Partilhando a alegria da primeira vez: a perda do “cabaço” de novo

Hoje vim aqui partilhar com vocês a alegria da primeira vez. Não foi inocentemente que pus como subtítulo “a perda do ‘cabaço’ de novo”. Adianto-me a dizer que espero não ferir suscetibilidades. Como vocês devem saber, no Nordeste do Brasil, a expressão “perder o cabaço” é, em geral, vulgar e chula, usada para referir à perda da virgindade. No entanto, o verbete possui, ao menos, quatro acepções. Até nome de peixe é!

A minha intenção é mesmo partilhar uma alegria com vocês. E uso aqui cabaço metaforicamente para registrar o meu desvirginar ante uma nova oportunidade que a vida me ofereceu. Sim, novas oportunidades, novos desafios na vida promovem, em alguma medida, um desvirginar. Então, compartilho a minha primeira experiência à frente das câmeras, sob a direção de Murilo Guimarães, escritor, realizador de vídeos, colaborador da Tribuna do Alentejo e doutorando do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (Para conhecer a sua produção, visite o seu blogue. Clique aqui.).

Foi há aproximadamente um ano que Murilo convidou a mim, a Amanda Guerreiro e a Terêncio Lins, para participarmos de um videoclipe. No vídeo, Amanda representou a Fascista Modernosa; eu, o Fascista Machão; e Terêncio foi o responsável por dar voz ao texto que incorpora uma forte crítica à maneira como temos sido manipulados e como temos manipulado o contingente de informações que nos chegam por meio dos agentes formadores de opinião, incluindo as plataformas de rede social, como Facebook, por exemplo. As filmagens deram-se em alguns locais das freguesias de Avenidas Novas, Campo Pequeno e Entre Campos, em Lisboa.

Convido a todos vocês a assistirem ao videoclipe “Ao Amigo do Fáscio”, que foi ontem relançado no YouTube. Espero que gostem do trabalho e, se eu não estiver pedindo demais, ficaria muito grato se dessem uma curtida e nos ajudassem a divulgar o trabalho.

 

Ainda aproveito o momento para convidá-los a se inscreverem no canal do Youtube de Murilo Guimarães, no qual este e outros vídeos estão disponíveis (Clique aqui.).

Juro que, se eu ficar famoso, dou um autógrafo. Brincadeirinha! Beijossssss. 😀

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“Quem cozinha dos dois?” – quando homofobia e sexismo azedam o dia

“Quem cozinha dos dois?” — ela perguntou-me. Há segundos que mais parecem uma eternidade. Eram os poucos segundos necessários a responder uma questão elaborada de forma simples e direta. Estava ali a interagir com uma colega da universidade, alguém que até poderia considerar amiga e que conhecia a minha situação conjugal com Murilo e, por conseguinte, a minha orientação afetivo-sexual.

Que importância esta informação teria para alguém, além das partes envolvidas num relacionamento, casamento ou como se queira chamar? Será que indagaria a mesma questão a um casal heterossexual? Sinceramente, suponho que não o fizesse e que tomasse por certo de que a esposa — ou namorada, a depender do caso — estivesse com a incumbência de cozinhar, limpar e realizar outros afazeres ditos “do lar”. Presumo isto porque, numa perspectiva heteronormativa e patriarcalista, se entende que o trabalho doméstico fique a cargo das mulheres. As atividades são distribuídas entre os indivíduos com base nas suas genitálias, conforme práticas discursivas e não-discursivas binárias que circundam os seus corpos. Em geral, sobrecarregam quem que tem uma vagina ou quem julgam pertencer ao universo qualificado como feminino.

Eu elucubrava sobre o motivo do questionamento. Falávamos sobre qualquer assunto que não a rotina doméstico-familiar numa ótica heteronormativa. Embora ela tentasse dissimular a sua curiosidade dizendo que o marido também cozinhava, eu não a aceitaria como inocente. Súbita e tacitamente, homofobia e sexismo tornaram-se nos pratos principais de uma interlocução que deveria ser tranquila, gostosa e palatável. Recuso-me, porém, a digerir homofobia, sexismo e outros “ismos” que queimam como pimenta quando entra e quando sai. Ora “Quem é que cozinha” não significa a mesma coisa que “Fulano também cozinha”: nesta oração, há inclusão e partilha de tarefas; naquela, há exclusão e imposição de um trabalho que se considera apropriado para um indivíduo com determinado sexo ou identidade de gênero.

