Vizinhos

Não sei se você conhece os seus vizinhos, mas eu estou a dar pela presença dos meus a cada dia, cada vez mais. Tento ser simpático, mas não para integrar-me à suposta comunidade ou para construir qualquer relação estreita. Sou simpático, acho eu, por ser simpático. A antipatia consome muita energia e gera energias negativas. Não faz bem a ninguém, suponho.

Se um dia algum vizinho precisar de ajuda, seguramente estarei disposto a ajudá-lo. Foi assim, quando vivi em Arroios. A senhora de 91 anos de idade, moradora da cave, estava caída nas escadas, com a cabeça a esvair-se em sangue, a suplicar a Deus que não lhe levasse, pois tinha muito a fazer nesta vida. Nesse dia, prontamente tentei assistir a neta que chegara um ou dois minutos antes de bater à minha porta, desesperada, a gritar por socorro: “A avó está a morrer. Ajuda-me, por favor”. Telefonei para a ambulância e, mais tarde, auxiliei a equipa do INEM a transportar a senhora até à viatura.

Doutra vez, quando morei em Anjos, também teria ajudado a vizinha do piso de baixo, se fosse o caso. Achei que estivesse em cativeiro. O piso de madeira fazia-me saber de toda a sua vida, quase tudo, mas, sem dúvida, de todas as suas desavenças com a parceira. Elas possuíam uma cadela a quem deram um nome de gente. Eram, assim, no apartamento de baixo três fêmeas, cada uma com nome próprio de humano. Por este motivo, eu nunca sabia se Raquel era a dona ou a cadela, que, presa, se punha a arranhar a madeira velha do soalho.

Não me foi difícil imaginar que, depois de uma briga do casal, aquela que sempre se mostrava mais agressiva tivesse decidido amarrar a outra no quarto em baixo do meu. Assim me convenci durante muito tempo. Ponderei ir lá inquirir ou até participar a situação à APAV ou à PSP. Desisti disso num dia qualquer, a meio da semana, o dia em que extravasaram humores. “Fizeram as pazes”, concluí. Afinal, Raquel era a cadela, já as donas chamavam-se… as donas da Raquel.

Contudo, devo dizer que há vizinhos e vizinhos. Já o disse, já lho disse. Mas ainda não comentei sobre aqueles que, nos últimos seis meses, calhei de encontrar. Não sou refilão. Gostaria de sê-lo e de subir ao primeiro andar e protestar. Talvez devesse ir à porta do lado direito e pedir para se calarem. Até hoje nunca o fiz. Sinto-me ultrajado por mim mesmo, quando sei que estou no meu direito e, mesmo assim, não o reivindico. Quero, porém, convencer-me de que o melhor é estar vivo: há casos de vizinhos que matam vizinhos por muito pouco que se diga.

Recentemente, no primeiro andar, mesmo em cima do meu quarto, alguém arrasta uma cadeira por longas horas noturnas. Poderá sofrer de insónia. Não sei se é esse o caso. Imagino também aquelas cenas de tortura em filmes de suspense: poderá estar amarrado a uma cadeira, a debater-se para alcançar cada canto do seu quarto. Não ouço diálogos. Não tenho a menor ideia se é morador ou moradora. A voz “humana” — sim, entre aspas — que escuto, a única, pertence ou à Alexa ou à Siri. Às 9h, a Siri — talvez a Alexa — grita: “É hora de acordar”.

Por sua vez, no lado direito do mesmo piso onde me encontro, os vizinhos estão quase sempre alcoolizados. Noutro dia, entrei lá e pedi uma sopa. Era ainda tarde, ou seja, cedo. Não havia outros clientes. Tomei a sopa bem apimentada, que foi um santo remédio para a prisão de ventre e a constipação nasal. Eram duas constipações, anal e nasal, nesse dia. São nepaleses e fizeram do local um bar. Trabalham do início da tarde à noite, de domingo a domingo. Quando há muitos clientes, alongam o expediente, o que tem acontecido com regularidade nos últimos dias. Naquele dia, aproveitei e anotei o nome do sinal de internet deles e a senha. Vizinhos são pra essas coisas também. Usei-a até ontem, quando percebi que os meus dados tinham sido ativados. Certamente alteraram a senha e não me disseram nada. Absurdo!

Agora passa da duas da manhã. Do meu quarto, escuto gritos. Pode ser briga ou celebração. É melhor manter o benefício da dúvida. Parecem animados os do lado direito. Já estou na cama. Vidros estilhaçam… Que ninguém se tenha aleijado. Tento dormir. Susto. O de cima caiu com cadeira e tudo, acho eu. Puxo o edredão. Faz frio. Talvez agora se arraste pelo chão. Quero dormir.

