O luto machista de Ricardo

_ Boa noite, Ricardo. Eu soube o que aconteceu com o seu pai. Meus pêsames.
_ Boa noite, Cássio. Obrigado por ter vindo aqui.
_ Mas o que é que aconteceu? Ele morreu de quê, Ricardo?
_ Rapaz, na verdade, ele estava só esperando a hora. Já estava velho e muito debilitado. Papai fumava desde os vinte anos. Só parou com o câncer. E, mesmo assim, foi uma luta da família, mas principalmente de mamãe. Ela era a verdadeira sentinela: não o deixava nem tocar num cigarro. Imagine que isso foi duro para quem acendia um cigarro atrás do outro. Ainda tinha o problema do álcool. Todo dia, de manhã cedo, a cachacinha dele estava na mesa, ao lado da xícara de café. Essa era uma das excentricidades do meu velho. É uma pena, mas, além do câncer de pulmão, ele teve cirrose e ainda outros probleminhas relacionados. Não vale a pena listar agora.
_ Foram quantos anos de cigarro e álcool? Ops, brincadeirinha besta. Quantos anos ele tinha mesmo?
_ Sei… Morreu com oitenta.
_ Oitenta anos bem vividos.

_ Ah, sim. Papai tinha muito amor à vida.
_ Dizem por aí que ele bebia, fumava e farreava mais do que qualquer um. Contam que ele até foi preso por causas das farras dele. É verdade?
_ Papai era homem, tinha as necessidades dele, e eu não o censuro, nem vivo nem morto. Agora, esse povo não tem o que fazer, não? Não respeita a pessoa nem depois de morta.
_ Ei, tudo bem, vamos esquecer o povo, então. Diga-me da sua mãe. Como ela está?
_ Ah, mamãe está lá. A coitadinha está triste, não sai do fundo da rede, não quer fazer nada, nem comer direito ela come. Também, né?! Foram quase sessenta anos de casamento. E, depois que ele teve o câncer e o AVC que paralisou parte do corpo, foi ela quem ficou cuidando dele: banho, comida… tudo. Já que você falou do povo, agora eu lhe digo: apesar dos abusos dele, depois de ele ficar na cadeira de rodas e dependendo dela para tudo, ele podia até olhar para outra mulher, mas não podia andar, não tinha como ir atrás de rabo de saia.  Ao menos durante uns vinte anos, ela teve papai só para ela. Imagine: os dois ali, naquela casa, dia e noite. Ela está sentindo falta. Eu não sei o que fazer.
_ Será que a sua mãe não está com síndrome de Estocolmo ou algo parecido?
_ Como? Não entendi.
_ Ela deve estar muito sofrida, né?!
_ Não sei como ela vai viver sem ele. Tantos anos de casado! Uma vida, né?!
_ Eu não compreendo muito bem por que a sua mãe está sofrendo. Ela deveria estar aliviada, pelo menos. Ela está livre. É uma pena que já um pouco tarde, mas, até que enfim, o algoz se foi. Imagine tantos anos refém de alguém que se diz o “amor da sua vida”. Na verdade, foram anos de exploração. Assim foram e são muito casamentos. Desculpe-me a sinceridade, Ricardo. Mas a verdade é que a sua mãe ficou anos sendo empregada e enfermeira de um homem que, segundo o que corre de boca em boca, era mulherengo, vivia enchendo a cara, fumava feito um condenado… E, se uma pessoa enfiada numa relação dessas ainda sente falta, chora, sofre a perda daquele que causava tudo isso, eu acho que há um problema grande aí e que precisa de solução, melhor, de tratamento especializado. Acho que a sua mãe sofre de síndrome de Estocolmo. Eu não sou nenhum especialista, mas eu comparo alguns casamentos a uma vida em cativeiro.
_ Pode parar por aí, por favor. Chega. Acho que você está passando do limite. Seria bom você ir embora. Eu não espero que você ame o meu pai, mas eu só lhe peço que o respeite e que me respeite. Afinal, eu acabei de perder o meu pai.
_ Oh, Ricardo, desculpe-me. Pode deixar. Eu vou embora. Mas, antes, eu quero dizer uma última coisa.
_ Diga.
_ Ricardo, você é capaz de passar a mão na cabeça do seu pai, mesmo depois de ele morto, pelo simples facto de ele ser homem. Eu sugiro que, na mesma proporção, você admire a sua mãe pelo simples facto de ela ser mulher. Não permita que o luto machista o cegue, pois a morte não redime ninguém. Era só isso o que eu queria dizer.
_ Pronto. Já disse. Agora, Cássio, eu tenho de dizer uma coisa também.
_ Diga.
_ Você é muito insensível. Não respeita nem um filho que acaba de perder um pai. Era só isso o que eu queria dizer. Boa noite e obrigado pela visita.
_ Certo, Ricardo. Não seja tão parecido com o seu pai. Enxergue a sua mãe. Ela merece atenção, carinho e cuidados.
_ Certo, Cássio. Você já disse o que queria. Tchau.