Sentia os efeitos desses discursos desde criança, quando tentava ajudar a minha mãe em simples tarefas, como lavar a louça ou faxinar. Não raramente, observei o desconforto e até temor de homens e mulheres da família que falavam qualquer coisa como “Isto é serviço de mulher.” Este é o tipo de situação comunicativa que revela a estreita relação entre sexismo e homofobia. E ainda denuncia como estes são utilizados para impor concepções de normalidade e anormalidade e, em consequência, projetos de vida que enclausuram muitos de nós. Eu gostaria de ter-lhes retorquido naquela época. Se fosse já muito atrevido, ter-lhes-ia dito “Não cai nada, não. Não é colado com cuspe.” Mas não estou seguro de que me livrasse facilmente daquele assédio. 

Aquele rápido intervalo entre pergunta e resposta — quase eterno na minha mente — conduziu-me a eventos escondidos na memória. Além dos momentos da infância de quando espanava a estante ou lavava os pratos para mamãe, recordei-me de um encontro com a mãe de um ex-namorado meu. Na altura, a minha então sogra soube que o seu filho e eu iríamos morar juntos. Ela perguntou-me quem de nós dois iria cozinhar, porque, segundo ela, o seu filho nada sabia sobre esses assuntos. Percebi ali uma expectativa e pressão para que um de nós assumisse papéis de gênero fixos e determinados tradicionalmente pela sociedade heteronormativa e patriarcalista.

Foi nessa visita ao passado que fui buscar a resposta para a colega acadêmica. A minha sensação naquela altura foi parecida com a que senti recentemente. Não entendia e ainda não compreendo bem este tipo de indagação. Será que os dois não podem cozinhar? Será que as duas partes envolvidos num relacionamento não podem responsabilizar-se, igualmente, pela lida doméstica?

A divisão de tarefas domésticas nada tem a ver com capacidades ou incapacidades inatas de cada um dos corpos-sexuados. Será que toda menina nasce predisposta a gostar de cozinhar? E ainda detentora de habilidades especiais para fazê-lo? É evidente que não. Somos treinados e treinadas desde pequenos para isso ou aquilo. Se uma criança não segue o roteiro que lhe impõem mesmo antes do nascimento, ela é posta sob escrutinação por boa parte da sua vida. É posta sob vigilância constante para “vestir” uma identidade que pode não ser o seu número.

Quem é que cozinha, afinal? Respondi-lhe à queima-roupa: “Quem tem fome!” Ora, se o casal é composto por um homem e uma mulher, ele não deve esperar que ela ponha tudo à mesa para que possa comer. Genitália não é — ao menos, não deveria ser — pré-requisito para trabalho algum. Por sua vez, se o casal é composto por duas pessoas do mesmo sexo, digo o mesmo. A identidade de gênero não deve ser pré-requisito para assumir essa ou aquela função.

Portanto, esta deveria ser a regra de uma casa: divisão igualitária do trabalho entre os cônjuges, independentemente de sexo, de identidade de gênero ou de sexualidade. Sentiu fome? Vá à cozinha, pegue os ingredientes necessários, prepare o prato e sirva-se. Se quiser, faço-lhe companhia, mas sem homofobia e sexismo, porque estes não são temperos e até azedam a vida.

Sivuca, um estimado gato

Das vezes em que me deparo com fotografias de gatos na internet, não raramente vejo filhotes meigos a pousar para a câmera, como se já tivessem nascido para modelos. Gosto de vê-los, apesar de não ser fã de felinos. Nunca me apeguei a nenhum. Sempre preferi os cachorros.

No entanto, a convivência com Sivuca fez-me pensar que é possível gostar de gato. Foram dias agradáveis que me despertaram saudades de ter animal de estimação. Veio-me à memória Pipi, Assustado, Pimpo, Amigo, Sansão, Dalila e outros animais que passaram por minha vida. Não obstante à nostalgia ou a impulsos que este sentimento possa desencadear, sou consciente de que não posso nem pensar em ter cachorro ou gato no momento. A condição de cidadão em trânsito impede-mo. Oxalá volte a criá-los logo que me estabeleça “definitavamente” – ou melhor, estavelmente – em algum sítio.