Às 9h, a Alexa — talvez a Siri — não perdoa: “É hora de acordar!”

Como descriminar quem incrimina o celular?

Há tempos, um amigo mandou-me uma mensagem no WhatsApp a partilhar a sua ideia de investigação para o trabalho de conclusão do seu curso de graduação, o famoso TCC. Muito entusiasmado, ele gostaria de saber a minha opinião sobre o seu tema de pesquisa, que, citando as suas próprias palavras, seria “a descriminação sofrida pelo homem do campo quanto a sua linguagem”.

DESCRIMINAÇÃO? Estranhei o uso do vocábulo, mas, em primeiro lugar, congratulei-o pelo empenho em levar a vida académica a sério. O ingresso no ensino superior era-lhe um sonho antigo e fora alcançado havia menos de um ano. Mesmo com mais da metade do curso pela frente, ele já se preocupava com o TCC, ou seja, com o final do percurso.

Depois dos parabéns, julguei coerente chamar-lhe a atenção para os problemas linguísticos na sua frase. Afinal de contas, além de ser um estudante universitário, ele cursava uma licenciatura em língua portuguesa.

“Afinal, qual foi o crime cometido?” — perguntei-lhe por gracejo, na tentativa de que ele revisasse a frase e identificasse o emprego equivocado do substantivo descriminação. Imaginei que não fosse agradável enviar-lhe uma mensagem do tipo «Olhe, você escreveu errado e pá, blá, pá, pá, blá, blá». Optei pela sutileza, pensei eu, mas não surtiu o efeito expectado. Talvez lhe tenha soado como ironia ou sarcasmo.

“Que crime?” — disse-me, ignorando o erro linguístico e, com um tom quase agressivo, arrematou o seu descontentamento com o seguinte: “Este é o tema. Não entendeu, não, foi?”

Após essa reação, restou-me o confronto direto. Enviei-lhe a seguinte mensagem: “A DISCRIMINAÇÃO sofrida pelo homem do campo quanto À sua linguagem”. Todavia, sem o efeito esperado. Ele repetiu-me que era aquele o seu objeto. Explicou-me o significado do enunciado, do enunciado corrigido por mim, pois o dele produzia outro efeito de sentido. Depois, justificou-me a sua escolha.

Sem pestanejar, expliquei-lhe a diferença semântica entre os substantivos descriminação e discriminação. Conquanto não conste em todos os dicionários, o primeiro é mais utilizado no Brasil do que em Portugal. É formado a partir da junção do prefixo des e do sufixo ção à raiz do verbo criminar, que, por sua vez, é sinónimo de criminalizar e incriminar. O seu significado refere o ato de inocentar alguém acusado de ter cometido um crime. Por sua vez, o segundo substantivo é formado a partir da junção do sufixo ção à raiz do verbo discriminar e denota o ato de distinguir, diferenciar, julgar a partir de preconceitos sociais ou características de outra ordem. Acreditava eu que estivesse a contribuir para os primeiros passos do projeto de investigação. No caso, a simples adequação vocabular ajudaria a apresentar o seu objeto de estudo com clareza.

Porém, o meu interlocutor revelou o desconforto e a ofensa que eu lhe causara: “Eu peço ajuda e tu vem corrigir”. Acrescentou: “É claro que sei a diferença”. Nem por isso, deixou de dar uns pontapés na língua.

Se sabia a diferença entre os substantivos, perguntei-me a mim mesmo, qual a razão de não corrigir os equívocos a tempo? Como eu poderia ajudá-lo sem a emenda linguística? Negligenciar a descuido de um amigo e ainda colega não seria um comportamento honesto da minha parte, principalmente na condição de revisor de texto e professor de português.

De todo modo, esquivei-me de qualquer reparo às suas falas, pois, se eu comentasse algo a respeito da conjugação do verbo quando o sujeito é a segunda pessoa do singular, não sei o que aconteceria. Ele seria capaz de escrever em letras capitais: «LÁ VEM TU DE NOVO!” Resolvi nada referir quanto à concordância verbal, pois não sei se perceberia se eu lhe dissesse: “Agora, tu vens com outra calinada”.

