Cara feia

“Que cara feia,” disse a encarar-me, “mas que cara feia, hein!”

Sem acanhamento, observava-me a alguma distância e, antes de cruzarmo-nos, mas já bem próximos, proferiu a frase em alto e bom som. Sem dúvida, tinha-me como destinatário. Por mais que eu me quisesse enganar, aquelas palavras à queima-roupa, quando os nossos corpos se cruzaram e nos encaramos, asseguraram-me que a feieza era minha.

Por vezes, sou lento, muito lento em perceber o que me querem dizer. Interpreto literalmente as frases. Após algum tempo, que pode significar minutos ou horas, recordo do facto, da frase, da expressão do interlocutor, do contexto… Eureca!

De imediato, busquei o meu reflexo numa vidraça. Temi ter a cara torta, paralizada. Um AVC ou qualquer coisa que me tivesse provocado o tal semblante. Fui até a casa a observar a minha imagem refletida em qualquer superfície minimamente espelhada que eu encontrava pela frente.

Não estava paralisado o rosto. Nenhum sinal de AVC nem de qualquer outro problema. Era apenas uma face sisuda, preocupada, austera (e ocupada com a austeridade), uma aparência grave.

A meu tempo, — cujos ponteiros, por vezes, se movem em sintonia com os meus pés —, consigo passar das denotações às conotações para, enfim, entender as pessoas através das palavras, mas também para além da superfície do texto. Então, à porta da casa, deduzi que aquela mulher me quisera perguntar: «Mas qual o motivo dessa cara tão séria?»; ou, em tom amistoso, quisera aconselhar: «Muda a cara e acalma o coração, pois dias melhores virão.»

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Ainda sobre a mulher negra presa no banheiro de um supermercado em Lisboa

Onde estará a senhora negra e de meia-idade que, ontem, por volta das 16h, foi aprisionada no banheiro de um supermercado, em Lisboa? O que lhe terão feito os dois funcionários brancos que a forçaram a entrar na casa de banho e ali ficar, contra a sua vontade?

Hoje, despertei atormentado com o facto que testemunhei no dia anterior. Verifiquei o e-mail, mas nenhuma resposta do supermercado me tinha chegado. Mortifiquei-me a pensar que eu deveria lá ter permanecido até que liberassem a mulher, até que a polícia chegasse, até… Mas não fiz nada disso. E, agora, o que terá sido da senhora?

Antes de sair de casa, telefonei ao sector de “Apoio ao cliente” da empresa. Atendeu-me uma senhora que se identificou como Maria. Expliquei-lhe o motivo da minha chamada e comuniquei-lhe o meu e-mail enviado ontem, domingo, 17 de junho de 2018.

Para a minha surpresa, segundo a Maria, o sistema informático do supermercado não recebera a minha queixa. Inexistia registo do meu e-mail, do meu nome, do meu telemóvel, da minha morada e do facto denunciado por mim, a saber, o crime de cerceamento de liberdade de uma mulher por funcionários daquela empresa.

Depois de detalhar o acontecimento à Maria, perguntei-lhe se era aquela a orientação da rede de supermercados aos seus empregados. Deixei-lhe claro que não estava a defender ações de roubo ou qualquer ação congénere e compreendi que necessitassem de tomar medidas para proteger os produtos e o estabelecimento. Porém, conduzir uma pessoa à força para dentro de um cubículo não me parece ser uma atitude legal.

Maria, do outro lado da linha, afirmou que esse não era o posicionamento daquela rede de supermercados. Disse-me que, naquele momento em que falávamos ao telefone, a minha reclamação estava registada e que seria encaminhada para a devida apuração do facto.

Antes de despedir-me, assegurei-me de pedir-lhe um prazo para obter uma resposta da empresa. Ela deu-me uma semana. Resta-me, portanto, esperar e ver o que poderá acontecer. Não obstante, não me surpreenderei se nada fizerem sobre o caso, pois essa cadeia de supermercados estrangeira a atuar em Portugal responde a menos de 5% das reclamações dos seus clientes registadas no Portal da Queixa. Caso nenhuma providência seja tomada, valerá revelar o nome do supermercado e boicotá-lo. Afinal, aquele acontecimento poderá configurar-se num crime.

Supermercado aprisiona mulher em casa de banho

Supermercado aprisionou uma mulher na casa de banho. Com vários clientes a testemunharem a cena, funcionários de um supermercado localizado numa zona histórica e turística de Lisboa cercearam a liberdade de uma senhora negra e de meia-idade. Dois funcionários impediram a mulher de sair do local, submeteram-na à humilhação perante todos os presentes e prenderam-na no banheiro, de onde ouvíamos os seus pedidos de socorro.

Sou cliente da loja devido à sua localização próxima de casa e devido a alguns produtos e preços acessíveis. Sempre tive elogios aos funcionários, quando me foi necessário abordá-los para dirimir dúvidas sobre ofertas ou outro assunto relacionado aos produtos do meu interesse.