Segundo afirmam os manuais de criadores e outras enciclopédias veterinárias, cães e gatos geralmente diferem quanto ao seu estilo de vida. Os primeiros são dependentes e exigem maior atenção dos seus donos. Já os últimos se revelam imponentes, decisivos, destemidos, perseverantes. Ambos os animais expressam carinho e zanga, a depender das circunstâncias. Há alguns mais ariscos, outros menos, alguns mais carinhosos, outros menos. Quiçá reflectem o temperamento de quem os cuida.

Sivuca foi um companheiro tranquilo, fiel ao que se espera de um felino. Surpreendeu-nos o modo como se relacionou conosco. Deixou-nos à vontade tanto quanto ficou à vontade.

Não digo que Sivuca seja um dos modelos de meiguice. Digo menos que seja um bicho enxerido. É um gato tranquilo, confiante e sociável à medida. Quando lhe apetece, faz companhia à dona e às visitas.

Encerrávamos a estadia em João Pessoa, despedíamos de Adriana e Carla, – pessoas queridas que, juntamente com Potira, nos receberam na cidade -, e SURPRESA!

Sivuca deixou bem claro que ousadia é mais uma das suas qualidades. Pôs-se à porta, descontraído, a lamber-se desinibidamente. Não se incomodou que eu sacasse o telemóvel e passasse a fotografá-lo. Queria-nos mostrar que também sabia posar para flashes, até mesmo em posições não muito convencionais.

Macaíba a todo calor

Chegamos ao Chico após a hora do almoço, mas tínhamos posto quase nada na boca. Éramos cinco: Gabi, Marilu, Marcos, Sandro e eu. Mal entramos na casa, logo saímos. Afinal, com fome e sede, o Bar da Rosa seria o nosso destino. No caminho passamos pelo centro da cidade para sacar dinheiro. Esbarramo-nos nos cartazes “Estamos em greve”. A greve dos bancários prolongava-se à medida que os patrões evitavam o diálogo e a negociação. Isto obrigava-nos a perambular pelo coração da cidade, à busca de um caixa eletrônico disponível.

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Da esquerda para a direita: Marilu, Marcos, Chico, Cássio e Sandro. Foto de Gabi (Gabriela) Albano, Macaíba/RN, 1º/10/2016

Já estávamos quase a meio da tarde. Mais cedo, entretanto, teríamos sido envolvidos pela confusão harmoniosa dos corpos que mesclam na encruzilhada da multidão, com os seus suores, cheiros e sons. Já me imaginava passando por um corredor estreito entre uma tenda e outra. Sentia o peixe roçar o meu antebraço, fazendo cara de nojo com a ideia de estar a feder não somente a região atingida, mas braço, mão, perna, tudo. Logo em seguida, a um ou dois metros do animal atrevido, desviava da vendedora que carregava sobre a cabeça um saco enorme e pesado, cujo conteúdo lhe era a garantia do sustento da semana.

Serra, traíra, tilápia… tudo bem fresquin. E, se quisé, descamo e tiro as tripa agora mermo. Vai querê? Beiju, tapioca quentinha, pé-de-moleque… e ainda um café feito na hora. Venha aqui, meu patrão, chegue. Agora, não, chefe, depois passo aí. Vou ficar esperando. Oh-povo-o-ó. Num é não, menina? Esse povo num compra porra nenhuma. Tudo liso. É a crise, mulé. Olhe a banana da terra, banana maçã, banana prata. Comé-é-qui-é? Vai querê a banana ou num vai? Cebola, tomate, pimentão, tudo por… Já tem a mistura pro almoço? Ei, amiga, promoção de calcinha e sutiã. Quer dar uma olhada? Olhe a manga matuta. Olhe o alfenim bem docin… Aproveite que a promoção é só hoje. Tacabano, viu? Taaacabaaaanu, tô dizeno, tacabanu. Dez cebola por dois real, querida! Aproveite, comade. Baratotal.

As eleições municipais a suceder no dia seguinte davam um toque especial àquela alquimia de perfumes, sons e cores. Da feira restavam vendedores a desmontar barracas, compradores atrasados a tentar a sorte na hora da xepa, lixo amontoado à beira das calçadas, gatos e cachorros a farejar as vísceras de algum bicho morto e, assim, garantir a refeição do dia.

