Quarentena: nota um

Alguém se tem esquecido de banhar-se tanto quanto eu durante esta quarentena? Estava com tanta vontade de tomar banho na última quarta-feira, mas acho que me esqueci de fazê-lo.

Dei-me conta da falta de banho a meio de uma aula. Estou a participar em um curso online. Ainda bem que a sala de aula é virtual, pois, só assim, o professor e os outros alunos não conseguem sentir-me o cheiro.

Às 20h, os colegas começaram a despedir-se. Uma colega disse “até à segunda!” Segunda? Que estranho! Se estávamos a meio da semana, — pensei —, por que razão não teríamos aula na sexta-feira?

Era já sexta-feira, quando me dei por isso tudo. Estava tão cansado e perturbado, que dormi a perguntar-me quando tomara banho.

Sábado, acordei sujo, mas seguro de que a vida tinha de tomar um novo rumo. Era 25 de Abril. Pus-me todo limpinho, com energias renovadas. Mesmo impedido de ir à avenida, nutri as boas memórias.

Como todo 25 de Abril, eu queria vivê-lo à grande! O peito cheio de ganas de descer a Liberdade, com o cravo no peito, a cantar “Grândola, Vila Morena”, que me eriça os pêlos dos pés à cabeça, sempre a ansiar por igualdade, fraternidade e oportunidade para, com segurança, viver os versos de Zeca Afonso: “O povo é quem mais ordena/Dentro de ti, ó cidade”.

Noite de quarentena, dia de insónia

De ontem para hoje dormi mal. Bem mal. Levantei pelas 11h, quase. O corpo, dolorido. Todo dolorido. A boca, ressecada. Bem ressecada. Tive sonhos em catadupa. Todos, pesadelos. Acordei por diversas vezes. O sono, intermitente. Bem intermitente.

Em um momento, a interrupção do adormecimento prolongou-se. Resolvi ler. Apanhei O local da cultura de Homi Bhabha, que deixara ao pé da cama. Antes de abri-lo na página em que parara, apanhei o telemóvel, que também estava ao pé da cama.

Abri uma página no telemóvel. Verifiquei os concursos literários abertos. Sempre faço isto. Tenho a esperança de que um dia vencerei um concurso desses, com um bom prémio monetário. Tenho a esperança de que um dia serei lido e consumido. Tenho a esperança de que um dia me tornarei num escritor profissional. Nunca mando um conto sequer; assim, não há esperança que dê jeito.

No telemóvel, ainda abri o Twitter. Visitei perfis que publicam vídeos pornográficos. Às vezes, mostram-se mais eficientes do que os sites especializados, a cujo acervo tenho a ligeira impressão de ter assistido por inteiro. Em dias de insónia, vê-se o quão útil é a punheta. Há mesmo quem veja a masturbação como uma atitude nacionalista, bom estratagema para os tempos que correm. Abri xvideos.com. Nenhuma novidade. Voltei à página dos concursos literários, na secção do mês. Sentimento de culpa por toda a minha procrastinação.

Apanhei o Bhabha. Dei continuidade à leitura de um capítulo. Concentração baixa. Sentimento de culpa por toda a minha procrastinação. Por que ainda não concluí a tese? Por que ainda não fechei este ciclo? Por que permaneço aqui?

Eram quase 6h. Fechei o livro. Dormi. Sono intermitente. Sonhos. Pesadelos. No último, eu estava casado com uma colega que precisava de legalização em Portugal. O estranho é que não reúno as condições para tal favor. No pesadelo, porém, casáramos. Ela necessitava somente de um marido legal. Após o casamento, cada um seguiu a sua vida. Ela sempre soube da minha gueitude. Um dia, do nada me apareceu com uma criança. Disse-me estar triste e de mim esperava o cumprimento das obrigações de marido. Que estranha. Perguntei-lhe se estava louca, mandei-lhe embora e anunciei-lhe o divórcio. Acordei.

