O cedilha do cachecol

Eram dias de Copa. Portugal enfrentara três equipas adversárias e, com dois empates e uma vitória, avançava na competição.

No dia em que a equipa nacional enfrentaria a uruguaia, por volta de uma hora antes do início da partida, um português entrou numa dessas lojas de chineses tão comuns em Lisboa, onde quase tudo se encontra. Ele buscava um acessório para compor o visual de torcedor patriótico.

Quem por aqui vive conhece o comportamento de muitos adeptos do futebol. Quando equipas populares, como o Benfica e o Sporting, entram em campo, torcedores saem às ruas, a algazarrar e a vestir um cachecol com o nome do time favorito.

Naquele dia, foi mesmo à procura dessas faixas que o português foi à loja chinesa.

— Espela — o funcionário disse e sumiu dentro do recinto. Em poucos minutos, voltou e entregou ao cliente uma tira de tecido, com as cores da bandeira de Portugal e algo escrito.

Às pressas, o português recebeu o cachecol e pagou o valor cobrado. Ao sair, sorriu para o jovem chinês, quando este disse:

— Força, Portugal!

No dia seguinte, mal tinha o expediente iniciado, o cliente do dia anterior apareceu na loja e dirigiu-se ao vendedor. Mostrava-se irritado, e o motivo deveria ser a derrota para o Uruguai e a consequente eliminação do campeonato. Falava qualquer coisa para o jovem chinês.

Algo estava errado. Noutro canto, o dono do comércio observava a cena de longe, até que resolveu aproximar-se e saber o que se passava. O empregado argumentava que não podia aceitar o produto de volta nem devolver o dinheiro. O português insistia.

Então, o comerciante intrometeu-se:

— Aqui non aluga lopa — disse sem compreender o porquê de alguém comprar algo num dia e querer devolvê-lo no noutro. — Aqui vende, compla. Nós vende. Tu compla.

Com raiva, o português abriu o cachecol e apontou para a letra “c” na faixa. Ainda sem entender a zanga daquele, o velhote chinês olhou a mensagem grafada e pronunciou:

— Força, Portugal!

— FORCA — gritou o português a assustar o pobre homem. — F-O-R-C-A, percebe?

O vendedor, que permanecia ao pé dos outros dois homens, estava absorto, como se não estivesse ali. Ao fim do último grito do português, o jovem chinês surpreendou-os. Na sua língua materna, começou a falar com o patrão, que logo pegou o cachecol de volta e, sem mais conversa, retornou ao cliente o valor da compra.

O português, por sua vez, foi-se com o dinheiro no bolso. Porém, creio eu que, ainda hoje, tenha consigo a tristeza pela derrota e por ter conspirado contra o país, quando inadvertidamente ostentava “Forca, Portugal!” durante toda a partida, até que — suponho — um amigo lhe tenha aconselhado a baixar a faixa ou ir embora.

Alguns dias após a derrota de Portugal para o Uruguai, dei aula particular ao meu aluno chinês. Antes de começarmos a lição, narrou-me o acontecimento num tom divertido e deixou-me muito contente. Embora ainda não consiga pronunciar o “r” sonoro intervocálico ou mesmo em grupos consonantais, aprendeu direitinho a função do cedilha.

O meu aluno contou-me que trabalhava ali havia algum tempo. Ante aquele quiproquó, lembrou-se das nossas lições de português e, então, convenceu o patrão de que o correto seria não apenas aceitar a queixa do cliente, mas também devolver todos os cachecóis ao fornecedor.

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Assustei os alunos… Será?

Assustei os alunos, as alunas e qualquer um que cogitasse contratar os meus serviços de consultoria linguística, fosse para aulas fosse para revisão de texto. Torço para que não os tenha afugentado de vez.

Apenas descobri isso hoje, quando vi a foto do meu perfil de WhatsApp. Afinal, quem gostaria de ter como professor uma pessoa com esta cara?