Silenciei-me para evitar indisposições e até animosidades. Além do mais, era ele quem me solicitava a opinião sobre o seu objeto de investigação. Se fosse o contrário, digo, ele a alertar-me sobre algum erro gramatical que eu cometera, eu agradecer-lhe-ia o favor. Confesso que me envergonho quando negligencio o nosso idioma. Esperava do colega — e amigo — uma reação que não aquela, principalmente por se tratar de um futuro professor da nossa língua materna.

Passados alguns minutos, enviou-me o seguinte: “A culpa é deste celular, que corrige tudo errado”.

Respondi-lhe: “Compreendo, pois, às vezes, a tecnologia complica”. Disse-lhe isto, mas convicto de que não era o caso.

Depois de minutos, mandou-me um “É”, bem seco.

“Mas não há como descriminar quem incrimina o celular” — insisti.

“Sei” — enviou-me, mais seco do que o “é”.

“Até porque tu serás um professor de português, não é?!”

Ficou off-line.

Feliz dia em que Maria pariu!

25 de dezembro é referido como o dia do nascimento de Cristo, mas poderia ser bem lembrado como o dia do parto de Maria.

E não foi fácil, imagino. Refiro-me ao parto. Não havia centro médico nas redondezas, ambulâncias e outras facilidades de hoje em dia. Ela praticamente fez tudo sozinha. José estava ali, mas quem sabe como ele agiu? Será que teve paciência com a pobre virgem prenha, a sofrer as dores da gravidez, no chão de uma manjedoura, depois de inúmeras horas a peregrinar de Nazaré a Belém?

Foram léguas a andar e a sentir dores que anunciavam a iminente parição. Isso, sob alta tensão, devido ao decreto real que obrigara toda a gente a deslocar-se longas distâncias para participar de um censo. Imaginem a então futura mãe, preocupada com o seu corpo, mas perturbada em meio à desordem social, ao tumulto causado pelas ordens de um governante corrupto e injusto. As pessoas encontravam-se ansiosas, aflitas, angustiadas. Imaginem Maria.

Mal chegou a Judeia. Não teve jeito. Foi ali mesmo, na manjedoura. Nasceu o menino. E o censo? Que se danasse o censo. Era parir ou parir. Depois, só descansar.

Descansar? Quem disse que Maria pôde? Surgiram uns indivíduos a trazer presentes para o recém-nascido. Maria estava exausta da viagem, do parto e de tudo, mas, sorridente, esteve disponível a todos.

Sinceramente, não sei como resistiu. Parir em qualquer local e sem os devidos cuidados médicos é tornar-se suscetível de contrair alguma doença, bactéria, hemorragia, sei lá o quê… E ainda, em meio a tudo isso e sem o devido repouso, ficou sob o risco da depressão pós-parto.

Não sei como Maria não ficou depressiva pelo resto da vida. Como tratariam a sua depressão naquela altura? Só Deus para responder. Dizem que ele sabe tudo.

Agora, ainda mais sinceramente, o parto de Maria foi difícil naquela época e continua a ser. Atualmente, muitos de nós insistimos em não reconhecer o papel central que Maria exerceu em toda a história. Lembramo-nos do pai e do filho e, não raramente, esquecemo-nos da mãe.

Gostaria de desejar a todas e todos boas festas natalinas, mas com mais amor às mães, pois ninguém merece passar por todas as dores do parto, para depois ser injustiçada, recebendo como prêmio o silenciamento ou mesmo apagamento da sua voz na narrativa oficial.

Feliz dia em que Maria pariu!

Das saudades de papai (I)

Por vezes, duvido muito das saudades que papai me diz sentir. As saudades de ter-me por perto dele e de mamãe. Em geral, telefono e falo com mamãe. Quando ligo, ele nem sempre está em casa, nem sempre está com paciência para conversar.

É raro querer falar ao telefone. Quando isso acontece, uma das primeiras frases que me diz ao segurar o aparelho é “Rapaz, há quanto tempo…”. Pergunta como estou. Começo a falar-lhe e, em fração de segundos, percebo a sua impaciência e mesmo vontade de despedir-se.

Ele pergunta-me como estou. Respondo-lhe “bem”, mas sempre há um “mas”. Não é um “porém”, é um vulgar e monótono “mas”, o qual introduz uma preocupação, um desconforto, uma necessidade premente.

Corta-me: “Rapaz, quero saber como você está.” Para ele, é como se eu usasse a conjunção para tergiversar, para esconder-lhe qualquer coisa, para não falar sobre mim.

“Estou bem, mas muito preocupado com a situação do Lu…” Interrompe-me de novo. Tento completar a frase. De repente, ele precisa de ir atender alguém que está a chamar no portão.