No entanto, hoje, domingo, 17 de junho de 2018, foram os próprios funcionários a macular o meu dia e a deslustrar a imagem daquele estabelecimento comercial. Fizeram-no exatamente entre às 15h50min e às 16h05min, quando lá estive a comprar pão e batata-doce e quando infelizmente me encontrei entre testemunhas daquela cena triste, infeliz, lastimável de facto.

Uma senhora estava a tentar deixar o local e foi impedida por uma funcionária, que barrou a passagem da primeira e, com certa impaciência, ordenou que o caixa chamasse outro funcionário. Este, ao chegar, ajudou a primeira funcionária a prender a senhora, uma suposta cliente, dentro do banheiro da loja.

O clima ficava tenso. Uma fila formava-se e alongava-se no único caixa a atender-nos. Todos viam o que se passava. Em poucos minutos, foi aberto outro caixa, ao qual passei. Ao ser atendido, perguntei a um dos funcionários que conduzira a senhora para dentro do cubículo o que estava a acontecer. Ele disse-me não valer a pena compartilhar qualquer informação comigo. Eu fiz-lhe um gesto de que aquela situação era desagradável e não me parecia justo e justificável o aprisionamento daquela mulher na casa de banho, de onde ouvíamos os seus pedidos para dali sair.

Entre os clientes, havia a suspeita de que a cliente-aprisionada poderia ter roubado ou tentado roubar algum produto da loja. A considerar um diálogo entre a senhora e a primeira funcionária mencionada, — quando a senhora afirmava não levar nada consigo, e a funcionária a mencionar a palavra “polícia” —, insisti com o segundo funcionário se eu poderia ajudar e pagar o produto que a senhora tentara roubar. Perguntei-lhe qual produto fora o objecto do suposto crime e ofereci-me a pagar por ele. Ele, por sua vez, recusou a minha tentativa de ajudar a senhora, porém manteve-a aprisionada dentro daquele compartimento, enquanto clientes se juntavam ao longo do caixa ao lado da casa de banho, de onde – repito – a senhora pedia ajuda.

Saí da loja aturdido com o tratamento destinado àquela mulher. Conquanto nenhuma ação ou tentativa de roubo esteja a ser justificada por mim, assevero aqui o meu desconforto em estar ali e não poder ajudar a senhora, pois o representante do supermercado impediu-me. Compreendo a sua necessidade de impedir as ações de roubo na loja, mas não posso concordar com a atitude dos dois funcionários — ou da própria loja — de fechar uma mulher negra, de aparência humilde e de meia-idade no banheiro, de cercear a sua liberdade e de submetê-la a toda aquela humilhação.

Da loja à casa, não encontrei os policiais que, com frequência, estão nas redondezas. Voltei aturdido com o que presenciei e frustrado por nada ter feito. Entrei e, de imediato, abri o computador: busquei a loja online, acedi à secção de “Apoio ao cliente” e reportei o ocorrido. E agora?

Agora, espero que o acontecimento seja devidamente apurado e que facto congénere não se venha a repetir. Todavia, ante todo o exposto acima e não obstante a minha ação, na condição de consumidor e cidadão, a inquietação e a sensação de impotência permanecem comigo. Pergunto-me: será essa a orientação do supermercado aos seus funcionários, para desrespeitar os direitos humanos? Como combater esse tipo de ação? O que fazer agora? O que terá acontecido àquela mulher? Saberá a sua família do seu paradeiro? Terá ela uma família em Lisboa? Qual será a sua sorte?

Assustei os alunos… Será?

Assustei os alunos, as alunas e qualquer um que cogitasse contratar os meus serviços de consultoria linguística, fosse para aulas fosse para revisão de texto. Torço para que não os tenha afugentado de vez.

Apenas descobri isso hoje, quando vi a foto do meu perfil de WhatsApp. Afinal, quem gostaria de ter como professor uma pessoa com esta cara?

Há alguns dias, tenho saído por alguns lugares de Lisboa a divulgar aulas de Português para estrangeiros. Isto acontece há cerca de duas semanas. Vejo sítios frequentados por falantes de outros idiomas e lá vou divulgar o meu nome, contactos e serviços.

Vez ou outra, retorno a alguns desses lugares e aproveito para observar como os meus anúncios estão. Papel destacado, um sorriso é-me arrancado. De imediato, vêm-me duas ideias: a primeira é o interesse de alguém por aprender Português, e a segunda, um aluno ou uma aluna para mim. Sinceramente, penso logo na segunda: oportunidade de trabalho.

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Quando regresso a um sítio e vejo que me vandalizaram a propaganda, questiono-me se foi ação de um concorrente ou de algum possível estudante decepcionado ou assustado com o semblante do professor, ou seja, a cara feia que você viu logo acima.

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Não obstante esses casos de vandalismo, notei que, na maioria dos locais, os anúncios conservam-se em bom estado ou foram removidos pelos prováveis discentes. Sim, os meus iminentes alunos e alunas, pois não me demorarão a chamar!