Há alguns dias, tenho saído por alguns lugares de Lisboa a divulgar aulas de Português para estrangeiros. Isto acontece há cerca de duas semanas. Vejo sítios frequentados por falantes de outros idiomas e lá vou divulgar o meu nome, contactos e serviços.

Vez ou outra, retorno a alguns desses lugares e aproveito para observar como os meus anúncios estão. Papel destacado, um sorriso é-me arrancado. De imediato, vêm-me duas ideias: a primeira é o interesse de alguém por aprender Português, e a segunda, um aluno ou uma aluna para mim. Sinceramente, penso logo na segunda: oportunidade de trabalho.

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Quando regresso a um sítio e vejo que me vandalizaram a propaganda, questiono-me se foi ação de um concorrente ou de algum possível estudante decepcionado ou assustado com o semblante do professor, ou seja, a cara feia que você viu logo acima.

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Não obstante esses casos de vandalismo, notei que, na maioria dos locais, os anúncios conservam-se em bom estado ou foram removidos pelos prováveis discentes. Sim, os meus iminentes alunos e alunas, pois não me demorarão a chamar!

Entretanto, os dias passam-se… e ninguém me contacta. De facto, até então, ninguém me ligou. Por um lado, o silêncio deles tem-me deixado um pouco triste e desanimado. Por outro, tem-me feito refletir sobre estratégias de marketing; sobretudo, marketing pessoal.

Então, o que fiz de errado? Indaguei-me, antes de verificar o meu WhatsApp.

De início, voltei-me à mensagem no topo do anúncio, que redigi em Inglês, a enfocar o público estrangeiro em Lisboa. Elaborei o seguinte texto: “PORTUGUESE LESSONS”, em letras garrafais e seguido de “with a professional who holds a teaching experience in an international and multicultural environments. I have taught Portuguese as foreign language in Ghana and as maternal language in Brazil”, numa linha abaixo e em letras menores.

Julguei importante comunicar a minha experiência docente em Ghana e no Brasil. O contexto multicultural mencionado serve para ambos os países, mas, em especial, Ghana, onde o meu corpo discente era culturalmente diversificado. Algumas turmas abrigavam estudantes de países francófonos vizinhos, além dos ganenses. Muitos deles falavam três ou mais idiomas e desejavam acrescentar o Português aos seus conhecimentos linguísticos. Embora o anúncio ocultasse tais detalhes, introduzia com brevidade uma trajetória profissional. Logo, depois de pensar nisso, inferi que a causa da demora não seria o texto; senão, muitos recusariam o contacto telefônico e o endereço de e-mail.

Foi, então, que resolvi ver a minha foto do WhatsApp, pois, vez ou outra, fico a mudar aquilo. Ponho uma, ponho outra… e até me esqueço da cara que lá tenho.

Ui! Assustei-me a mim mesmo. Só aí entendi por que, noutro dia, um amigo me perguntou se estava tudo bem comigo. Que cara feia, hein! Ali estava a causa. O professor. Eu mesmo. Euzinho espantei os alunos, as alunas, os clientes de revisão de texto… e a mim mesmo.

Agora, torço para que o efeito do susto seja reversível. Não há como mudar o passado, mas há como construir um presente melhor ou, ao menos, investir no hoje, concentrar-se no que está ao alcance, na melhoria das condições de vida imediatas.

Revelada a causa do problema, parti para a solução: alterar a fotografia de rosto do WhatsApp. Algo, a princípio, fácil de fazer, mas qual das minhas caras atrairia mais clientes, digo, alunos e alunas a curto prazo? Melhor: qual delas não os poria a correr?

Enquanto vou ali trocar a foto, peço-lhe um favor. Sim, a você que me lê neste momento peço o favor de divulgar as minhas aulas. Se souber de alguém entusiasmado em estudar Português com sotaque brasileiro e com um professor que possui experiência no ensino do idioma tanto como língua materna quanto como língua estrangeira, basta entregar um papelito daqueles lá de cima.

Já me ponho a torcer que me venham e que venham rápido, enquanto há espaço na agenda. 🙂

Agradeço-lhe sempre pela leitura e pela divulgação. Até a próxima!