1º de Janeiro

Que bom que 1º de Janeiro chegou! Sinto-me aliviado. E isto não tem nada a ver com a inauguração de mais um ano conforme o calendário gregoriano. As razões para o meu alívio são de cariz colectivo e social, mas também pessoal. Bem, talvez a ordem seja inversa, pois tem mais relação com os anseios que as pessoas carregam consigo, quando uma nova sequência de doze meses se faz iminente.

No primeiro dia do ano, acordo seguro de que já não há festejos de fim de ano, nomeadamente Natal e “Réveillon”. Considero-os os mais desagradáveis dentre as datas comemorativas celebradas pela maioria das pessoas.

Numa ótica talvez muito particular e bastante pessimista para alguns, compreendo esses eventos como catalizadores de amarguras, energias confusas (em geral, negativas) e empecilhos para atos futuros e imprescindíveis para uma vida digna. Por isto, tenho a esperança de que, a esta altura, ao menos abrandaram todos os sentimentos e comportamentos nada corriqueiros atrelados ao Natal e ao “Réveillon”. Refiro-me, por um lado, às crenças de recomeço, renovação, transformação, mudança… e, por outro, às esperanças de abandono. Sim, há quem acredite que deixamos no ano anterior tudo aquilo que fizemos ou que fizeram e de que não gostamos. E, em consequência, quem pensa assim também crê que, no ano-novo, começará do zero ou será “perdoado” – numa perspectiva supostamente cristã – por todos os seus atos irresponsáveis.

Festas de fim de ano – assim como outras datas comemorativas – podem estimular a hipocrisia, o consumismo, a falta de criticidade e de amor-próprio. Muitos de nós reunimo-nos em família, trocamos presentes… com a ilusão de que todos amamos todos e vivemos de alegrias e na mais plena harmonia. Preferimos escamotear feridas emocionais ainda abertas e dificuldades de sobrivivência a tentar solucioná-las.

Essas comemorações de fim de ano exortam-nos a tomar atitudes que, por vários motivos, não compõem o nosso dia-a-dia. No campo emocional, tentamos exaltar a nossa capacidade de perdoar alguém que nos gerou tristezas e danos. No campo financeiro, empenhados em simular uma realidade em diferentes esferas. Adquirimos isso e aquilo para parecer e aparecer, pois as posses são tomadas como meios para o alcance de sentimentos nobres e vice-versa.

No entanto, o perdão não é uma ação acionada automaticamente nesse período do ano. Não é o mimo trocado no “amigo secreto” que o promove. Não adianta pular as sete ondas, comer as uvas passas e as lentilhas, guardar as sementes de romã na carteira ou porta-moedas, comprar o presente mais caro para o “amigo secreto”. Não é isso que nos fará alcançar saúde, prosperidade, paz, júbilo, dinheiro, amor, júbilo, harmonia, sorte, fortuna, esperança, liberdade, paixão, bondade… e outros itens das “modestas” listas de pedidos ao “Papai Noel”. Se o velhinho existisse, imagino o quão pesado seria o seu saco.

É interessante e, sobretudo, contraditório que passamos de uma condição de vida moderada para uma perdulária. Assim, contraímos dívidas que poderiam ser evitadas. Comprometemos o orçamento do mês seguinte. Se calhar, passamos todo o ano a pagar prestações de carnê ou as facturas do cartão de crédito devido às despesas de Dezembro. Assim, o necessário para uma vida digna deve ser adiado em virtude daquilo que se fez para esbanjar na data de aniversário daquele que pregava a modéstia, a comunhão, a partilha, a benevolência…  

Às vésperas do Natal e do ano-novo, há quem defenda que se vista essa ou aquela cor e o seu poder de trazer dinheiro, saúde, paz… Há quem compre panetones e cestas natalinas para doá-los aos pobres. Há quem leia trechos bíblicos antes da ceia, para dizer que todos somos “imagem e semelhança de Cristo”. Além dessas, outras atitudes são performatizadas nessa época.