Entretanto, os dias passam-se… e ninguém me contacta. De facto, até então, ninguém me ligou. Por um lado, o silêncio deles tem-me deixado um pouco triste e desanimado. Por outro, tem-me feito refletir sobre estratégias de marketing; sobretudo, marketing pessoal.

Então, o que fiz de errado? Indaguei-me, antes de verificar o meu WhatsApp.

De início, voltei-me à mensagem no topo do anúncio, que redigi em Inglês, a enfocar o público estrangeiro em Lisboa. Elaborei o seguinte texto: “PORTUGUESE LESSONS”, em letras garrafais e seguido de “with a professional who holds a teaching experience in an international and multicultural environments. I have taught Portuguese as foreign language in Ghana and as maternal language in Brazil”, numa linha abaixo e em letras menores.

Julguei importante comunicar a minha experiência docente em Ghana e no Brasil. O contexto multicultural mencionado serve para ambos os países, mas, em especial, Ghana, onde o meu corpo discente era culturalmente diversificado. Algumas turmas abrigavam estudantes de países francófonos vizinhos, além dos ganenses. Muitos deles falavam três ou mais idiomas e desejavam acrescentar o Português aos seus conhecimentos linguísticos. Embora o anúncio ocultasse tais detalhes, introduzia com brevidade uma trajetória profissional. Logo, depois de pensar nisso, inferi que a causa da demora não seria o texto; senão, muitos recusariam o contacto telefônico e o endereço de e-mail.

Foi, então, que resolvi ver a minha foto do WhatsApp, pois, vez ou outra, fico a mudar aquilo. Ponho uma, ponho outra… e até me esqueço da cara que lá tenho.

Ui! Assustei-me a mim mesmo. Só aí entendi por que, noutro dia, um amigo me perguntou se estava tudo bem comigo. Que cara feia, hein! Ali estava a causa. O professor. Eu mesmo. Euzinho espantei os alunos, as alunas, os clientes de revisão de texto… e a mim mesmo.

Agora, torço para que o efeito do susto seja reversível. Não há como mudar o passado, mas há como construir um presente melhor ou, ao menos, investir no hoje, concentrar-se no que está ao alcance, na melhoria das condições de vida imediatas.

Revelada a causa do problema, parti para a solução: alterar a fotografia de rosto do WhatsApp. Algo, a princípio, fácil de fazer, mas qual das minhas caras atrairia mais clientes, digo, alunos e alunas a curto prazo? Melhor: qual delas não os poria a correr?

Enquanto vou ali trocar a foto, peço-lhe um favor. Sim, a você que me lê neste momento peço o favor de divulgar as minhas aulas. Se souber de alguém entusiasmado em estudar Português com sotaque brasileiro e com um professor que possui experiência no ensino do idioma tanto como língua materna quanto como língua estrangeira, basta entregar um papelito daqueles lá de cima.

Já me ponho a torcer que me venham e que venham rápido, enquanto há espaço na agenda. 🙂

Agradeço-lhe sempre pela leitura e pela divulgação. Até a próxima!

 

Cês, cês-cedilha e esses no Clandestino

«Sopa de tomate, raviólis grelhados e com recheio de carne, arroz chao-chao, sopa ácida e picante, arroz branco, chop suey de gambas, raviólis com recheio de vegetais…»

«E a quantidade?»

«Um de cada, depois pedimos mais.»

A empregada de mesa deixou-nos papel e caneta. Fomos céleres em escutar o bucho de cada um. Parecia até uma conferência de panças.

«Ah, mas é melhor pedir logo dois raviólis de cada tipo.»

«Tens razão.»

«Então, vamos lá…»

Dentro de poucos minutos, buscávamos a empregada de mesa, com os pedidos devidamente anotados. Vimo-la e acenamos. Ela, tão ocupada com uma mesa repleta de gente, ignorou-nos sem cerimônia. Na segunda tentativa, sem intervalo entre esta e a primeira, nenhum sinal por tímido que fosse. A fome daquela turma deveria estar mais comprida do que a nossa. Na terceira, um de nós pôs-se de braço erguido, a balançar o papelinho num ato de desespero, como se esse fosse uma bandeira improvisada por indivíduos ilhados, a pedir socorro.

Lá estávamos no Clandestino, como é conhecido talvez o mais famoso restaurante chinês de Lisboa. É importante salientar que é um restaurante popular ou, melhor, um popular restaurante popular ou, ainda melhor, um restaurante que é chinês e popular e bastante frequentado e muito barato e, por ser barato, bastante conhecido e frequentado e popular. É lógico que a comida é gostosa, tem de ser gostosa para cativar os clientes. E o é! Não sei se me faço compreender ou se apenas encho o texto de palha, como dizem em Portugal (ou, como dizem no Brasil, encher linguiça.).

Dizem que existem muitos clandestinos pela cidade, mas refiro-me mesmo àquele Clandestino, com cê maiúsculo, que de clandestino nada tem e que parece ser frequentado por todos e todas que passam pelo Largo da Severa, na Mouraria. Não raramente, forma-se fila ao longo da escada. Quando o dia está tranquilo, um arranja logo uma mesa ou, no máximo, espera uns minutinhos, quando a fila é mínima e concentrada na entrada do estabelecimento, localizado no segundo piso de um edifício pequeno e descerimonioso daquela zona. Nesse dia, a sorte estava do nosso lado.