Forcei-me o sono. Doutras vezes, digo, noutras noites de insónia, a tentativa malograria. Porém, desta vez, funcionou. Eram quase 8h, quando acordei com gritos. Levantei-me para ver de onde vinham. Após uns minutos, perturbado com os sons desconhecidos, dormi. Passava das 9h, quando acordei com outro berro. Era eu.

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10h e uns tantos minutos, despertei de vez. Doía-me o corpo. Não me saía da cabeça a cena de terror que vive ontem. Tento seguir todas as orientações da Direção-Geral de Saúde e as regras decretadas pelo estado de emergência para enfrentarmos esse pandemónio. Sim, a pandemia de covid-19 assembleia muito mais do que Trump, Bolsonaro e os seus sectários. Há mais demónios à solta.

Ontem, à tarde, estava eu mais do que acordado, quando estive dentro de um pesadelo. Desde que o Presidente da República decretou o estado de emergência, eu ficava em casa, em quarentena. Ontem, no entanto, saí. Fui à venda do senhor Massamá, para adquirir bens alimentícios essenciais: alho, gengibre, cebola, tomate, banana e uma coisinha ou outra a mais. Bens alimentícios, eu disse. Não pretendia encontrar o novo coronavírus nem mesmo o seu espectro, mas este persegue-nos na sombra.

Na mercearia, estavam somente a esposa e o filho do senhor Massamá. Além do dono, também se faziam ausentes os clientes habituais, antigos moradores da zona. Noutro dia, uma longa fila formara-se com esses fregueses a usarem luvas e máscara. Ontem, ao contrário, não tive de esperar para entrar e servir-me. Logo enchia a cestinha, com o propósito de confinar-me em casa por dias, protegendo-me do espectro do vírus. Quando estiquei o braço para alcançar as cebolas, escutei uma tosse seca por trás de mim. Segurei a respiração e virei a cara para ver o que se passava. A esposa do senhor Massamá tossia, tossia e, ofegante, tossia, sem soltar, entretanto, a caneta a calcular as compras de um cliente. O filho pôs-se nervoso: “O que foi? O que foi?” A mãe, mal disposta, respondeu-lhe: “Engasguei.” Fiquei confuso: será que deveria ter saído de casa? Prefiro estar com fome a estar com o vírus. Tarde demais. Prendi a respiração mais uma vez e dirigi-me ao caixa.

Agora, espero catorze noites de quarentena passarem. Oxalá não tenha mais pesadelos.

Entre o pau e o pão de deus: a primeira lição

Tudo azul? Um senhor lançou-me a pergunta noutro dia. Não lhe soube responder. Um sorriso amarelo. Ele esperava de mim uma resposta pronta. Quiçá pensasse que todos os brasileiros a usavam e, em caso contrário, pelo menos, a compreendiam. Eu deveria ter tomado a expressão como um simples cumprimento, talvez algo equivalente a olá, mas eu não sabia disto. Era a nossa primeira lição de língua portuguesa.

Ensinar português como língua estrangeira é um processo instigante e intrigante. Digo isto a pensar nos sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Sempre, antes de iniciar as lições, pergunto ao estudante as razões que lhe levaram a estudar o idioma. Investigo gostos, leituras, algumas preferências e experiências do estudante, para que eu possa organizar a aula a fim de atender às suas necessidades e alcançar resultados a curto e médio prazos.

Tenho-me deparado com pessoas das mais diversas faixas etárias e origens interessadas na língua. Há quem justifique a aprendizagem para valorizar o currículo profissional. Há quem o faça para ampliar os conhecimentos linguísticos e culturais. Há quem o faça porque não tem nada a fazer e, aparentemente do nada, decide matricular-se numa turma das famosas escolas de idioma ou em um curso do tipo aprenda-tal-língua-em-30-dias.

O homem do tudo-azul era estadunidense. Além da língua materna, o inglês, falava outros idiomas. Disse-me que lecionara espanhol no seu país. Nestes dias, reformado, passa a vida a viajar. Era a terceira vez em Portugal. Quanto ao português, falava sem grandes dificuldades e escrevia e-mails curtos sem o auxílio de tradutor online. Conhecia as variantes linguísticas, porque escutava estações de rádio brasileira e portuguesa na sua cidade, no norte dos Estados Unidos.