Um “nós” sem genitália

Santa Diabólica Elucidativa da Solidariedade Feminista: “Quem sou eu? [Risos] Ora, quem sou eu? Quem sois vós? Dizei-me, primeiro. Melhor: quem somos nós?”

Serafina: “Eu sou a sujeita que passou a existir depois da morte do sujeito. Ou seja, o sujeito morreu e nem me convidaram para o funeral. Nem pra carpideira servi. E, depois do enterro do sujeito, disseram-me que eu poderia existir, que poderia ser sujeito ou sujeita.”

Ioco S.: “Tenho pau, bunda, vagina, cloaca, possuo buracos donde se entra e sai e onde me embrenho. Tenho prazer em ensaiar-me naquilo que ignoro, que desafia e que te encanta, espanta e causa ojeriza.”

Cássio S.: “Busque-me o vinco. Vá, venha, vá… Está quente. Mais um pouco você o encontrará. Ei, pare! Pare! Não tente virar-me. Estou avisando, dona Santa. Não tente. Quer assustar-se? [Risos] Do outro lado, o que vai encontrar? [Gargalhadas] Você não sabe?”

“Púbis”, by Ioco S./Cássio Serafim, 2014.

Ioco S.: “Busca-me o vinco. Não tenta virar-me. Não queiras assustar-te. Pois, do outro lado, que vais encontrar?”

Santo Transebastião: “Eu sou a fonte de alimento para o sanguessuga que existe em todos vocês e que, entre as minhas pernas, vem aliviar a sede. Que sede? A sede do patriarcado.”

Santa Diabólica Elucidativa da Solidariedade Feminista: “Quem somos, então? Está ainda mais difícil definir esse ‘nós’, uma vez que cada um fala somente de si. E, ainda, parece-me que tentam e que tentamos definir-nos a partir da ausência ou da presença deste ou daquele órgão em nossos corpos. E, ainda, parece que a importância de cada um se dá de acordo com o órgão que possui. Se alguém tem um pênis, este vale mais no mercado das relações sociais. Se tem uma vagina, o valor é reduzido e ainda mais dependendo dos seus níveis de melanina. Enquanto o mundo social for organizado sob uma perspectiva ideológica que é BIO-lógica, a igualdade de gênero será um sonho bem distante. E, se nós, feministas, participarmos desta lógica sem lógica, a sororidade entre mulheres feministas e a desejada solidariedade entre mulheres e homens feministas também serão de difícil alcance. Imaginem se a linguagem comum tão sonhada for construída apenas por meio de corpos com determinada genitália em comum! Como poderemos construir uma solidariedade, uma linguagem comum, um suporte político feminista, antirracista, anti-colonial? Já não será a hora de construirmos um ‘nós’ sem genitália? Será possível tê-lo?”

touch me

– touch me, please, touch me, please, touch meeeeeee…

[…]

– stop!

– can’t i touch you?

– my body. only.

– but i am doing it.

– please, touch my body.

– i do it. can’t you feel?

– please, keep your distance. no touch. don’t touch my soul, please.

– kiss you? can i?

– my lips, not my mouth.