzir-me das preocupações, inclusive da necessidade premente de encher o bucho. De súbito, as vozes do suposto casal da mesa ao lado capturaram a minha escuta.

Os vizinhos desalinhavam-se, e eu passei a coser pistas para esboçar quem eles eram de facto. Bem vestidos, distintos, lustrosos, sem rugas ou quaisquer outras marcas do tempo, com um sotaque que me era familiar. A mulher, o homem, Murilo e eu, brasileiros, mas seguramente de procedências geográficas e socioculturais diferentes. Nada além da nacionalidade seria elemento de identificação entre nós, quiçá favorável à mínima empatia.

Enfim, os pratos. Atacamo-los. Uma, duas garfadas… Murilo verbalizou a sua satisfação com o seitan. Eu devo ter franzido a testa ou qualquer coisa do tipo, pois ele perguntou-me se havia algo errado. Deitei o garfo ao lado do prato, levei a mão direita à comida, juntei as pontas do polegar e do indicador e tirei do meio da salada um longo fio de cabelo castanho-escuro. Seria receita nova? Para mim, o cabelo era um ingrediente bastante inusitado. Um longo fio de cabelo castanho-escuro. Cerca de 30cm de filamento capilar.

Encostei tudo, chamei a garçonete e, com discrição, mostrei-lhe o cabelo. Ela, pronta e educadamente, pediu-me desculpas pelo incidente, pegou o prato e levou-o, mas, antes, disse que me traria um novo.

Olhei para Murilo e sussurrei: “Será que perceberam?”. Referi-me aos outros clientes presentes no local. Ele achou que não. Eu, sinceramente, não queria desestabilizar o almoço de ninguém. Tudo não passara de um desagradável incidente, o qual não abalaria a nossa confiança nos serviços do local.

IMG_20170809_180704[1]

Entretanto, eu sabia, Murilo sabia, a garçonete sabia e talvez alguém mais soubesse: tinha um longo cabelo no meio da salada. E eu nunca me esqueceria daquela salada na vida das minhas papilas gustativas. Disso eu conscientizar-me-ia ao escrever este texto. 

Observei, portanto, discretamente os vizinhos e assegurei-me de que eles não perceberam nada. Bocas vorazes, por vezes, ofuscam a visão.

Eram do Sudeste do Brasil, com experiência profissional em São Paulo, a capital, e talvez fossem naturais de lá mesmo. Entre garfadas e mastigações, saíam-lhes expressões que denotavam ganância, ambição, negócios, dinheiro, lucros… Falavam de passaportes, duplas nacionalidades, aquisições, clientes que lhes rendiam números positivos nos seus extratos bancários. Puxa-aqui-e-acolá-tira-daqui-bota-acolá-estica-injeta-costura… no final, novinha-em-folha. Eram médicos, cirurgiões plásticos. A mulher assegurava que ofereciam muito mais e melhor do que o mercado local. O homem citava nomes de clientes cujas mamas, barriga e outras partes do corpo ele jurava ter magistralmente tocado e retocado. Parecia faltar pouco para inaugurarem uma clínica em Lisboa.

Escutei a voz ao meu lado. Era a garçonete, que me trazia a comida. Eu, entretido com os vizinhos fazedores de novos corpos e possuidores do segredo do rejusvenescimento, havia-me esquecido do rolo belga, da salada e, em alguma medida, das horas. Mas, aí, o cheirinho, a imagem… o apetite voltou.

Ocorreu-me de verificar o relógio. Os ponteiros trabalhavam obstinadamente. Apressei-me a serrar o rolo, juntar um pouco daqui, um pouco dali, levar o conteúdo à boca e engoli-lo (sim, engolir tudo mesmo, pois não havia tempo para mastigar!).

Os vizinhos surpreendiam-me cada vez mais com a sua avidez. Terminaram os seus pratos e pediram sobremesas. Duas sobremesas. Recordo-me de que uma delas era uma robusta fatia de napoleão, uma tentadora receita de origem ucraniana.

Era muita comida para ingerir. Mesmo assim, a conversa deles permanecia intensa. Transitaram da clínica para a casa da mulher. Ela queixava-se da filha, a qual morava com ela e hospedara um amigo por alguns dias. “Ai, só falava de política”, ela disse ao outro cirurgião, que, de pronto, elogiou o pedaço de napoleão. Ela insistiu em falar do amigo da filha: “Só falava de política. Que cara chato!”. O homem manteve o silêncio, quando a palavra “política” foi mais uma vez mencionada. A mulher encerrou o assunto, registrando o quão alegre ficou com a partida do hóspede. Observei que os dois evitaram o tema “política” a todo o custo. Fosse através do amigo da filha, fosse através dos relatos da própria mulher, “política” parecia causar-lhes algum mal-estar, talvez indigestão.

Levei a última porção de alimento à boca. Não demorou para a garçonete vir levantar o prato e, com um sorriso, perguntar: “Napoleão?”. Gostávamos daquela sobremesa, e ela sabia-o.

“Não”. Olhamo-nos um ao outro e pressentimos uma longa digestão pela frente. Afinal de contas, havia ou não havia um longo fio de cabelo castanho-escuro e uns não-sei-quantos mililitros de botox e silicone no meio do nosso almoço? Acho até que isso tudo tenha sido só o aperitivo. E a política? Bem, essa, se não foi o prato principal, de certeza que foi o ingrediente onipresente.

“Café?”, a garçonete ainda insistiu, mas pedimos a conta.