A chegada inesperada de um estranho significa mais do que uma visita. Na verdade, pode não existir visita. Pode, sim, ser o seu ultimato para que eu restrinja o assunto a mim, à minha vida em Lisboa, à minha existência.

Mas como saber de mim sem considerar os outros? Sem ponderar o contexto político em que me insiro dentro e fora do nosso país? Já lhe tentei explicar que não posso desvencilhar-me dos eventos políticos do Brasil e do país onde ocasionalmente resida, além da realidade de outros países, mas… Parece-me que sempre afasta o aparelho do ouvido, antes que eu complete o pensamento.

Mesmo ele, que não aprecia o assunto, não conseguirá fazê-lo, digo, desatar-se da política. Posto que nunca tenha morado noutro lugar que não Mossoró, o quotidiano de papai é afetado por situações que se passam em Brasília, São Paulo, Rio, Natal e outras cidades do mundo. Não há existência que não seja política.

A sua rejeição ao diálogo sobre o tema não ajuda a resolver nada. De facto, piora tudo ou quase tudo. Não lhe permite perceber como o Brasil é visto a partir de fora. Não colabora para que possa receber notícias do filho.

Com frequência, antes de alguém chegar ao portão, papai chama mamãe e incumbe-lhe a tarefa árdua. Sim, parece-me que, para papai, falar com o filho que se jogou no mundo, que vive numa ou noutra margem do Atlântico que não a brasileira e que insiste na conjunção adversativa, é uma ação penosa.

Cara feia

“Que cara feia,” disse a encarar-me, “mas que cara feia, hein!”

Sem acanhamento, observava-me a alguma distância e, antes de cruzarmo-nos, mas já bem próximos, proferiu a frase em alto e bom som. Sem dúvida, tinha-me como destinatário. Por mais que eu me quisesse enganar, aquelas palavras à queima-roupa, quando os nossos corpos se cruzaram e nos encaramos, asseguraram-me que a feieza era minha.

Por vezes, sou lento, muito lento em perceber o que me querem dizer. Interpreto literalmente as frases. Após algum tempo, que pode significar minutos ou horas, recordo do facto, da frase, da expressão do interlocutor, do contexto… Eureca!

De imediato, busquei o meu reflexo numa vidraça. Temi ter a cara torta, paralizada. Um AVC ou qualquer coisa que me tivesse provocado o tal semblante. Fui até a casa a observar a minha imagem refletida em qualquer superfície minimamente espelhada que eu encontrava pela frente.

Não estava paralisado o rosto. Nenhum sinal de AVC nem de qualquer outro problema. Era apenas uma face sisuda, preocupada, austera (e ocupada com a austeridade), uma aparência grave.

A meu tempo, — cujos ponteiros, por vezes, se movem em sintonia com os meus pés —, consigo passar das denotações às conotações para, enfim, entender as pessoas através das palavras, mas também para além da superfície do texto. Então, à porta da casa, deduzi que aquela mulher me quisera perguntar: «Mas qual o motivo dessa cara tão séria?»; ou, em tom amistoso, quisera aconselhar: «Muda a cara e acalma o coração, pois dias melhores virão.»

Ainda sobre a mulher negra presa no banheiro de um supermercado em Lisboa

Onde estará a senhora negra e de meia-idade que, ontem, por volta das 16h, foi aprisionada no banheiro de um supermercado, em Lisboa? O que lhe terão feito os dois funcionários brancos que a forçaram a entrar na casa de banho e ali ficar, contra a sua vontade?

Hoje, despertei atormentado com o facto que testemunhei no dia anterior. Verifiquei o e-mail, mas nenhuma resposta do supermercado me tinha chegado. Mortifiquei-me a pensar que eu deveria lá ter permanecido até que liberassem a mulher, até que a polícia chegasse, até… Mas não fiz nada disso. E, agora, o que terá sido da senhora?

Antes de sair de casa, telefonei ao sector de “Apoio ao cliente” da empresa. Atendeu-me uma senhora que se identificou como Maria. Expliquei-lhe o motivo da minha chamada e comuniquei-lhe o meu e-mail enviado ontem, domingo, 17 de junho de 2018.

Para a minha surpresa, segundo a Maria, o sistema informático do supermercado não recebera a minha queixa. Inexistia registo do meu e-mail, do meu nome, do meu telemóvel, da minha morada e do facto denunciado por mim, a saber, o crime de cerceamento de liberdade de uma mulher por funcionários daquela empresa.