Na última visita a Lisboa, decidiu tomar algumas lições de português. Contactou-me atempadamente via e-mail. Combinámos de vermo-nos numa padaria popular da cidade. No e-mail, escreveu que gostava muito do pão de deus e do café daquele lugar.

No seu segundo dia em Lisboa, lá estávamos. Era o primeiro de três encontros, que depois se tornaram quatro. O tempo era limitado. Tínhamos de tirar proveito da sua curta estada. Ele disse-me gostar muito da cidade, queria praticar a língua, mas, sempre que as pessoas ouviam o seu sotaque, automaticamente passavam ao inglês, impedindo-lhe de treinar o nosso idioma. Queixou-se disso, argumentando que o bom conhecimento de inglês que muitos portugueses possuem se converte em um obstáculo para estrangeiros que querem desenvolver a língua em um lugar como Lisboa.

Eu preparara uma aula de sessenta minutos, mas deixei-a um pouco de lado, porque logo percebi a sua vontade de falar, falar e falar. Beleza? Eu falo brasileiro. De vez em quando, ele impostava a voz de forma diferente, conforme as expressões que aplicava e que tinha aprendido como sendo portuguesas ou brasileiras. Fogo. Isso é bué fixe. Registou a sua capacidade de imitar sotaques.

Quando afirmo que ensinar português como língua estrangeira é instigante e intrigante, digo-o a pensar em algumas especificidades da aprendizagem e do ensino de línguas. Mas, de modo particular, aludo àquilo que o aprendiz quer consumir. Sim, refiro a língua estrangeira como um produto que, por diversos motivos, é consumido como se fosse um menu de restaurante fastfood, sem espaço para imprevistos e para os sabores diversos de uma língua cheia de vida.

Alguns estudantes estão condicionados a certos chiados, pronúncias, jargões, gírias e outros elementos. O professor deve estar preparado para deparar-se com as expectativas daqueles que, ante a alteração de um simples ingrediente, a língua pode não lhe saber bem. A interação azeda. A comunicação fica com ruído. A aprendizagem não acontece.

O senhor dos Estados Unidos estranhou o “gosto” da minha língua. Não parece o jeito brasileiro de falar, disse-me. A esse jeito chamo sotaque brasileiro de exportação, aquele que se escuta e se aprende a imitar ao assistir às novelas produzidas por dois grandes canais de televisão do Brasil. Certamente, era o sotaque que ele acostumara ouvir.

O ato de lecionar é uma tarefa desafiante, edificante e, quando somos bem remunerados e atingimos os nossos objetivos com bons resultados, compensadora. Isso vale para qualquer matéria. Cobro dez euros a hora. Considero barato, consideram barato. Já se ganhou melhor. Porém, a levar em conta a concorrência e o mercado de professores-freelancers em Lisboa, aumentar o preço é correr o risco de ficar sem pão. Há gente a cobrar cinco euros a hora. E, como se diz em alguns lugares do Brasil, professor de português é o pau que mais tem em Lisboa.

Um pouco desanimado, convenci-me não ter conquistado o estudante. Não lhe apresentei todos os ingredientes que ele expectava degustar no menu fastfood, algumas gírias, maneirismos de novela… faltou-me o molho. Fazer o quê? Quem é freelancer, ou seja, desempregado a fazer biscate e a ser chamado de empreendedor, passa por essas e outras mais. Quando se falha numa tentativa, volta-se para casa com a certeza de que amanhã será outro dia e que enfrentaremos todas as incertezas de novo, com a esperança de um resultado positivo.

Preparava-me para a despedida. O objetivo do estudante era praticar a língua. A minha função era assessorá-lo, apontando o que deveria melhorar, fazendo ajustes na conjugação verbal ou noutro aspecto sintático. Ele nada falava sobre o próximo encontro, até que me convidou para comer algo e beber um café. Dirigimo-nos ao balcão. Ele pediu ao empregado um pau de deus e dois cafés, se faz favor. O empregado riu, deixando-o meio embaraçado.