A empregada de mesa retornou para recolher o papelito com o nosso pedido de socorro, leu-os para si e, logo em seguida, repetiu-os em voz alta para confirmá-los conosco:

«Para bébé?»

«Hã?»

«To drink? Vinho? Wine?»

«Vinho com picante combina?», não nos tínhamos decidido. De facto, não nos tínhamos atentado para bebidas, quando a fome agudizava.

«To drink?», a empregada de mesa interrogou-nos de novo, com certa impaciência, pois outros estômagos gritavam a sua fome e um grupo de pessoas serpenteava-se à porta.

«Prefiro a cerveja ao vinho agora.»

«Cerveça? Beer?»

«Uma, duas… alguém mais?»

«Ok, três cerveça.»

«Isto, três cervejas.»

«Super Bock?»

«Para mim, uma chinesa.»

«Cineça?»

«Sim, por favor.»

«Super Bock.»

«Quero uma chinesa também.»

«E uma água, para mim.»

«All?»

«Yes.»

«Ops, a Chinese beer, please.»

A empregada de mesa olhou-nos com um «hã?», mas logo percebeu que o pedido vinha de outra mesa. As vozes cruzadas não se deviam ao nível da nossa fome. Ali, a concorrência é notada não somente pela espera, mas também pelo comportamento dos frequentadores, que falam, gargalham, brindam, fazem os seus pedidos… todos e tudo simultaneamente.

«Tô morrendo de fome.»

«Também, mas, enfim, após algum tempo de espera, ansiedade e sofrimento, eita, lá vêm, lá vêm, lá vêm…»

«Agora, sim.»

«Até que enfim! Tô morta.»

«E eu?»

«Quase sepultado.»

«Oh, walking-dead-people, chegou, mas, ei, e as cervejas?»

«Please, we ordered some beers and water.»

«One minute, ok?»

«Ok. Thanks.»

«Passa-me os raviólis, por favor.»

«Me dê esse prato aí, por favor.»

«Passa-mo, antes que eu morra.»

«Toma-o, exagerada.»

«Pegue aí, ó.»

«É sério, estou faminta.»

Empanturrávamos por quase uma hora. Entre os vaivéns de pratos, papeávamos amenidades sem nos dar por saciados.

«Raviólis fritos.»

«Sim, sim, mais um prato.»

«Ah, mais duas cervejas.»

Enquanto os novos pedidos nos eram providenciados, as amenidades e as cervejas abrandavam-nos o ardor do picante. Eu tão entretido estava, que raramente sabia quem falava. Apenas escutava as vozes, tentava sintonizar o paladar e a audição, porém não era tarefa fácil. Mas recordo-me da palavra «s-e-C-ç-ã-o» proferida com certa ênfase no cê antes do cê-cedilha. Era uma voz feminina com sotaque português, que foi seguida por uma voz masculina com sotaque brasileiro a continuar a sua narrativa, sem sentir-se inibido pela entonação afetada da amiga. Ele, então, pronunciou «seção» de novo. A correção foi-lhe direcionada mais uma vez. Dessa vez, ele demonstrou o seu descontentamento com o comportamento da amiga:

«Ai, tá bom, né?! Vamos deixar a “secção” que também pode ser “seção” e vamos alegrar a nossa “sessão”, mas agora “s-e-s-s-ã-o” [soletrou compassadamente letra a letra], embora não sejamos um corpo deliberativo, mas vamos lá. Não nos desentendamos pela pronunciação ou pelo emudecimento de uma consoante, certo?»

«Cessão.»

«Como?», o meu amigo que falava tornou a cabeça e perguntou na direção da voz.

«Esqueceste a “cessão” com cê e dois esses. Só te queria dizer que concordo contigo, amigo. São tantos sons e tantas letras, que mais me importa falar e comunicar», o rapaz com sotaque angolano também entendia da língua. Achei que iríamos juntar as mesas, mas não foi para tanto.

Eu estava meio tonto e, no intervalo da conferência linguística, não esperei muito para buscar a empregada de mesa. Vi-a e aguardei que ela olhasse em minha direção. Fê-lo. Ergui a garrafa vazia e, com uma voz arrastada, implorei-lhe: «One more beer, please.» Escutei uma voz com sotaque cabo-verdiano: «Duas, por favor.»

Virei-me para o amigo para confirmar se era uma para ele e uma para mim, mas não: era um rapaz da mesa vizinha. Ali é sempre assim. A audição, o olfato e outros sentidos imiscuem-se. Confundimos todos, assim como as necessidades dos clientes.

«Quere algo más?»

«Por enquanto, não, mas é só por enquanto», rimos todos com a interação entre o grupo da mesa vizinha e a empregada de mesa.