Depois de detalhar o acontecimento à Maria, perguntei-lhe se era aquela a orientação da rede de supermercados aos seus empregados. Deixei-lhe claro que não estava a defender ações de roubo ou qualquer ação congénere e compreendi que necessitassem de tomar medidas para proteger os produtos e o estabelecimento. Porém, conduzir uma pessoa à força para dentro de um cubículo não me parece ser uma atitude legal.

Maria, do outro lado da linha, afirmou que esse não era o posicionamento daquela rede de supermercados. Disse-me que, naquele momento em que falávamos ao telefone, a minha reclamação estava registada e que seria encaminhada para a devida apuração do facto.

Antes de despedir-me, assegurei-me de pedir-lhe um prazo para obter uma resposta da empresa. Ela deu-me uma semana. Resta-me, portanto, esperar e ver o que poderá acontecer. Não obstante, não me surpreenderei se nada fizerem sobre o caso, pois essa cadeia de supermercados estrangeira a atuar em Portugal responde a menos de 5% das reclamações dos seus clientes registadas no Portal da Queixa. Caso nenhuma providência seja tomada, valerá revelar o nome do supermercado e boicotá-lo. Afinal, aquele acontecimento poderá configurar-se num crime.

Supermercado aprisiona mulher em casa de banho

Supermercado aprisionou uma mulher na casa de banho. Com vários clientes a testemunharem a cena, funcionários de um supermercado localizado numa zona histórica e turística de Lisboa cercearam a liberdade de uma senhora negra e de meia-idade. Dois funcionários impediram a mulher de sair do local, submeteram-na à humilhação perante todos os presentes e prenderam-na no banheiro, de onde ouvíamos os seus pedidos de socorro.

Sou cliente da loja devido à sua localização próxima de casa e devido a alguns produtos e preços acessíveis. Sempre tive elogios aos funcionários, quando me foi necessário abordá-los para dirimir dúvidas sobre ofertas ou outro assunto relacionado aos produtos do meu interesse.

No entanto, hoje, domingo, 17 de junho de 2018, foram os próprios funcionários a macular o meu dia e a deslustrar a imagem daquele estabelecimento comercial. Fizeram-no exatamente entre às 15h50min e às 16h05min, quando lá estive a comprar pão e batata-doce e quando infelizmente me encontrei entre testemunhas daquela cena triste, infeliz, lastimável de facto.

Uma senhora estava a tentar deixar o local e foi impedida por uma funcionária, que barrou a passagem da primeira e, com certa impaciência, ordenou que o caixa chamasse outro funcionário. Este, ao chegar, ajudou a primeira funcionária a prender a senhora, uma suposta cliente, dentro do banheiro da loja.

O clima ficava tenso. Uma fila formava-se e alongava-se no único caixa a atender-nos. Todos viam o que se passava. Em poucos minutos, foi aberto outro caixa, ao qual passei. Ao ser atendido, perguntei a um dos funcionários que conduzira a senhora para dentro do cubículo o que estava a acontecer. Ele disse-me não valer a pena compartilhar qualquer informação comigo. Eu fiz-lhe um gesto de que aquela situação era desagradável e não me parecia justo e justificável o aprisionamento daquela mulher na casa de banho, de onde ouvíamos os seus pedidos para dali sair.

Entre os clientes, havia a suspeita de que a cliente-aprisionada poderia ter roubado ou tentado roubar algum produto da loja. A considerar um diálogo entre a senhora e a primeira funcionária mencionada, — quando a senhora afirmava não levar nada consigo, e a funcionária a mencionar a palavra “polícia” —, insisti com o segundo funcionário se eu poderia ajudar e pagar o produto que a senhora tentara roubar. Perguntei-lhe qual produto fora o objecto do suposto crime e ofereci-me a pagar por ele. Ele, por sua vez, recusou a minha tentativa de ajudar a senhora, porém manteve-a aprisionada dentro daquele compartimento, enquanto clientes se juntavam ao longo do caixa ao lado da casa de banho, de onde – repito – a senhora pedia ajuda.

Saí da loja aturdido com o tratamento destinado àquela mulher. Conquanto nenhuma ação ou tentativa de roubo esteja a ser justificada por mim, assevero aqui o meu desconforto em estar ali e não poder ajudar a senhora, pois o representante do supermercado impediu-me. Compreendo a sua necessidade de impedir as ações de roubo na loja, mas não posso concordar com a atitude dos dois funcionários — ou da própria loja — de fechar uma mulher negra, de aparência humilde e de meia-idade no banheiro, de cercear a sua liberdade e de submetê-la a toda aquela humilhação.