Voltámos à mesa. Perguntou-me o motivo do riso do empregado do balcão. Expliquei-lhe que a pronúncia correta era pão, não pau. Aquele era um ditongo nasal. Ainda lhe disse que pau também significava pénis conforme o contexto. Logo, se alguém pede o pau de Deus, quer receber o pénis divino. Insistiu em saber como era possível. Simples, a língua é viva e cheia de possibilidades. Para aprendê-la bem, basta vivê-la para além de um item disponível na montra de uma loja.

Alongámos a lição por alguns minutos. Esquecemo-nos da hora e, quando demos conta de que a noite caía, já se passavam duas horas de lição desde o minuto em que nos sentámos à mesa. Agradeceu-me pelos conhecimentos partilhados. Marcou a segunda lição para alguns dias depois.

Contente, voltei para casa a pensar que, por vezes, o dia de um professor-freelancer tem dessas coisas. Quando tudo parece perdido, vem um pau de deus salvar o dia. A distinção entre o pau e o pão (de deus ou não) é subtil e sem cor. É uma questão de ortoépia e, às vezes, de cavilação.

Vizinhos

Não sei se você conhece os seus vizinhos, mas eu estou a dar pela presença dos meus a cada dia, cada vez mais. Tento ser simpático, mas não para integrar-me à suposta comunidade ou para construir qualquer relação estreita. Sou simpático, acho eu, por ser simpático. A antipatia consome muita energia e gera energias negativas. Não faz bem a ninguém, suponho.

Se um dia algum vizinho precisar de ajuda, seguramente estarei disposto a ajudá-lo. Foi assim, quando vivi em Arroios. A senhora de 91 anos de idade, moradora da cave, estava caída nas escadas, com a cabeça a esvair-se em sangue, a suplicar a Deus que não lhe levasse, pois tinha muito a fazer nesta vida. Nesse dia, prontamente tentei assistir a neta que chegara um ou dois minutos antes de bater à minha porta, desesperada, a gritar por socorro: “A avó está a morrer. Ajuda-me, por favor”. Telefonei para a ambulância e, mais tarde, auxiliei a equipa do INEM a transportar a senhora até à viatura.

Doutra vez, quando morei nos Anjos, também teria ajudado a vizinha do piso de baixo, se fosse o caso. Achei que estivesse em cativeiro. O piso de madeira fazia-me saber de toda a sua vida, quase tudo, mas, sem dúvida, de todas as suas desavenças com a parceira. Elas possuíam uma cadela a quem deram um nome de gente. Eram, assim, no apartamento de baixo três fêmeas, cada uma com nome próprio de humano. Por este motivo, eu nunca sabia se Raquel era a dona ou a cadela, que, presa, se punha a arranhar a madeira velha do soalho.

Não me foi difícil imaginar que, depois de uma briga do casal, aquela que sempre se mostrava mais agressiva tivesse decidido amarrar a outra no quarto em baixo do meu. Assim me convenci durante muito tempo. Ponderei ir lá inquirir ou até participar a situação à APAV ou à PSP. Desisti disso num dia qualquer, a meio da semana, o dia em que extravasaram humores. “Fizeram as pazes”, concluí. Afinal, Raquel era a cadela, já as donas chamavam-se… as donas da Raquel.

Contudo, devo dizer que há vizinhos e vizinhos. Já o disse, já lho disse. Mas ainda não comentei sobre aqueles que, nos últimos seis meses, de regresso a Arroios, no meu mais recente poiso, acabei por encontrar. Não sou refilão. Gostaria de sê-lo e de subir ao primeiro andar e protestar. Talvez devesse ir à porta do lado direito e pedir para se calarem. Até hoje nunca o fiz. Sinto-me ultrajado por mim mesmo, quando sei que estou no meu direito e, mesmo assim, não o reivindico. Quero, porém, convencer-me de que o melhor é estar vivo: há casos de vizinhos que matam vizinhos por muito pouco que se diga.