Suponho que muitos façam imenso esforço dramatúrgico, porque, nos dias seguintes, as máscaras de ternura cristã caem com facilidade. Alguns que vestiam branco sob a justificativa de paz passam a discriminar negativamente aqueles que vestem branco todas as sextas-feiras. Alguns que diziam que todos os seres eram a imagem e semelhança de Cristo já não toleram a presença de homens e mulheres pobres, negros, homossexuais e com outras marcas identitárias em alguns espaços colectivos. Sem máscaras, esses defendem o discurso da meritocracia, opõem-se a programas sociais para os pobres e até contribuem para o agravamento das desigualdades sociais. As mazelas sociais são utilizadas para justificar o seu direito de oferecer esmola e depois propagandear um espírito cristão, que, a meu ver, é pura hipocrisia popularizada ao longo dos tempos e constantemente estimulada pelo capitalismo contemporâneo. De facto, não raramente, celebramos as datas sem reflectir sobre os seus significados e sobre as nossas experiências durante os mais de trezentos dias vividos até a ceia natalícia.

Portanto, que bom que 1º de Janeiro chegou sem a suposta alucinação e amnésia que envolvem a ilusão da transformação e do abandono, como mencionei antes. Este é mais um ano no calendário gregoriano e espero vivê-lo com a convicção e a lucidez de que estou enredado em uma trajectória constituída por alegrias e mágoas que causamos uns aos outros e a nós mesmos quotidianamente e ainda ciente de que só depende de mim encarar os embates necessários à construção de uma vida digna.

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Voo interrompido

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“A face da morte”, by Cássio Serafim, Portugal, 2016.

Era uma sexta-feira chuvosa no fim do mês de Janeiro. Eduardo estava em casa a trabalhar num projecto, até que decidiu sair e buscar um lugar para comer. Ele tem pouco mais de trinta anos e é um tipo calmo, dedicado ao seu trabalho, reservado, mas também sensibilizado com os problemas dos seus semelhantes. Ele vem de uma família humilde e, desde pequeno, foi ensinado que devia agarrar com unhas e dentes cada oportunidade que a vida lhe oferecia para ser uma pessoa melhor. Diante das dificuldades que os seus pais enfrentaram para educar cada um dos seus filhos, não era surpreendente que Eduardo se tivesse tornado num tipo que planeava cuidadosamente cada passo para transformar sonhos em objectivos… em realidade. Ele lutava pelo direito de ter direitos. Não se rendia a devaneios. Era um homem prático.

A busca por uma tasca para fazer uma refeição era somente uma desculpa para sair um pouco e tentar desanuviar. Como tem ocorrido com frequência, dentro ou fora de casa, ele martelava questões sobre o seu futuro, sobre o próximo passo logo após o término do actual contracto de trabalho, sobre o fim da sua estada em Lisboa. Por inúmeras horas, ele martirizava-se pelos falhanços cometidos no cumprimento de prazos e por sua insatisfação quanto aos resultados obtidos. Apesar de prático e realista, custava-lhe aceitar que não mantinha total controle sobre a própria vida. Ninguém o tem.

Ele saiu. Precisava de relaxar um pouco. Era difícil, mas que, ao menos, tentasse… Ponderava a respeito da sua vida, caminhava devagar, demonstrava um pouco de ansiedade. Como eu te disse, custava-lhe aceitar que não tivesse total domínio sobre a sua vida, apesar de ser um homem prático e cauteloso. Aparentemente, nada foge-lhe ao controle. É o que ele deseja.

Entrementes, sucedem-lhe acontecimentos como este que eu cá estou a ti contar. A tarde seguia nebulosa. A chuva dera tréguas, mas a neblina fina era constante. Eduardo andava sem pressa, sob o guarda-chuva azul. Ele passava por uma rua próxima a uma conhecida fundação cultural da capital portuguesa. Caminhava pela calçada em frente a um edifício provavelmente do tempo do fascismo. De súbito, baixou a vista e surpreendeu-se com um corpo desfalecido. Não tenhas dúvida: havia um corpo no meio do caminho.