Da loja à casa, não encontrei os policiais que, com frequência, estão nas redondezas. Voltei aturdido com o que presenciei e frustrado por nada ter feito. Entrei e, de imediato, abri o computador: busquei a loja online, acedi à secção de “Apoio ao cliente” e reportei o ocorrido. E agora?

Agora, espero que o acontecimento seja devidamente apurado e que facto congénere não se venha a repetir. Todavia, ante todo o exposto acima e não obstante a minha ação, na condição de consumidor e cidadão, a inquietação e a sensação de impotência permanecem comigo. Pergunto-me: será essa a orientação do supermercado aos seus funcionários, para desrespeitar os direitos humanos? Como combater esse tipo de ação? O que fazer agora? O que terá acontecido àquela mulher? Saberá a sua família do seu paradeiro? Terá ela uma família em Lisboa? Qual será a sua sorte?

Assustei os alunos… Será?

Assustei os alunos, as alunas e qualquer um que cogitasse contratar os meus serviços de consultoria linguística, fosse para aulas fosse para revisão de texto. Torço para que não os tenha afugentado de vez.

Apenas descobri isso hoje, quando vi a foto do meu perfil de WhatsApp. Afinal, quem gostaria de ter como professor uma pessoa com esta cara?

Há alguns dias, tenho saído por alguns lugares de Lisboa a divulgar aulas de Português para estrangeiros. Isto acontece há cerca de duas semanas. Vejo sítios frequentados por falantes de outros idiomas e lá vou divulgar o meu nome, contactos e serviços.

Vez ou outra, retorno a alguns desses lugares e aproveito para observar como os meus anúncios estão. Papel destacado, um sorriso é-me arrancado. De imediato, vêm-me duas ideias: a primeira é o interesse de alguém por aprender Português, e a segunda, um aluno ou uma aluna para mim. Sinceramente, penso logo na segunda: oportunidade de trabalho.

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Quando regresso a um sítio e vejo que me vandalizaram a propaganda, questiono-me se foi ação de um concorrente ou de algum possível estudante decepcionado ou assustado com o semblante do professor, ou seja, a cara feia que você viu logo acima.

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Não obstante esses casos de vandalismo, notei que, na maioria dos locais, os anúncios conservam-se em bom estado ou foram removidos pelos prováveis discentes. Sim, os meus iminentes alunos e alunas, pois não me demorarão a chamar!

Entretanto, os dias passam-se… e ninguém me contacta. De facto, até então, ninguém me ligou. Por um lado, o silêncio deles tem-me deixado um pouco triste e desanimado. Por outro, tem-me feito refletir sobre estratégias de marketing; sobretudo, marketing pessoal.

Então, o que fiz de errado? Indaguei-me, antes de verificar o meu WhatsApp.

De início, voltei-me à mensagem no topo do anúncio, que redigi em Inglês, a enfocar o público estrangeiro em Lisboa. Elaborei o seguinte texto: “PORTUGUESE LESSONS”, em letras garrafais e seguido de “with a professional who holds a teaching experience in an international and multicultural environments. I have taught Portuguese as foreign language in Ghana and as maternal language in Brazil”, numa linha abaixo e em letras menores.

Julguei importante comunicar a minha experiência docente em Ghana e no Brasil. O contexto multicultural mencionado serve para ambos os países, mas, em especial, Ghana, onde o meu corpo discente era culturalmente diversificado. Algumas turmas abrigavam estudantes de países francófonos vizinhos, além dos ganenses. Muitos deles falavam três ou mais idiomas e desejavam acrescentar o Português aos seus conhecimentos linguísticos. Embora o anúncio ocultasse tais detalhes, introduzia com brevidade uma trajetória profissional. Logo, depois de pensar nisso, inferi que a causa da demora não seria o texto; senão, muitos recusariam o contacto telefônico e o endereço de e-mail.

Foi, então, que resolvi ver a minha foto do WhatsApp, pois, vez ou outra, fico a mudar aquilo. Ponho uma, ponho outra… e até me esqueço da cara que lá tenho.

Ui! Assustei-me a mim mesmo. Só aí entendi por que, noutro dia, um amigo me perguntou se estava tudo bem comigo. Que cara feia, hein! Ali estava a causa. O professor. Eu mesmo. Euzinho espantei os alunos, as alunas, os clientes de revisão de texto… e a mim mesmo.

Agora, torço para que o efeito do susto seja reversível. Não há como mudar o passado, mas há como construir um presente melhor ou, ao menos, investir no hoje, concentrar-se no que está ao alcance, na melhoria das condições de vida imediatas.