Recentemente, no primeiro andar, mesmo em cima do meu quarto, alguém arrasta uma cadeira por longas horas noturnas. Poderá sofrer de insónia. Não sei se é esse o caso. Imagino também aquelas cenas de tortura em filmes de suspense: poderá estar amarrado a uma cadeira, a debater-se para alcançar cada canto do seu quarto. Não ouço diálogos. Não tenho a menor ideia se é morador ou moradora. A voz “humana” — sim, entre aspas — que escuto, a única, pertence ou à Alexa ou à Siri. Às 9h, a Siri — talvez a Alexa — grita: “É hora de acordar”.

Por sua vez, no lado direito do mesmo piso onde me encontro, os vizinhos estão quase sempre alcoolizados. Noutro dia, entrei lá e pedi uma sopa. Era ainda tarde, ou seja, cedo. Não havia outros clientes. Tomei a sopa bem apimentada, que foi um santo remédio para a prisão de ventre e a constipação nasal. Eram duas constipações, anal e nasal, nesse dia. São nepaleses e fizeram do local um bar. Trabalham do início da tarde até às tantas da noite, de domingo a domingo. Quando há muitos clientes, alongam o expediente, o que tem acontecido com regularidade nos últimos dias. Naquele dia, aproveitei e anotei o nome do sinal da internet deles e a respetiva senha. Vizinhos são para essas coisas também. Usei-a até ontem, quando percebi que os meus dados tinham sido ativados. Certamente alteraram a senha e não me disseram nada. Absurdo!

Agora passa da duas da manhã. Do meu quarto, escuto gritos. Pode ser briga ou celebração. É melhor manter o benefício da dúvida. Parecem animados os do lado direito. Já estou na cama. Vidros estilhaçam… Que ninguém se tenha aleijado. Tento dormir. Susto. O de cima caiu com cadeira e tudo, acho eu. Puxo o edredão. Faz frio. Talvez agora se arraste pelo chão. Quero dormir.

Às 9h, a Alexa — talvez a Siri — não perdoa: “É hora de acordar!”

Como descriminar quem incrimina o celular?

Há tempos, um amigo mandou-me uma mensagem no WhatsApp a partilhar a sua ideia de investigação para o trabalho de conclusão do seu curso de graduação, o famoso TCC. Muito entusiasmado, ele gostaria de saber a minha opinião sobre o seu tema de pesquisa, que, citando as suas próprias palavras, seria “a descriminação sofrida pelo homem do campo quanto a sua linguagem”.

DESCRIMINAÇÃO? Estranhei o uso do vocábulo, mas, em primeiro lugar, congratulei-o pelo empenho em levar a vida académica a sério. O ingresso no ensino superior era-lhe um sonho antigo e fora alcançado havia menos de um ano. Mesmo com mais da metade do curso pela frente, ele já se preocupava com o TCC, ou seja, com o final do percurso.

Depois dos parabéns, julguei coerente chamar-lhe a atenção para os problemas linguísticos na sua frase. Afinal de contas, além de ser um estudante universitário, ele cursava uma licenciatura em língua portuguesa.

“Afinal, qual foi o crime cometido?” — perguntei-lhe por gracejo, na tentativa de que ele revisasse a frase e identificasse o emprego equivocado do substantivo descriminação. Imaginei que não fosse agradável enviar-lhe uma mensagem do tipo «Olhe, você escreveu errado e pá, blá, pá, pá, blá, blá». Optei pela sutileza, pensei eu, mas não surtiu o efeito expectado. Talvez lhe tenha soado como ironia ou sarcasmo.

“Que crime?” — disse-me, ignorando o erro linguístico e, com um tom quase agressivo, arrematou o seu descontentamento com o seguinte: “Este é o tema. Não entendeu, não, foi?”

Após essa reação, restou-me o confronto direto. Enviei-lhe a seguinte mensagem: “A DISCRIMINAÇÃO sofrida pelo homem do campo quanto À sua linguagem”. Todavia, sem o efeito esperado. Ele repetiu-me que era aquele o seu objeto. Explicou-me o significado do enunciado, do enunciado corrigido por mim, pois o dele produzia outro efeito de sentido. Depois, justificou-me a sua escolha.

