Poema não-autorizado

Gostaria da permissão para escrever-te um poema
só para mostrar que as palpitações não são vãs.

Às vezes, desafio-me, apanho a caneta,
anoto versos aqui e ali que dificilmente a ti chegarão.

Silencio-te a minha lira, quando sei que podes fugir.
Sinto que sim, quando te afastas para controlar do coração os sopros:
deixas-me aluado, confuso, enervado, solitário.

Choques

enquanto aos corpos
que me atravessam o passo
os olhos fazem o gáudio,
expressões de desejo vexam-me.

choques
tremeliques
vontades
correntes

já lá se vão
meses sem contacto
humano, pessoal,
íntimo, genital

meu pénis
um canal
uma represa
um reservatório
solidão

Just sincerely mine (II)

Less I say,
more I mask myself.
Any suffering,
any soul disturbance,
any misfortune
should be covered
as if just hints of
a tiresome day.

He or she or it
wants to
catch my weaknesses
and, afterwards,
turns them
meaningless;
or just to say,
those were mine,
these are my

bulls…

Several times
I don’t know how to

answer a simple question
indeed.

Perhaps, it’s not
that simple, it’s
complex, and…
captious.

— How are you doing today, then?

It may seem
kindness coming from
him or her or it,

but can most likely
be a strategy to

provoke my decay.
Through my words
what does

he or she or it
wish to
bring about?

Less I say,
more I mask
bulls-hit…
bullsh…
hints of tiresome days.

Just
sincerely
mine.

Just sincerely mine (I)

— How are you?

Less I say,
more I mask myself.
Any suffering,
any soul disturbance,
any misfortune
should be covered
as if just hints
of a tiredsome day.

He or she or it
wants to
catch my weaknesses.
Afterwards,
will turn them
meaningless,
or just to say
those were my shit.
Fucking bullshit!

Just
sincerely
mine.

Indeed, sometimes
I don’t 
know how to
answer a simple question.
Perhaps, it’s not
that simple, it’s
complex,
captious.

— How are you doing today, then?

It may seem
kindness of the interviewer
but could be a strategy to
provoke my decay.
What does
he or she or it
wish to pick up
along 
or through
my words?

Quando o tarô aconselha

— Não quero namorado, eu disse-lhe no dia em que o tarô aconselhava abrir o coração.

Apenas registando,
registrando,
registando,
estou sequelado.

— Não quero mais ninguém.

Apenas registrando,
registando,
registrando,
estou sequelado.

— Antes de resgatar-me a mim, não quero… — digo-me, quando o tarô aconselha abrir o coração.

He blô you?

— He blô me. — he said after I had asked him about a Chinese friend we have in common.

— Ok. Nice for you. — I commented back with such an astonishing face. I had sincerely never expected them to be openly gay and in a relationship, especially because once one of them assured me that, in their country, homossexuality is not allowed by law. They come from the same place.

— Nice? How? — he replied expressing an even greater surprise.

— Yes, it’s nice you guys… — some pause. — It’s nice you and he are having an intimate relationship.

— Why do you say that? — he was clearly unconfortable.

— But you said “he blow” you.

— No.

— You said he blows you… like blow…

— Nooooooo. He blô me.

— So! You said.

— Please, do you have a pen? — he asked me laughing. I did not know why he was laughing in such a way.

I looked for a pen in my bag, got one and gave it to him. He took the receipt of the snack we had just bought in the bar and wrote something on that piece of paper.

— You see? — he said loudly. I turned to him, because I had distracted myself for seconds observing something, and he was showing me the paper with blocked written on it. — He blô me. Understand?

— Ohhhhh… — I startled for once in that afternoon, because I could not believe that their friendship had ended. — So, he blôôôô you?

— Yeeeeeesssss.

Feliz dia em que Maria pariu!

25 de dezembro é referido como o dia do nascimento de Cristo, mas poderia ser bem lembrado como o dia do parto de Maria.

E não foi fácil, imagino. Refiro-me ao parto. Não havia centro médico nas redondezas, ambulâncias e outras facilidades de hoje em dia. Ela praticamente fez tudo sozinha. José estava ali, mas quem sabe como ele agiu? Será que teve paciência com a pobre virgem prenha, a sofrer as dores da gravidez, no chão de uma manjedoura, depois de inúmeras horas a peregrinar de Nazaré a Belém?