Facilmente, percebe-se a confluência de sons, movimentos, cheiros (até de cigarro, pois, infelizmente, há quem fume lá dentro.), línguas, culturas, nacionalidades… São mundos que se encontram; às vezes, abalroam-se, mas só às vezes.

Era noite de uma sexta-feira ordinária, mas que se fazia especial, pois encontrávamos amigos para celebrar nada além da vida. E tudo ia tão bem até os cês, cês-cedilha e esses pousarem na sopa. Comecei logo a sentir a pimenta. Ardia a língua. Balbuciei para a funcionária da casa: «outa cerv…»

«Quere outra cerveça?», ela indagou-me. «Portugueça ó cineça?»

Agora foi o amigo cabo-verdiano que confirmou: «cineça, sim, cineça, melhor», sob uma chuva de regozijos.

Se estivéssemos ali a escrever, certamente não registaríamos (nem registraríamos) “ssinessa”, “cinessa” ou “xineça”. É que queríamos mesmo era a cerveja. Aperreava-me pensar em fazer transcrições ortoépicas ou fonéticas naquele momento, aquando as papilas gustativas estavam a dilatar.

«Gay.»

«Gay.»

Tornei o rosto e vi-o de costas. Já não me olhava. Observou-me tempo suficiente para ler-me e identificar-me talvez com o rótulo mais fácil para si.

Aconteceu-me noutro dia, quando subia uma travessa que liga a Avenida Almirante Reis à Rua do Benformoso, em Lisboa. Ele passou por mim e cumprimentou-me com um “gay“. Poderia ter sido um “paneleiro”, mas foi um “gay“.

Pegou-me de surpresa, realmente não esperava e, se tivesse pensado melhor, se de facto tivesse a chance de interagir com aquele indivíduo, ter-lhe-ia interpelado se ele também o era. Talvez lhe tivesse perguntado se estava tão na cara a minha “gueitude”. Se me confirmasse que estava, eu sorriria feliz da vida. Uma vez fora do armário, não me venham impô-lo de novo.

Porém, nada disse. Houve nenhuma interação para além da sua voz e da minha escuta. Segui para a casa. Fiquei sem saber se aquele “gay” significaria um “Boas-vindas” e um “Sinta-se em casa”, uma vez que sou novo na área, ou se seria um insulto e um aviso do tipo “Cuida-te, que tô de olho em ti”.

Fiquei intrigado. Seria aquela uma expressão de homofobia? Seria uma atração pelas minhas feições confusas para alguns tanto quanto familiares para outros, resultantes da união entre tipos humanos diferentes? Terá sido pela aparência, pelas duas argolas grossas que pendem das minhas orelhas e que me dão um ar distinto e, ao mesmo tempo, ordinário, com a barba preta, fechada e volumosa? Terá ele me achado um “boy formoso” na Benformoso?

De facto, em torno do seu “gay”, só há espaço para ilações. A única certeza que tenho é a de que lhe chamei a atenção. Fui notado por alguém cujo rosto desconheço e que pode estar incomado com a minha presença na Benformoso, mas também pode estar entusiasmado.

Se me tivesse dado a oportunidade da interlocução, indagava-me «Gay?», e ter-lhe-ia eu respondido com brio:

«Bem gay

Concorrência desleal: Grindr, Tinder, Growlr, Badoo, MeetME…

Concorrência desleal: foi isso que me veio à cabeça depois daquele encontro inusitado num supermercado próximo à minha morada. Digo inusitado, porque imagine que, em Lisboa, eu venha encontrar um amigo dos meus tempos adolescentes em Mossoró. Digo inusitado, porque imagine encontrar alguém num supermercado e do nada começar a falar sobre os atuais desafios enfrentados pelos profissionais do sexo (ou, se preferir, pode chamar de prostitutos, garotos de programa, GP’s, michês…). E, então, foi isso que me aconteceu noutro dia.

Escutei alguém chamar o meu nome, olhei para ver quem era e reconheci-o. Cumprimentos daqui, cumprimentos dali, atualização rápida e aparentemente interessada da vida alheia, até que eu lhe revelo o encerramento da minha bolsa de investigação e, por conseguinte, a minha procura por emprego. E, como tenho jogado vez ou outra, tentei brincar com a possibilidade de eu enveredar pelo mercado do sexo.

“Pensei até em me prostituir, mas aí a idade, quase quarenta, quem contrataria os meus serviços?”, disse-lhe eu, o amigo riu e eu ainda acrescentei: “Mas, afinal, quem paga por sexo hoje em dia? São tantas ofertas, são tantos aplicativos…” Naquele momento, ele parecia-me desconcertado com o rumo da conversa.

Com frequência, vejo pessoas a andar por aí com o celular na mão, com os olhos na tela, com os ouvidos e o coração atentos a qualquer notificação do “app” escolhido. É verdade que podem aguardar informações variadas, não necessariamente ligadas aos chamados “social networking sites”, os quais não necessariamente apresentam cariz sexual. Há quem argumente que o principal objetivo das múltiplas versões dessa tecnologia não seja o de promover o sexo, mas, sim, a amizade, o namoro e também sexo.