Sem pestanejar, expliquei-lhe a diferença semântica entre os substantivos descriminação e discriminação. Conquanto não conste em todos os dicionários, o primeiro é mais utilizado no Brasil do que em Portugal. É formado a partir da junção do prefixo des e do sufixo ção à raiz do verbo criminar, que, por sua vez, é sinónimo de criminalizar e incriminar. O seu significado refere o ato de inocentar alguém acusado de ter cometido um crime. Por sua vez, o segundo substantivo é formado a partir da junção do sufixo ção à raiz do verbo discriminar e denota o ato de distinguir, diferenciar, julgar a partir de preconceitos sociais ou características de outra ordem. Acreditava eu que estivesse a contribuir para os primeiros passos do projeto de investigação. No caso, a simples adequação vocabular ajudaria a apresentar o seu objeto de estudo com clareza.

Porém, o meu interlocutor revelou o desconforto e a ofensa que eu lhe causara: “Eu peço ajuda e tu vem corrigir”. Acrescentou: “É claro que sei a diferença”. Nem por isso, deixou de dar uns pontapés na língua.

Se sabia a diferença entre os substantivos, perguntei-me a mim mesmo, qual a razão de não corrigir os equívocos a tempo? Como eu poderia ajudá-lo sem a emenda linguística? Negligenciar a descuido de um amigo e ainda colega não seria um comportamento honesto da minha parte, principalmente na condição de revisor de texto e professor de português.

De todo modo, esquivei-me de qualquer reparo às suas falas, pois, se eu comentasse algo a respeito da conjugação do verbo quando o sujeito é a segunda pessoa do singular, não sei o que aconteceria. Ele seria capaz de escrever em letras capitais: «LÁ VEM TU DE NOVO!” Resolvi nada referir quanto à concordância verbal, pois não sei se perceberia se eu lhe dissesse: “Agora, tu vens com outra calinada”.

Silenciei-me para evitar indisposições e até animosidades. Além do mais, era ele quem me solicitava a opinião sobre o seu objeto de investigação. Se fosse o contrário, digo, ele a alertar-me sobre algum erro gramatical que eu cometera, eu agradecer-lhe-ia o favor. Confesso que me envergonho quando negligencio o nosso idioma. Esperava do colega — e amigo — uma reação que não aquela, principalmente por se tratar de um futuro professor da nossa língua materna.

Passados alguns minutos, enviou-me o seguinte: “A culpa é deste celular, que corrige tudo errado”.

Respondi-lhe: “Compreendo, pois, às vezes, a tecnologia complica”. Disse-lhe isto, mas convicto de que não era o caso.

Depois de minutos, mandou-me um “É”, bem seco.

“Mas não há como descriminar quem incrimina o celular” — insisti.

“Sei” — enviou-me, mais seco do que o “é”.

“Até porque tu serás um professor de português, não é?!”

Ficou off-line.

Feliz dia em que Maria pariu!

25 de dezembro é referido como o dia do nascimento de Cristo, mas poderia ser bem lembrado como o dia do parto de Maria.

E não foi fácil, imagino. Refiro-me ao parto. Não havia centro médico nas redondezas, ambulâncias e outras facilidades de hoje em dia. Ela praticamente fez tudo sozinha. José estava ali, mas quem sabe como ele agiu? Será que teve paciência com a pobre virgem prenha, a sofrer as dores da gravidez, no chão de uma manjedoura, depois de inúmeras horas a peregrinar de Nazaré a Belém?

Foram léguas a andar e a sentir dores que anunciavam a iminente parição. Isso, sob alta tensão, devido ao decreto real que obrigara toda a gente a deslocar-se longas distâncias para participar de um censo. Imaginem a então futura mãe, preocupada com o seu corpo, mas perturbada em meio à desordem social, ao tumulto causado pelas ordens de um governante corrupto e injusto. As pessoas encontravam-se ansiosas, aflitas, angustiadas. Imaginem Maria.

Mal chegou a Judeia. Não teve jeito. Foi ali mesmo, na manjedoura. Nasceu o menino. E o censo? Que se danasse o censo. Era parir ou parir. Depois, só descansar.