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“Havia um corpo no meio do caminho”, by Cássio Serafim, Portugal, 2016.

Eduardo fechou o seu guarda-chuva, encostou-o no muro do edifício, agachou-se e curvou-se o quanto pode na direcção do cadáver. Ficou muito próximo. Já não respirava. Era apenas um corpo morto no meio da calçada. Era jovem e já nada significava para quem quer que fosse. Pedestres passavam, e a apatia era visível no ritmo dos seus passos.

Olhou-o nos olhos. Imaginou ver-se reflectido na pupila do outro. Isto causou-lhe uma estranheza. O que sentia era mais do que uma simples vertigem. Quanta vida ficou por viver? Ou quanta vida deixou de viver? Eduardo perguntava a si.

Estava morto numa via pública, nas proximidades de uma famosa arena de touradas e de um grande espaço de exposições de Lisboa. Isso parecia controverso ou, no mínimo, intrigante. O quão espectacular seria o fim de um mortal ordinário se comparada com os eventos em que ceifam vidas na arena dos touros? O quão espectacular seria o desaparecimento de um mortal ordinário se comparada às caras exposições de arte cujo motivo pode ser a morte e a vida alheias? Poder-se-ia indagar isso e muito mais, mas Eduardo não estava para tanta filosofia. E, caso estivesse, seria provável não chegar a nenhures, ao menos não naquela ocasião.

Eduardo topou com um cadáver abandonado ali na passagem dos pedestres. É provável que tenha sido vitimado pela inveja de seres mal intencionados. Eduardo conjecturava sobre as possíveis causas daquele falecimento.

Era um pássaro jovem que, ainda há pouco, tinha pulado do galho, ensaiando a sua independência e inaugurando a sua primeira aventura na vida, o primeiro voo. Ensaiou percorrer um trajecto aéreo incomensurável. Almejava a liberdade.

No entanto, mal aprendeu a sonhar, mal começou a voar, caiu abatido no meio do caminho. Em pleno voo, foi perseguido e atacado de diferentes maneiras. Esforçou-se por atravessar incólume aquela batalha, mas foram bicadas incontáveis… em várias partes do corpo. As asas foram golpeadas, estavam aleijadas e para nada serviam. O voo foi suspenso precocemente.

Afinal, o que é a morte se não um voo interrompido? Eduardo apanhou o guarda-chuva e preparava para regressar à casa. Sem ter nada a fazer para reanimar o pássaro morto, ele permaneceu no local, a admirar a morte e a reflectir sobre a sua própria vida por alguns minutos.

Aquele corpo poderia ser o seu. Todo o caminho percorrido naquele dia nebuloso levou Eduardo a encontrar a si próprio. O pássaro já não respirava. Porém, nem sempre a interrupção de um voo implica o fim do percurso. Digamos que possa ser uma breve parada para reabastecer e logo seguir adiante.

E a fome de Eduardo? Ah, como eu te disse antes, aquilo lá era apenas um pretexto para sair de casa e desanuviar. Se ele relaxou um pouco? Sinceramente, eu não acredito que o tenha.

 

Rasgue a tela, se puder!

Rasgue a tela, se puder. Esta frase cair-me-ia bem hoje. Gostaria de usá-la para desafiar alguém que, um dia, amarrotou a minha estima, machucou a alma e adiou um projeto. Eu era ainda menino, vivendo com a família, no Conjunto Abolição IV, periferia de Mossoró. O meu pai possuía uma mercearia lá, a minha mãe era funcionária pública no posto de saúde do bairro vizinho, a minha irmã, o meu irmão e eu éramos três crianças de feitios diferentes e filhos de Seu Luiz Carlos e Dona Francineide.