Revelada a causa do problema, parti para a solução: alterar a fotografia de rosto do WhatsApp. Algo, a princípio, fácil de fazer, mas qual das minhas caras atrairia mais clientes, digo, alunos e alunas a curto prazo? Melhor: qual delas não os poria a correr?

Enquanto vou ali trocar a foto, peço-lhe um favor. Sim, a você que me lê neste momento peço o favor de divulgar as minhas aulas. Se souber de alguém entusiasmado em estudar Português com sotaque brasileiro e com um professor que possui experiência no ensino do idioma tanto como língua materna quanto como língua estrangeira, basta entregar um papelito daqueles lá de cima.

Já me ponho a torcer que me venham e que venham rápido, enquanto há espaço na agenda. 🙂

Agradeço-lhe sempre pela leitura e pela divulgação. Até a próxima!

 

Cês, cês-cedilha e esses no Clandestino

«Sopa de tomate, raviólis grelhados e com recheio de carne, arroz chao-chao, sopa ácida e picante, arroz branco, chop suey de gambas, raviólis com recheio de vegetais…»

«E a quantidade?»

«Um de cada, depois pedimos mais.»

A empregada de mesa deixou-nos papel e caneta. Fomos céleres em escutar o bucho de cada um. Parecia até uma conferência de panças.

«Ah, mas é melhor pedir logo dois raviólis de cada tipo.»

«Tens razão.»

«Então, vamos lá…»

Dentro de poucos minutos, buscávamos a empregada de mesa, com os pedidos devidamente anotados. Vimo-la e acenamos. Ela, tão ocupada com uma mesa repleta de gente, ignorou-nos sem cerimônia. Na segunda tentativa, sem intervalo entre esta e a primeira, nenhum sinal por tímido que fosse. A fome daquela turma deveria estar mais comprida do que a nossa. Na terceira, um de nós pôs-se de braço erguido, a balançar o papelinho num ato de desespero, como se esse fosse uma bandeira improvisada por indivíduos ilhados, a pedir socorro.

Lá estávamos no Clandestino, como é conhecido talvez o mais famoso restaurante chinês de Lisboa. É importante salientar que é um restaurante popular ou, melhor, um popular restaurante popular ou, ainda melhor, um restaurante que é chinês e popular e bastante frequentado e muito barato e, por ser barato, bastante conhecido e frequentado e popular. É lógico que a comida é gostosa, tem de ser gostosa para cativar os clientes. E o é! Não sei se me faço compreender ou se apenas encho o texto de palha, como dizem em Portugal (ou, como dizem no Brasil, encher linguiça.).

Dizem que existem muitos clandestinos pela cidade, mas refiro-me mesmo àquele Clandestino, com cê maiúsculo, que de clandestino nada tem e que parece ser frequentado por todos e todas que passam pelo Largo da Severa, na Mouraria. Não raramente, forma-se fila ao longo da escada. Quando o dia está tranquilo, um arranja logo uma mesa ou, no máximo, espera uns minutinhos, quando a fila é mínima e concentrada na entrada do estabelecimento, localizado no segundo piso de um edifício pequeno e descerimonioso daquela zona. Nesse dia, a sorte estava do nosso lado.

A empregada de mesa retornou para recolher o papelito com o nosso pedido de socorro, leu-os para si e, logo em seguida, repetiu-os em voz alta para confirmá-los conosco:

«Para bébé?»

«Hã?»

«To drink? Vinho? Wine?»

«Vinho com picante combina?», não nos tínhamos decidido. De facto, não nos tínhamos atentado para bebidas, quando a fome agudizava.

«To drink?», a empregada de mesa interrogou-nos de novo, com certa impaciência, pois outros estômagos gritavam a sua fome e um grupo de pessoas serpenteava-se à porta.

«Prefiro a cerveja ao vinho agora.»

«Cerveça? Beer?»

«Uma, duas… alguém mais?»

«Ok, três cerveça.»

«Isto, três cervejas.»

«Super Bock?»

«Para mim, uma chinesa.»

«Cineça?»

«Sim, por favor.»

«Super Bock.»

«Quero uma chinesa também.»

«E uma água, para mim.»

«All?»

«Yes.»

«Ops, a Chinese beer, please.»

A empregada de mesa olhou-nos com um «hã?», mas logo percebeu que o pedido vinha de outra mesa. As vozes cruzadas não se deviam ao nível da nossa fome. Ali, a concorrência é notada não somente pela espera, mas também pelo comportamento dos frequentadores, que falam, gargalham, brindam, fazem os seus pedidos… todos e tudo simultaneamente.