Descansar? Quem disse que Maria pôde? Surgiram uns indivíduos a trazer presentes para o recém-nascido. Maria estava exausta da viagem, do parto e de tudo, mas, sorridente, esteve disponível a todos.

Sinceramente, não sei como resistiu. Parir em qualquer local e sem os devidos cuidados médicos é tornar-se suscetível de contrair alguma doença, bactéria, hemorragia, sei lá o quê… E ainda, em meio a tudo isso e sem o devido repouso, ficou sob o risco da depressão pós-parto.

Não sei como Maria não ficou depressiva pelo resto da vida. Como tratariam a sua depressão naquela altura? Só Deus para responder. Dizem que ele sabe tudo.

Agora, ainda mais sinceramente, o parto de Maria foi difícil naquela época e continua a ser. Atualmente, muitos de nós insistimos em não reconhecer o papel central que Maria exerceu em toda a história. Lembramo-nos do pai e do filho e, não raramente, esquecemo-nos da mãe.

Gostaria de desejar a todas e todos boas festas natalinas, mas com mais amor às mães, pois ninguém merece passar por todas as dores do parto, para depois ser injustiçada, recebendo como prêmio o silenciamento ou mesmo apagamento da sua voz na narrativa oficial.

Feliz dia em que Maria pariu!

Das saudades de papai (I)

Por vezes, duvido muito das saudades que papai me diz sentir. As saudades de ter-me por perto dele e de mamãe. Em geral, telefono e falo com mamãe. Quando ligo, ele nem sempre está em casa, nem sempre está com paciência para conversar.

É raro querer falar ao telefone. Quando isso acontece, uma das primeiras frases que me diz ao segurar o aparelho é “Rapaz, há quanto tempo…”. Pergunta como estou. Começo a falar-lhe e, em fração de segundos, percebo a sua impaciência e mesmo vontade de despedir-se.

Ele pergunta-me como estou. Respondo-lhe “bem”, mas sempre há um “mas”. Não é um “porém”, é um vulgar e monótono “mas”, o qual introduz uma preocupação, um desconforto, uma necessidade premente.

Corta-me: “Rapaz, quero saber como você está.” Para ele, é como se eu usasse a conjunção para tergiversar, para esconder-lhe qualquer coisa, para não falar sobre mim.

“Estou bem, mas muito preocupado com a situação do Lu…” Interrompe-me de novo. Tento completar a frase. De repente, ele precisa de ir atender alguém que está a chamar no portão.

A chegada inesperada de um estranho significa mais do que uma visita. Na verdade, pode não existir visita. Pode, sim, ser o seu ultimato para que eu restrinja o assunto a mim, à minha vida em Lisboa, à minha existência.

Mas como saber de mim sem considerar os outros? Sem ponderar o contexto político em que me insiro dentro e fora do nosso país? Já lhe tentei explicar que não posso desvencilhar-me dos eventos políticos do Brasil e do país onde ocasionalmente resida, além da realidade de outros países, mas… Parece-me que sempre afasta o aparelho do ouvido, antes que eu complete o pensamento.

Mesmo ele, que não aprecia o assunto, não conseguirá fazê-lo, digo, desatar-se da política. Posto que nunca tenha morado noutro lugar que não Mossoró, o quotidiano de papai é afetado por situações que se passam em Brasília, São Paulo, Rio, Natal e outras cidades do mundo. Não há existência que não seja política.

A sua rejeição ao diálogo sobre o tema não ajuda a resolver nada. De facto, piora tudo ou quase tudo. Não lhe permite perceber como o Brasil é visto a partir de fora. Não colabora para que possa receber notícias do filho.

Com frequência, antes de alguém chegar ao portão, papai chama mamãe e incumbe-lhe a tarefa árdua. Sim, parece-me que, para papai, falar com o filho que se jogou no mundo, que vive numa ou noutra margem do Atlântico que não a brasileira e que insiste na conjunção adversativa, é uma ação penosa.

Cara feia

“Que cara feia,” disse a encarar-me, “mas que cara feia, hein!”

