Poema do anojamento


nem alegrias
nem tristezas:

aquando
juízes trabucam como
atalaias e verdugos
a mercê dos imperialismos,
aparentemente caducos, mas,
a todo o momento,
de sobreaviso para o bote
(e sempre há a chande de mais um,
do próximo golpe.);

aquando
magistrados tramam
ódios contra
os pobres,
os oprimidos,
os subalternos e
os seus parcos representantes;

aquando
togados se convertem
nos mais vis
comissários da desordem;

aquando
os da Justiça pelejam
para encarcerar
a esperança.


anojamento.

 

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Da penetração ao gozo

Humedecida e rompida,
a terra abrigou a estirpe.
Lá está uma pivotante
forçando as entranhas
da terra manhosa.

Nalgum dia fruirei
do seu tronco largo,
da sua sombra,
do seu fruto.

A boca lambuzada,
os olhinhos revirados,
o corpo mole e relaxado
a saborear a polpa
no calor da rede.

O Vento

O vento
jogando-se,
espalhando-se,
perfumando-se
como folhas outonais,
como aromas primaveris,
como embriaguezes pluviais,
como uma mão fálica e aveludada e invasiva e perseverante
de movimentos incessantes e progressivos e voltívolos,
cadenciados e até… furtivos.

O vento vem-se em mim,
por dentro, afagando-me,
ao todo, usurpando-me,
por fim, fecundando-me.

O vento tem-me no fundo
alojado 
sementes
a germinar.

Oblação transgênero

A vós que cobiçais o vigor
dos fluidos que jorram
das minhas entranhas,
recebei-me a mim
sem pretensão maternal.

É por mera culpa católica,
a mim imputada pela blasfêmia cristã,
que aqui estou para servir-vos.
Gozai-vos uns dos outros
e provai da ignomínia
que a mim impusestes.

Se tiverdes fome, vinde
e dar-vos-ei de comer.
Aceitai como oblação
este corpo transgênero,
alimento saudável para o vosso mal,
semente para acoimar a paz clerical.