«Tô morrendo de fome.»

«Também, mas, enfim, após algum tempo de espera, ansiedade e sofrimento, eita, lá vêm, lá vêm, lá vêm…»

«Agora, sim.»

«Até que enfim! Tô morta.»

«E eu?»

«Quase sepultado.»

«Oh, walking-dead-people, chegou, mas, ei, e as cervejas?»

«Please, we ordered some beers and water.»

«One minute, ok?»

«Ok. Thanks.»

«Passa-me os raviólis, por favor.»

«Me dê esse prato aí, por favor.»

«Passa-mo, antes que eu morra.»

«Toma-o, exagerada.»

«Pegue aí, ó.»

«É sério, estou faminta.»

Empanturrávamos por quase uma hora. Entre os vaivéns de pratos, papeávamos amenidades sem nos dar por saciados.

«Raviólis fritos.»

«Sim, sim, mais um prato.»

«Ah, mais duas cervejas.»

Enquanto os novos pedidos nos eram providenciados, as amenidades e as cervejas abrandavam-nos o ardor do picante. Eu tão entretido estava, que raramente sabia quem falava. Apenas escutava as vozes, tentava sintonizar o paladar e a audição, porém não era tarefa fácil. Mas recordo-me da palavra «s-e-C-ç-ã-o» proferida com certa ênfase no cê antes do cê-cedilha. Era uma voz feminina com sotaque português, que foi seguida por uma voz masculina com sotaque brasileiro a continuar a sua narrativa, sem sentir-se inibido pela entonação afetada da amiga. Ele, então, pronunciou «seção» de novo. A correção foi-lhe direcionada mais uma vez. Dessa vez, ele demonstrou o seu descontentamento com o comportamento da amiga:

«Ai, tá bom, né?! Vamos deixar a “secção” que também pode ser “seção” e vamos alegrar a nossa “sessão”, mas agora “s-e-s-s-ã-o” [soletrou compassadamente letra a letra], embora não sejamos um corpo deliberativo, mas vamos lá. Não nos desentendamos pela pronunciação ou pelo emudecimento de uma consoante, certo?»

«Cessão.»

«Como?», o meu amigo que falava tornou a cabeça e perguntou na direção da voz.

«Esqueceste a “cessão” com cê e dois esses. Só te queria dizer que concordo contigo, amigo. São tantos sons e tantas letras, que mais me importa falar e comunicar», o rapaz com sotaque angolano também entendia da língua. Achei que iríamos juntar as mesas, mas não foi para tanto.

Eu estava meio tonto e, no intervalo da conferência linguística, não esperei muito para buscar a empregada de mesa. Vi-a e aguardei que ela olhasse em minha direção. Fê-lo. Ergui a garrafa vazia e, com uma voz arrastada, implorei-lhe: «One more beer, please.» Escutei uma voz com sotaque cabo-verdiano: «Duas, por favor.»

Virei-me para o amigo para confirmar se era uma para ele e uma para mim, mas não: era um rapaz da mesa vizinha. Ali é sempre assim. A audição, o olfato e outros sentidos imiscuem-se. Confundimos todos, assim como as necessidades dos clientes.

«Quere algo más?»

«Por enquanto, não, mas é só por enquanto», rimos todos com a interação entre o grupo da mesa vizinha e a empregada de mesa.

Facilmente, percebe-se a confluência de sons, movimentos, cheiros (até de cigarro, pois, infelizmente, há quem fume lá dentro.), línguas, culturas, nacionalidades… São mundos que se encontram; às vezes, abalroam-se, mas só às vezes.

Era noite de uma sexta-feira ordinária, mas que se fazia especial, pois encontrávamos amigos para celebrar nada além da vida. E tudo ia tão bem até os cês, cês-cedilha e esses pousarem na sopa. Comecei logo a sentir a pimenta. Ardia a língua. Balbuciei para a funcionária da casa: «outa cerv…»

«Quere outra cerveça?», ela indagou-me. «Portugueça ó cineça?»

Agora foi o amigo cabo-verdiano que confirmou: «cineça, sim, cineça, melhor», sob uma chuva de regozijos.

Se estivéssemos ali a escrever, certamente não registaríamos (nem registraríamos) “ssinessa”, “cinessa” ou “xineça”. É que queríamos mesmo era a cerveja. Aperreava-me pensar em fazer transcrições ortoépicas ou fonéticas naquele momento, aquando as papilas gustativas estavam a dilatar.