Foram léguas a andar e a sentir dores que anunciavam a iminente parição. Isso, sob alta tensão, devido ao decreto real que obrigara toda a gente a deslocar-se longas distâncias para participar de um censo. Imaginem a então futura mãe, preocupada com o seu corpo, mas perturbada em meio à desordem social, ao tumulto causado pelas ordens de um governante corrupto e injusto. As pessoas encontravam-se ansiosas, aflitas, angustiadas. Imaginem Maria.

Mal chegou a Judeia. Não teve jeito. Foi ali mesmo, na manjedoura. Nasceu o menino. E o censo? Que se danasse o censo. Era parir ou parir. Depois, só descansar.

Descansar? Quem disse que Maria pôde? Surgiram uns indivíduos a trazer presentes para o recém-nascido. Maria estava exausta da viagem, do parto e de tudo, mas, sorridente, esteve disponível a todos.

Sinceramente, não sei como resistiu. Parir em qualquer local e sem os devidos cuidados médicos é tornar-se suscetível de contrair alguma doença, bactéria, hemorragia, sei lá o quê… E ainda, em meio a tudo isso e sem o devido repouso, ficou sob o risco da depressão pós-parto.

Não sei como Maria não ficou depressiva pelo resto da vida. Como tratariam a sua depressão naquela altura? Só Deus para responder. Dizem que ele sabe tudo.

Agora, ainda mais sinceramente, o parto de Maria foi difícil naquela época e continua a ser. Atualmente, muitos de nós insistimos em não reconhecer o papel central que Maria exerceu em toda a história. Lembramo-nos do pai e do filho e, não raramente, esquecemo-nos da mãe.

Gostaria de desejar a todas e todos boas festas natalinas, mas com mais amor às mães, pois ninguém merece passar por todas as dores do parto, para depois ser injustiçada, recebendo como prêmio o silenciamento ou mesmo apagamento da sua voz na narrativa oficial.

Feliz dia em que Maria pariu!

Das saudades de papai (I)

Por vezes, duvido muito das saudades que papai me diz sentir. As saudades de ter-me por perto dele e de mamãe. Em geral, telefono e falo com mamãe. Quando ligo, ele nem sempre está em casa, nem sempre está com paciência para conversar.

É raro querer falar ao telefone. Quando isso acontece, uma das primeiras frases que me diz ao segurar o aparelho é “Rapaz, há quanto tempo…”. Pergunta como estou. Começo a falar-lhe e, em fração de segundos, percebo a sua impaciência e mesmo vontade de despedir-se.

Ele pergunta-me como estou. Respondo-lhe “bem”, mas sempre há um “mas”. Não é um “porém”, é um vulgar e monótono “mas”, o qual introduz uma preocupação, um desconforto, uma necessidade premente.

Corta-me: “Rapaz, quero saber como você está.” Para ele, é como se eu usasse a conjunção para tergiversar, para esconder-lhe qualquer coisa, para não falar sobre mim.

“Estou bem, mas muito preocupado com a situação do Lu…” Interrompe-me de novo. Tento completar a frase. De repente, ele precisa de ir atender alguém que está a chamar no portão.

A chegada inesperada de um estranho significa mais do que uma visita. Na verdade, pode não existir visita. Pode, sim, ser o seu ultimato para que eu restrinja o assunto a mim, à minha vida em Lisboa, à minha existência.

Mas como saber de mim sem considerar os outros? Sem ponderar o contexto político em que me insiro dentro e fora do nosso país? Já lhe tentei explicar que não posso desvencilhar-me dos eventos políticos do Brasil e do país onde ocasionalmente resida, além da realidade de outros países, mas… Parece-me que sempre afasta o aparelho do ouvido, antes que eu complete o pensamento.

Mesmo ele, que não aprecia o assunto, não conseguirá fazê-lo, digo, desatar-se da política. Posto que nunca tenha morado noutro lugar que não Mossoró, o quotidiano de papai é afetado por situações que se passam em Brasília, São Paulo, Rio, Natal e outras cidades do mundo. Não há existência que não seja política.

A sua rejeição ao diálogo sobre o tema não ajuda a resolver nada. De facto, piora tudo ou quase tudo. Não lhe permite perceber como o Brasil é visto a partir de fora. Não colabora para que possa receber notícias do filho.

Com frequência, antes de alguém chegar ao portão, papai chama mamãe e incumbe-lhe a tarefa árdua. Sim, parece-me que, para papai, falar com o filho que se jogou no mundo, que vive numa ou noutra margem do Atlântico que não a brasileira e que insiste na conjunção adversativa, é uma ação penosa.