Era 1º de Outubro de 2016, sábado, dia de feira em Macaíba. Pessoas agrupavam-se numa casa comercial, a fim de acessar a sua conta bancária num terminal eletrônico. Marilu, Gabi, Chico, Marcos, Sandro e eu rapidamente compusemos o rabo da fila, posição que não demorou a ser ocupada por outros indivíduos.

A rua ainda estava agitada. Mas, infelizmente, já desmontavam a feira, o evento sabatino mais famoso do município. Já se vão mais de cem anos, milhares de sábados. E isto graças a um tal Fabrício Gomes Pedroza, como contam os historiadores que, para explicar o surgimento da feira de Macaíba, remontam ao despontar da segunda metade do século XIX1.

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Foto de Marilu Albano, Macaíba/RN, 1º/10/2016

Aguardávamos a vez na fila e inevitavelmente pensávamos em que partido aqueles homens e mulheres votariam. Se perguntássemos, talvez recebêssemos como resposta “Não voto em partido, voto em pessoas”. É assim mesmo: quem vê cara não vê partido. Talvez isto explique os resultados a serem revelados ao fim do domingo: a direita avança no mundo. Como convencer alguém do contrário? Digo: como convencer das conquistas que obtivemos nos últimos anos e da importância de não votar em alguns partidos? Como explicar a um eleitor sofrido e bombardeado por uma mídia de massa corrupta que não existe candidato sem um grupo político por trás, sem um partido e sem propósitos ideológicos?

A fila andou e chegou a vez de cada um. Deixamos a política de lado, ao menos por uns instantes. Éramos poucos para enfrentar os recrutas da politicagem que, do lado de fora, distribuíam santinhos de candidatos, seguravam bandeiras, vestiam a camisa de muitos daqueles que não nos escutam e que não trabalham por nós nem para nós, os seus possíveis eleitores. E, afinal de contas, o dia era de alegria.

Com o suficiente em mãos para “forrar o bucho e molhar o bico”, partimos em direção ao Bar da Rosa. Lá nos deliciamos com patê de siri, tapioca e cerveja bem gelada. O papo correu solto. Memórias do fundo da caixola revelaram-se a torto e a direito. Depois daí, visitamos o Engenho do Ferreiro Torto, um dos marcos históricos norte-rio-grandenses.

E, assim, a tarde transcorreu sob o calor de uma amizade de mais de uma década. São as boas recordações que alimentam as saudades e vontades de encontros futuros.

Notas:
(1) Informações históricas sobre o município de Macaíba/RN são encontradas em História e Genealogia, de Anderson Tavares de Lyra: «www.historiaegenealogia.com». Nesse blogue, há uma entrada dedicada à feira (Clique aqui.). Pormenores sobre a constituição de Macaíba como polo comercial norte-rio-grandense ainda na segunda metade do século XIX também são disponibilizados em Feira de Macaíba/RN: um estudo das modificações na dinâmica socioespacial (1960/2006), dissertação de mestrado de Geovany Pachelly Galdino Dantas (Clique aqui.).
(2) As fotografias foram editadas conforme o propósito do texto. As imagens originais encontram-se nos perfis de Facebook de Gabi e Marilu Albano, respectivamente.

Indigestão no café-da-manhã

Pão, café, leite, ovo, queijo, mamão… O que é que você quer? Ops, o que gosta de consumir como primeira refeição do dia?

Dormira eu na casa dos meus pais. E lá o amanhecer é, em geral, um pouco agitado. Antes das 7h, a minha mãe e a minha cunhada saem para o trabalho, acompanhadas pelo meu sobrinho, que vai à escola. Então, a partir das 6h, começam-se os preparativos do café-da-manhã. Enquanto um esquenta a água, a outra faz umas tapiocas ou estala uns ovos… e assim vamos. Sentamos à mesa. Percebe-se certa pressa para que ninguém chegue com atraso ao seu destino. Logo, os lugares são ocupados, com frequência, em sistema de rodízio: um senta; outro levanta; um chega; outro sai. Isto ocorre paralelamente ao uso do banheiro ou ao tempo que alguém gasta para vestir-se. O dia já começa acelerado.

Depois que todos saíram, fiquei sozinho a beber o meu café. Entretanto, uma parente que reside nas redondezas apareceu sob a justificativa de que queria me ver e matar as saudades. Acomodada à mesa, puxou conversa sobre isso e aquilo, até que o bip do seu celular apitou. Era uma mensagem de whatsapp.