A finalidade depende das intenções de cada usuário. Bem, independentemente disso, num passar de olhos nas ruas, no metrô, no ônibus, pode-se pensar que uns e outros caminham não com um telefone à mão, mas com uma bússola. 

Em alguns tantos casos, o ponteiro da bússola funciona com os níveis de testosterona acima do normal. E ainda numa confusão entre o desejo por sexo e o desejo por paixão ou por um vínculo afetivo duradouro, alguns usuários desses aparelhos acreditam-se prestes a alcançar o príncipe encantado a poucos metros dali, a poucos minutos… Ops, quase esbarra noutro corpo guiado por outra bússola, digo, por um “app”.

O meu amigo ainda se mostrava desconcertado com o papo. Acho até que se arrependeu de ter-me cumprimentado. Ao menos, essa era a impressão que eu tinha, mas ele logo teceu o revelador comentário: “A dez minutos do local, em dez minutos chega… é assim hoje”. Eu ri e demonstrei a minha compreensão daquilo que dizia.

“E depois ainda se apaixona”, ele acrescentou.

“Se apaixona?”, perguntei-lhe rindo e, em seguida, emendei: “Assim é demais: de graça e ainda se apaixona. Aí não. Aí não dá. Assim, é concorrência desleal!”

“Como ganha-pão, é melhor tentar outra coisa”, sugeriu-me, mostrando-se mais entendido no assunto do que eu.

Resolvi dar-lhe razão. Afinal, há versões de bússolas para todas as “tribos” e todos os gostos: Grindr, Tinder, Mamba, Badoo, MeetME, Scruff, Gay.com, Growlr… A oferta é vasta e de graça (ou, ao menos, sem custos adicionais ao seu pacote de internet). Não dá para iniciantes, nem para castos (como eu!) nesse mercado.

1º de Janeiro

Que bom que 1º de Janeiro chegou! Sinto-me aliviado. E isto não tem nada a ver com a inauguração de mais um ano conforme o calendário gregoriano. As razões para o meu alívio são de cariz colectivo e social, mas também pessoal. Bem, talvez a ordem seja inversa, pois tem mais relação com os anseios que as pessoas carregam consigo, quando uma nova sequência de doze meses se faz iminente.

No primeiro dia do ano, acordo seguro de que já não há festejos de fim de ano, nomeadamente Natal e “Réveillon”. Considero-os os mais desagradáveis dentre as datas comemorativas celebradas pela maioria das pessoas.

Numa ótica talvez muito particular e bastante pessimista para alguns, compreendo esses eventos como catalizadores de amarguras, energias confusas (em geral, negativas) e empecilhos para atos futuros e imprescindíveis para uma vida digna. Por isto, tenho a esperança de que, a esta altura, ao menos abrandaram todos os sentimentos e comportamentos nada corriqueiros atrelados ao Natal e ao “Réveillon”. Refiro-me, por um lado, às crenças de recomeço, renovação, transformação, mudança… e, por outro, às esperanças de abandono. Sim, há quem acredite que deixamos no ano anterior tudo aquilo que fizemos ou que fizeram e de que não gostamos. E, em consequência, quem pensa assim também crê que, no ano-novo, começará do zero ou será “perdoado” – numa perspectiva supostamente cristã – por todos os seus atos irresponsáveis.

Festas de fim de ano – assim como outras datas comemorativas – podem estimular a hipocrisia, o consumismo, a falta de criticidade e de amor-próprio. Muitos de nós reunimo-nos em família, trocamos presentes… com a ilusão de que todos amamos todos e vivemos de alegrias e na mais plena harmonia. Preferimos escamotear feridas emocionais ainda abertas e dificuldades de sobrivivência a tentar solucioná-las.

Essas comemorações de fim de ano exortam-nos a tomar atitudes que, por vários motivos, não compõem o nosso dia-a-dia. No campo emocional, tentamos exaltar a nossa capacidade de perdoar alguém que nos gerou tristezas e danos. No campo financeiro, empenhados em simular uma realidade em diferentes esferas. Adquirimos isso e aquilo para parecer e aparecer, pois as posses são tomadas como meios para o alcance de sentimentos nobres e vice-versa.

No entanto, o perdão não é uma ação acionada automaticamente nesse período do ano. Não é o mimo trocado no “amigo secreto” que o promove. Não adianta pular as sete ondas, comer as uvas passas e as lentilhas, guardar as sementes de romã na carteira ou porta-moedas, comprar o presente mais caro para o “amigo secreto”. Não é isso que nos fará alcançar saúde, prosperidade, paz, júbilo, dinheiro, amor, júbilo, harmonia, sorte, fortuna, esperança, liberdade, paixão, bondade… e outros itens das “modestas” listas de pedidos ao “Papai Noel”. Se o velhinho existisse, imagino o quão pesado seria o seu saco.

