Um “nós” sem genitália

Santa Diabólica Elucidativa da Solidariedade Feminista: “Quem sou eu? [Risos] Ora, quem sou eu? Quem sois vós? Dizei-me, primeiro. Melhor: quem somos nós?”

Serafina: “Eu sou a sujeita que passou a existir depois da morte do sujeito. Ou seja, o sujeito morreu e nem me convidaram para o funeral. Nem pra carpideira servi. E, depois do enterro do sujeito, disseram-me que eu poderia existir, que poderia ser sujeito ou sujeita.”

Ioco S.: “Tenho pau, bunda, vagina, cloaca, possuo buracos donde se entra e sai e onde me embrenho. Tenho prazer em ensaiar-me naquilo que ignoro, que desafia e que te encanta, espanta e causa ojeriza.”

Cássio S.: “Busque-me o vinco. Vá, venha, vá… Está quente. Mais um pouco você o encontrará. Ei, pare! Pare! Não tente virar-me. Estou avisando, dona Santa. Não tente. Quer assustar-se? [Risos] Do outro lado, o que vai encontrar? [Gargalhadas] Você não sabe?”

“Púbis”, by Ioco S./Cássio Serafim, 2014.

Ioco S.: “Busca-me o vinco. Não tenta virar-me. Não queiras assustar-te. Pois, do outro lado, que vais encontrar?”

Santo Transebastião: “Eu sou a fonte de alimento para o sanguessuga que existe em todos vocês e que, entre as minhas pernas, vem aliviar a sede. Que sede? A sede do patriarcado.”

Santa Diabólica Elucidativa da Solidariedade Feminista: “Quem somos, então? Está ainda mais difícil definir esse ‘nós’, uma vez que cada um fala somente de si. E, ainda, parece-me que tentam e que tentamos definir-nos a partir da ausência ou da presença deste ou daquele órgão em nossos corpos. E, ainda, parece que a importância de cada um se dá de acordo com o órgão que possui. Se alguém tem um pênis, este vale mais no mercado das relações sociais. Se tem uma vagina, o valor é reduzido e ainda mais dependendo dos seus níveis de melanina. Enquanto o mundo social for organizado sob uma perspectiva ideológica que é BIO-lógica, a igualdade de gênero será um sonho bem distante. E, se nós, feministas, participarmos desta lógica sem lógica, a sororidade entre mulheres feministas e a desejada solidariedade entre mulheres e homens feministas também serão de difícil alcance. Imaginem se a linguagem comum tão sonhada for construída apenas por meio de corpos com determinada genitália em comum! Como poderemos construir uma solidariedade, uma linguagem comum, um suporte político feminista, antirracista, anti-colonial? Já não será a hora de construirmos um ‘nós’ sem genitália? Será possível tê-lo?”

touch me

– touch me, please, touch me, please, touch meeeeeee…

[…]

– stop!

– can’t i touch you?

– my body. only.

– but i am doing it.

– please, touch my body.

– i do it. can’t you feel?

– please, keep your distance. no touch. don’t touch my soul, please.

– kiss you? can i?

– my lips, not my mouth.