— Ei, Cássio, escute aqui essa. — Dito isto e sem me dar a oportunidade de recusar a sua oferta, a visita inesperada começou a ler da tela do seu telefone o seguinte texto: “Ei, Janaína, mulé, você é doadora de órgãos, é? — a mulher perguntou. Então, Janaína disse que sim. Aí, a mulher continuou: — Então, mulé, é que eu tô precisano fazer um berrante.”

Concluiu a leitura com uma gaitada que quase me deixou moco. Eu, calado. Então, observando que fiquei sério e em silêncio, inquiriu-me:

— O que foi, Cássio? Não gostou da piada?

— Mas qual foi a graça?

— Ah, você não entendeu não, foi?

— Entender o quê?

— Aff, você não entendeu que a mulher queria dizer pra outra que o marido dela tava botando chifre nela?

— Não. — Ela não esperava resposta tão lacônica. Mas, sinceramente, o que eu deveria dizer? Será que deveria expressar todo o meu desconforto ao escutar a tal estória? Não compreendia por que ela ria de uma narrativa que, a meu ver, colocava uma mulher numa situação de vulnerabilidade numa sociedade em que o sistema patriarcal opera nas mais diversas instâncias da vida. Para mim, Janaína, personagem da estória, representava mulheres que, não raramente, protagonizam situações socialmente embaraçosas e em que ocupam posições hierarquicamente inferiores aos homens; e isto não porque escolheram tais histórias, mas porque são forçadas.

Em consequência disto, piadas sexistas e machistas são proferidas por homens e mulheres sem que se percebam como algozes ou vítimas de práticas que vão além do campo discursivo. Para mim, o efeito perverso da anedota contada é pôr a mulher no centro de uma narrativa que a desmoraliza e fragiliza enquanto uma das partes integrantes de uma relação conjugal. E, ainda, ela é caracterizada como a parte fraca, a parte que é lesada e que é ainda troçada por uma semelhante, uma mulher que é considerada inteligente por usar uma metáfora pobre com a suposta boa intenção de alertar à amiga sobre a traição cometida pela parte forte da relação. Então, será que eu deveria questionar por que o homem adúltero não era motivo de chacota? Por que a mulher traída é duplamente desmoralizada? Aludo ao facto de, na estória, Janaína ser desrespeitada pelo marido e pela amiga que a expõe publicamente.

É o sistema patriarcal que naturaliza diferentes tipos de violência contra as mulheres. Sim, diferentes tipos de violência, pois há quem acredite que uma mulher só se encontra na condição de violentada quando essa é vítima de agressão física ou estupro. Entretanto, no Brasil, a Lei Maria da Penha compreende que o deboche público também se caracteriza numa forma de violência psicológica contra mulheres. Será que eu deveria estender a conversa e tentar convencer a minha interlocutora de que, se Janaína existisse de facto, o autor da piada e todos aqueles que a divulgavam incorriam numa infração à Lei nº. 11.340/2006, pois expunham a vítima a uma situação de humilhação pública? E, ainda, aquela “piadinha besta” causava males não somente à Janaína, mas também a outras mulheres, quando narrativas desse tipo, verdadeiras ou ficcionais, normalizam a traição como direito do homem? Será que eu poderia… será? Ou melhor seria voltar ao meu café com pão?

Desjejuar é, para mim, a chance de iniciar a preparação para enfrentar os desafios que o dia me proporcionará. Daí, penso bem naquilo que como e como o faço. Ao menos, quero fazê-lo com tranquilidade, sem alvoroços e sem energias negativas ao meu redor. Por este e outros motivos, evito assistir a certos jornais ou programas de TV matinais, por exemplo. Geralmente, em paz, tomo o meu café e ingiro algo mais.

Entretanto, como nem sempre se está em casa para manter esse privilégio, o insólito acontece e algo indigesto pode integrar o cardápio da manhã. E foi isto o que me ocorreu noutro dia.

— Valha-me, Cristo. Tão fácil, piada tão besta, e você não entendeu. Tô bestinha, viu?! Tu estuda tanto pra quê, hein? Com que se faz berrante? Sabe não, é? Com chifre, menino, arriégua!