É interessante e, sobretudo, contraditório que passamos de uma condição de vida moderada para uma perdulária. Assim, contraímos dívidas que poderiam ser evitadas. Comprometemos o orçamento do mês seguinte. Se calhar, passamos todo o ano a pagar prestações de carnê ou as facturas do cartão de crédito devido às despesas de Dezembro. Assim, o necessário para uma vida digna deve ser adiado em virtude daquilo que se fez para esbanjar na data de aniversário daquele que pregava a modéstia, a comunhão, a partilha, a benevolência…  

Às vésperas do Natal e do ano-novo, há quem defenda que se vista essa ou aquela cor e o seu poder de trazer dinheiro, saúde, paz… Há quem compre panetones e cestas natalinas para doá-los aos pobres. Há quem leia trechos bíblicos antes da ceia, para dizer que todos somos “imagem e semelhança de Cristo”. Além dessas, outras atitudes são performatizadas nessa época.

Suponho que muitos façam imenso esforço dramatúrgico, porque, nos dias seguintes, as máscaras de ternura cristã caem com facilidade. Alguns que vestiam branco sob a justificativa de paz passam a discriminar negativamente aqueles que vestem branco todas as sextas-feiras. Alguns que diziam que todos os seres eram a imagem e semelhança de Cristo já não toleram a presença de homens e mulheres pobres, negros, homossexuais e com outras marcas identitárias em alguns espaços colectivos. Sem máscaras, esses defendem o discurso da meritocracia, opõem-se a programas sociais para os pobres e até contribuem para o agravamento das desigualdades sociais. As mazelas sociais são utilizadas para justificar o seu direito de oferecer esmola e depois propagandear um espírito cristão, que, a meu ver, é pura hipocrisia popularizada ao longo dos tempos e constantemente estimulada pelo capitalismo contemporâneo. De facto, não raramente, celebramos as datas sem reflectir sobre os seus significados e sobre as nossas experiências durante os mais de trezentos dias vividos até a ceia natalícia.

Portanto, que bom que 1º de Janeiro chegou sem a suposta alucinação e amnésia que envolvem a ilusão da transformação e do abandono, como mencionei antes. Este é mais um ano no calendário gregoriano e espero vivê-lo com a convicção e a lucidez de que estou enredado em uma trajectória constituída por alegrias e mágoas que causamos uns aos outros e a nós mesmos quotidianamente e ainda ciente de que só depende de mim encarar os embates necessários à construção de uma vida digna.

Partilhando a alegria da primeira vez: a perda do “cabaço” de novo

Hoje vim aqui partilhar com vocês a alegria da primeira vez. Não foi inocentemente que pus como subtítulo “a perda do ‘cabaço’ de novo”. Adianto-me a dizer que espero não ferir suscetibilidades. Como vocês devem saber, no Nordeste do Brasil, a expressão “perder o cabaço” é, em geral, vulgar e chula, usada para referir à perda da virgindade. No entanto, o verbete possui, ao menos, quatro acepções. Até nome de peixe é!

A minha intenção é mesmo partilhar uma alegria com vocês. E uso aqui cabaço metaforicamente para registrar o meu desvirginar ante uma nova oportunidade que a vida me ofereceu. Sim, novas oportunidades, novos desafios na vida promovem, em alguma medida, um desvirginar. Então, compartilho a minha primeira experiência à frente das câmeras, sob a direção de Murilo Guimarães, escritor, realizador de vídeos, colaborador da Tribuna do Alentejo e doutorando do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (Para conhecer a sua produção, visite o seu blogue. Clique aqui.).

Foi há aproximadamente um ano que Murilo convidou a mim, a Amanda Guerreiro e a Terêncio Lins, para participarmos de um videoclipe. No vídeo, Amanda representou a Fascista Modernosa; eu, o Fascista Machão; e Terêncio foi o responsável por dar voz ao texto que incorpora uma forte crítica à maneira como temos sido manipulados e como temos manipulado o contingente de informações que nos chegam por meio dos agentes formadores de opinião, incluindo as plataformas de rede social, como Facebook, por exemplo. As filmagens deram-se em alguns locais das freguesias de Avenidas Novas, Campo Pequeno e Entre Campos, em Lisboa.

Convido a todos vocês a assistirem ao videoclipe “Ao Amigo do Fáscio”, que foi ontem relançado no YouTube. Espero que gostem do trabalho e, se eu não estiver pedindo demais, ficaria muito grato se dessem uma curtida e nos ajudassem a divulgar o trabalho.

 

Ainda aproveito o momento para convidá-los a se inscreverem no canal do Youtube de Murilo Guimarães, no qual este e outros vídeos estão disponíveis (Clique aqui.).

Juro que, se eu ficar famoso, dou um autógrafo. Brincadeirinha! Beijossssss. 😀

“Quem cozinha dos dois?” – quando homofobia e sexismo azedam o dia

“Quem cozinha dos dois?” — ela perguntou-me. Há segundos que mais parecem uma eternidade. Eram os poucos segundos necessários a responder uma questão elaborada de forma simples e direta. Estava ali a interagir com uma colega da universidade, alguém que até poderia considerar amiga e que conhecia a minha situação conjugal com Murilo e, por conseguinte, a minha orientação afetivo-sexual.