Sem acanhamento, observava-me a alguma distância e, antes de cruzarmo-nos, mas já bem próximos, proferiu a frase em alto e bom som. Sem dúvida, tinha-me como destinatário. Por mais que eu me quisesse enganar, aquelas palavras à queima-roupa, quando os nossos corpos se cruzaram e nos encaramos, asseguraram-me que a feieza era minha.

Por vezes, sou lento, muito lento em perceber o que me querem dizer. Interpreto literalmente as frases. Após algum tempo, que pode significar minutos ou horas, recordo do facto, da frase, da expressão do interlocutor, do contexto… Eureca!

De imediato, busquei o meu reflexo numa vidraça. Temi ter a cara torta, paralizada. Um AVC ou qualquer coisa que me tivesse provocado o tal semblante. Fui até a casa a observar a minha imagem refletida em qualquer superfície minimamente espelhada que eu encontrava pela frente.

Não estava paralisado o rosto. Nenhum sinal de AVC nem de qualquer outro problema. Era apenas uma face sisuda, preocupada, austera (e ocupada com a austeridade), uma aparência grave.

A meu tempo, — cujos ponteiros, por vezes, se movem em sintonia com os meus pés —, consigo passar das denotações às conotações para, enfim, entender as pessoas através das palavras, mas também para além da superfície do texto. Então, à porta da casa, deduzi que aquela mulher me quisera perguntar: «Mas qual o motivo dessa cara tão séria?»; ou, em tom amistoso, quisera aconselhar: «Muda a cara e acalma o coração, pois dias melhores virão.»

Ainda sobre a mulher negra presa no banheiro de um supermercado em Lisboa

Onde estará a senhora negra e de meia-idade que, ontem, por volta das 16h, foi aprisionada no banheiro de um supermercado, em Lisboa? O que lhe terão feito os dois funcionários brancos que a forçaram a entrar na casa de banho e ali ficar, contra a sua vontade?

Hoje, despertei atormentado com o facto que testemunhei no dia anterior. Verifiquei o e-mail, mas nenhuma resposta do supermercado me tinha chegado. Mortifiquei-me a pensar que eu deveria lá ter permanecido até que liberassem a mulher, até que a polícia chegasse, até… Mas não fiz nada disso. E, agora, o que terá sido da senhora?

Antes de sair de casa, telefonei ao sector de “Apoio ao cliente” da empresa. Atendeu-me uma senhora que se identificou como Maria. Expliquei-lhe o motivo da minha chamada e comuniquei-lhe o meu e-mail enviado ontem, domingo, 17 de junho de 2018.

Para a minha surpresa, segundo a Maria, o sistema informático do supermercado não recebera a minha queixa. Inexistia registo do meu e-mail, do meu nome, do meu telemóvel, da minha morada e do facto denunciado por mim, a saber, o crime de cerceamento de liberdade de uma mulher por funcionários daquela empresa.

Depois de detalhar o acontecimento à Maria, perguntei-lhe se era aquela a orientação da rede de supermercados aos seus empregados. Deixei-lhe claro que não estava a defender ações de roubo ou qualquer ação congénere e compreendi que necessitassem de tomar medidas para proteger os produtos e o estabelecimento. Porém, conduzir uma pessoa à força para dentro de um cubículo não me parece ser uma atitude legal.

Maria, do outro lado da linha, afirmou que esse não era o posicionamento daquela rede de supermercados. Disse-me que, naquele momento em que falávamos ao telefone, a minha reclamação estava registada e que seria encaminhada para a devida apuração do facto.

Antes de despedir-me, assegurei-me de pedir-lhe um prazo para obter uma resposta da empresa. Ela deu-me uma semana. Resta-me, portanto, esperar e ver o que poderá acontecer. Não obstante, não me surpreenderei se nada fizerem sobre o caso, pois essa cadeia de supermercados estrangeira a atuar em Portugal responde a menos de 5% das reclamações dos seus clientes registadas no Portal da Queixa. Caso nenhuma providência seja tomada, valerá revelar o nome do supermercado e boicotá-lo. Afinal, aquele acontecimento poderá configurar-se num crime.