Calado, voltei à minha xícara, tomei um gole do café e mordi o pão seco, mas, durante todo o dia, percebi-me entalado com aquela piada infame.

No consultório médico

Escutei o meu nome, levantei a cabeça e dirigi-me à sala indicada pela recepcionista. A médica esperava-me com a ficha de paciente em mãos. Cumprimentamo-nos rapidamente e eu logo me acomodei.

Sem perda de tempo, a médica passou a perguntas de praxe. Em poucos minutos, ela ficou sabendo das minhas dores de cabeça intensas e sentidas durante toda a minha adolescência, das minhas crises renais, das minhas hérnias, da minha fimose, da tensão alta de papai e de mamãe, da enxaqueca de papai, da artrose de mamãe, da coleção de cálculos renais do meu pai, da diabetes de algum tio, do AVC de outro…

A médica estava assustada. Sim, talvez estivesse assustada com aquilo que eu poderia ter herdado. Levantou-se, veio em minha direção, pôs o estetoscópio sobre o meu peito e orientou-me a respirar lentamente. Depois disto, com um martelo neurológico, testou os meus reflexos. Sinceramente, como dizem na Bahia, eu não amarrei mixaria de dor: doía nos joelhos, doía nas pantorrilhas, nas costas, nos braços…

Ela mostrou-se bem preocupada. Estranhava que um homem jovem como eu sentisse tantas dores no corpo. E, então, já de volta à sua cadeira, passou à sabatina:

_ Vou fazer-lhe algumas perguntas e quero que seja sincero.
_ Ok.
_ Primeiro, gostaria de saber sobre os seus hábitos alimentares. As dores musculares podem resultar do seu peso e da sua atividade profissional. Convenhamos que 90Kg para alguém com 1m68cm de altura não caem bem. E, como a sua atividade profissional exige que fique sentado por muito tempo, é bom tomar alguns cuidados, como…
_ Eu sei.
_ Então, como são as suas refeições?
_ Péssimas.
_ Alimenta-se em horários certos? O que come?
_ Não tenho hora certa para comer. Como estou fazendo o meu trabalho na universidade, geralmente perco a hora da cantina universitária e, aí, restam-me as lanchonetes. Então, muitas vezes, faço um lanche e, antes de ir pra casa, como um sanduíche.
_ E massa? Pizza, por exemplo?
_ Como a senhora acha que mantenho esta forma?
_ Entendi. E você bebe?
_ Bastante café. Quando possível, café com leite. Quando lembro, bebo água.
_ Muito café e pouca água não contribuem para o bom funcionamento dos rins. Você sabe disto?
_ Sei.
_ E bebida alcoólica? Você bebe?
_ Cerveja, quando está em promoção no supermercado.
_ Não é bom exagerar.
_ Dificilmente vou ao supermercado.
_ Para não ver as promoções?
_ É que o dinheiro dá nem pro básico.
_ Ah, tá. Entendo, então, que você bebe socialmente.
_ Exatamente.
_ E quanto a exercícios físicos? Não é bom ficar tanto tempo sentado, principalmente para quem apresenta problemas renais.
_ Eu levanto, sempre que preciso de mais café.
_ Já disse que tanto café não lhe faz bem.
_ Entendo, mas é dependência praticamente.
_ Bem, não lhe digo mais nada.
_ Vou tentar beber mais água.
_ Muito bem. E exercício físico? Você gosta de algum esporte?
_ Tênis.
_ Tênis?
_ Sim.
_ Um bom sinal. Pratica com frequência?
_ Quase todos os dias, nos intervalos do trabalho.
_ Todos os dias? Mas, se você passa o dia na universidade, trabalhando, onde pratica?
_ No computador. Baixei um jogo.
_ Ah, tá.

Ela fazia anotações numa folha que seria anexada à minha ficha. Na verdade, enquanto fazia perguntas e mais perguntas, foi enchendo uma, duas, três folhas com anotações sobre o meu estado de saúde.

_ Quando a doutora passar para a terceira folha, poderia chamar a ambulância?

Ela riu. Ao menos, era simpática. Não se demorou a recomendar uma bateria de exames. Assim que eu os tivesse preparados, deveria retornar. Eu saí do consultório rezando para ter mais alguns dias de vida.

Já se passaram uns sete anos!