Que importância esta informação teria para alguém, além das partes envolvidas num relacionamento, casamento ou como se queira chamar? Será que indagaria a mesma questão a um casal heterossexual? Sinceramente, suponho que não o fizesse e que tomasse por certo de que a esposa — ou namorada, a depender do caso — estivesse com a incumbência de cozinhar, limpar e realizar outros afazeres ditos “do lar”. Presumo isto porque, numa perspectiva heteronormativa e patriarcalista, se entende que o trabalho doméstico fique a cargo das mulheres. As atividades são distribuídas entre os indivíduos com base nas suas genitálias, conforme práticas discursivas e não-discursivas binárias que circundam os seus corpos. Em geral, sobrecarregam quem que tem uma vagina ou quem julgam pertencer ao universo qualificado como feminino.

Eu elucubrava sobre o motivo do questionamento. Falávamos sobre qualquer assunto que não a rotina doméstico-familiar numa ótica heteronormativa. Embora ela tentasse dissimular a sua curiosidade dizendo que o marido também cozinhava, eu não a aceitaria como inocente. Súbita e tacitamente, homofobia e sexismo tornaram-se nos pratos principais de uma interlocução que deveria ser tranquila, gostosa e palatável. Recuso-me, porém, a digerir homofobia, sexismo e outros “ismos” que queimam como pimenta quando entra e quando sai. Ora “Quem é que cozinha” não significa a mesma coisa que “Fulano também cozinha”: nesta oração, há inclusão e partilha de tarefas; naquela, há exclusão e imposição de um trabalho que se considera apropriado para um indivíduo com determinado sexo ou identidade de gênero.

Sentia os efeitos desses discursos desde criança, quando tentava ajudar a minha mãe em simples tarefas, como lavar a louça ou faxinar. Não raramente, observei o desconforto e até temor de homens e mulheres da família que falavam qualquer coisa como “Isto é serviço de mulher.” Este é o tipo de situação comunicativa que revela a estreita relação entre sexismo e homofobia. E ainda denuncia como estes são utilizados para impor concepções de normalidade e anormalidade e, em consequência, projetos de vida que enclausuram muitos de nós. Eu gostaria de ter-lhes retorquido naquela época. Se fosse já muito atrevido, ter-lhes-ia dito “Não cai nada, não. Não é colado com cuspe.” Mas não estou seguro de que me livrasse facilmente daquele assédio. 

Aquele rápido intervalo entre pergunta e resposta — quase eterno na minha mente — conduziu-me a eventos escondidos na memória. Além dos momentos da infância de quando espanava a estante ou lavava os pratos para mamãe, recordei-me de um encontro com a mãe de um ex-namorado meu. Na altura, a minha então sogra soube que o seu filho e eu iríamos morar juntos. Ela perguntou-me quem de nós dois iria cozinhar, porque, segundo ela, o seu filho nada sabia sobre esses assuntos. Percebi ali uma expectativa e pressão para que um de nós assumisse papéis de gênero fixos e determinados tradicionalmente pela sociedade heteronormativa e patriarcalista.

Foi nessa visita ao passado que fui buscar a resposta para a colega acadêmica. A minha sensação naquela altura foi parecida com a que senti recentemente. Não entendia e ainda não compreendo bem este tipo de indagação. Será que os dois não podem cozinhar? Será que as duas partes envolvidos num relacionamento não podem responsabilizar-se, igualmente, pela lida doméstica?

A divisão de tarefas domésticas nada tem a ver com capacidades ou incapacidades inatas de cada um dos corpos-sexuados. Será que toda menina nasce predisposta a gostar de cozinhar? E ainda detentora de habilidades especiais para fazê-lo? É evidente que não. Somos treinados e treinadas desde pequenos para isso ou aquilo. Se uma criança não segue o roteiro que lhe impõem mesmo antes do nascimento, ela é posta sob escrutinação por boa parte da sua vida. É posta sob vigilância constante para “vestir” uma identidade que pode não ser o seu número.

Quem é que cozinha, afinal? Respondi-lhe à queima-roupa: “Quem tem fome!” Ora, se o casal é composto por um homem e uma mulher, ele não deve esperar que ela ponha tudo à mesa para que possa comer. Genitália não é — ao menos, não deveria ser — pré-requisito para trabalho algum. Por sua vez, se o casal é composto por duas pessoas do mesmo sexo, digo o mesmo. A identidade de gênero não deve ser pré-requisito para assumir essa ou aquela função.

Portanto, esta deveria ser a regra de uma casa: divisão igualitária do trabalho entre os cônjuges, independentemente de sexo, de identidade de gênero ou de sexualidade. Sentiu fome? Vá à cozinha, pegue os ingredientes necessários, prepare o prato e sirva-se. Se quiser, faço-lhe companhia, mas sem homofobia e sexismo, porque estes não são temperos e até azedam a vida.