Livros em tempos de Facebook

No domingo passado, eu passava pela Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII. Caminhava entre as tendas das editoras, o olho corria rápido entre um e outro mostruário, umas capas prendem a minha atenção, aproximei-me e apanhei um livro de capa dura, bonito, papel fotográfico. Era uma reedição de um grande escritor português. Fetiche de bibliófilo. Prazer.

Tomei o livro entre as minhas mãos, admirei-o, senti-o. Comentei que me alegrava imensamente o facto de terem publicado o tal autor e a tal obra, que bem mereciam edição tão bem cuidada. Abri o livro. Decepção.

_ Mas o que é isto?, falei ao @RGMurilo, que estava comigo na hora.
_ O que foi? Não gostou do livro?, Murilo perguntou.
_ Da capa, mas não se compra um livro só pela capa, né?!
_ Olhe, é um título famoso. E a edição parece especial, como você já observou.
_ Sim, mas veja o recheio. _ eu disse isto, já abrindo o livro, folheando a ponto de ele perceber a “furada em que um leitor se meteria”.
_ Uau.
_ Uau mesmo! Como se pode gastar tanto papel, um papel especial, capa dura com excelente ilustração, para isto?
_ Provavelmente para facilitar a vida de leitor de Facebook! _ arrematou Murilo. _ Um livro com citações de trechos da obra original ajuda aqueles que necessitam de frases célebres para os perfis de Facebook e Twitter.

O diálogo aqui apresentado intentei transcrevê-lo o mais próximo possível do que aconteceu, embora não o tenha logrado; eu sei disto. Entretanto, achei bem inteligente a ideia do Murilo: livros em tempos de Facebook, a fim de tornar fácil a vida de quem precisa de poucos caracteres para alimentar a timeline.

Imagine, então, que um escritor já não pense em escrever um livro de contos, um romance ou de quaisquer outros géneros literários, mas, sim, um livro de frases para Facebook. Pode até embonecá-lo com diferentes emoticons. Afinal, o mercado editorial está a ajustar-se aos novos canais de leitura, escrita e interacção.

😛 ❤ 😀 ❤ 😉

Barata de Shopping

“Olá, boa noite, quem está primeiro?”, a vendedora perguntou. “Nós”, responderam. Era um jovem casal, com um bebê recém-nascido. A vendedora aproximou-se. “Boa noite. O que vão querer?”, ela perguntou ao casal. Silêncio. Sem ouvir nenhuma resposta, ela repetiu a pergunta. O silêncio persistia. Eu virei para o casal, percebi que o homem mexia a testa, olhava para a vendedora, olhava para a salada, a testa franzia, mirava a salada e, depois, a funcionária. Enquanto a atenção da moça se voltava ao homem, eu voltei-me para a salada. Lá estava. Pânico. Já um pouco impaciente, a atendente insistiu: “O que desejam, por favor?” O marido da jovem mãe entendeu que a linguagem gestual não servia e, finalmente, disse: “Uma barata.” Olhamo-nos. “Uma barata?”, Murilo inquiriu-me. “Onde?”, continuou. “Na salada,” eu falei, “mas só na laranja.” A vendedora, prontamente, saiu em direção ao interior da loja de sopas, carregando o recipiente de laranja com a barata em pleno momento de refeição. Olhamo-nos todos, inclusive o casal participou desse diálogo sem palavras. Ponderávamos se ficaríamos ali ou não. Ora, se a cumbuca das rodelas de laranja estava próxima das outras cumbucas contendo alface, tomate, ervilha, atum etc., não seria difícil imaginar que a barata tivesse participado de um baquete. Antes de decidirmos, chegou outra vendedora: “Já se decidiram?” O pai do bebê disse para a nova funcionária: “Havia uma barata na salada.” Ela respondeu: “Sim, mas a barata é do shopping. Já viram as nossas opções de menu?”

Devolvemos a nossa bandeja ao seu lugar, perto do balcão da salada. Saímos rapidinho. “Eu não sabia que barata de shopping tinha outro status“, Murilo comentou desapontado. “Qual será o sabor?”, eu continuava com fome. “Eca! Só de lembrar quantas vezes comemos aí”. “Achei que passou a minha fome”, eu já desistia. “É possível que já tenhamos comido barata”, Murilo concluiu. “Melhor parar”. O meu estômago estava embrulhado, a noite foi agitada.