Naquela época, a crise no Brasil era, sim, uma crise. Mesmo alguns canais de TV anunciando mentiras para encobrir interesses políticos mesquinhos, enfrentávamos problemas sociais e econômicos devastadores. A mercearia nunca conseguia ser mercearia. Por mais esperança que os meus pais tivessem, fazendo empréstimos a bancos e sortindo as prateleiras com artigos novos, as ações empreendedoras derrocavam poucas semanas depois, restando-nos as dívidas e os fiados, e o nosso comércio voltava a ser uma simples bodega. Ou nem isto! Tínhamos vergonha de assumi-lo como bar, sinônimo de vício e de prática não cristã. Mas, de facto, vendíamos pão e cachaça mais do que qualquer coisa.

Era uma tarde, quando eu geralmente ocupava o tempo fazendo os deveres da escola e atendendo na mercearia. Naquele dia, como muitos outros, o fluxo de clientes era mínimo. Pré-adolescente, com uma sexualidade que florescia tímida e temente à ideologia cristã, eu despejava no papel palavras difíceis de pronunciar. Tudo era pecado, como bem me ensinavam. Sobre o balcão, havia um maço grosso de papel de embrulho. Uma das folhas estava por menos da metade; a outra parte deveria ter-se ido protegendo um pão até à casa de alguma família do bairro.

De cabeça baixa eu estava, a caneta corria a superfície do papel e escorria a tinta azul no desenho lexical. A ânsia de registrar ali o que eu não poderia dizer, nem sabia como o fazer, nem que nome dar… era isso: a ansiedade de expressar-se.

_ Menino, seu pai sabe que você está estragando papel com essas besteiras?

Levantei a cabeça, assustado e envergonhado pelo flagrante. Aquele homem que entrara subitamente no estabelecimento havia-me lido sem que eu o percebesse, desdenhou e desdenhou de mim. Ele ignorava a palavra “privacidade” e o seu significado. Passou-me um sermão.

_ Oh, você, estruindo papel de embrulho. Depois, chega alguém pra comprar pão e o que você vai fazer? Eita, se seu pai pegar você, dá-lhe uma surra. Crie juízo, cabra.

Eu, menino tímido e acanhado na época, disse nada. Senti-me mal, muito mal, péssimo. As lágrimas esperaram alguns minutos, aguardaram a partida do invasor da minha privacidade e, depois, descambaram. Reduzi o papel, o embrulho, a escrita e a minha alma em pedaços. Primeiro, amassei-o com um desgosto tão intenso que eu, criança, não sabia explicar o que sentia nem por quê. Eu tentava imprimir tanta força naquele ato. E, como se não bastasse, eu desamassei e, então, comecei a arrancar cada pedacinho daquele finado papel de embrulho, triturando-o como estripando a alma.

Parece demasiado para uma criança. Porém, estava aquela criança na pré-adolescência, solitária, mal resolvida, com comportamentos de gênero já desde cedo criticados por alguns com frases inocentemente castradoras. O medo de que o filho fosse guei, o medo de que o sobrinho o fosse, o medo da honra manchada pela sexualidade do menino que não se enquadrava, que não jogava futebol, que não pegava as meninas, que ficava dentro de casa escutando Gil, Gal e os outros baianos, que não se dedicava muito à interação com outras crianças.

É interessante que ele era admirado por ser bom de matemática e de outros assuntos escolares, por ser um filho obediente, por ajudar ao pai e à mãe a tomar conta da mercearia e dos irmãos. No entanto, apesar disto, mais importante era vigiar e reprimir o menino estranho, um possível dissidente de um projeto de masculinidade hegemônica. Isto era mais importante do que permitir qualquer ensaio de criatividade, de escritura e de subversão de uma criança inocente. Temia-se o adulto em que ele poderia tornar-se.

O espaço daquele prospectivo embrulho de pão era um canal perigoso. Era povoado por uma caneta que parecia correr solta. Se o estranho amigo da família não surgisse inesperadamente, aquele papel seria o estopim de uma combustão de subjetividades. Aquele menino rabiscava o que sonhava ser quando crescesse. Ele imaginava que pudesse ser escritor. Hummm… Triste engano. Escritor? Ele tinha de sobreviver e sustentar-se. Depois de o papel-embrulho de alma ser atirado ao lixo, ele deixou aquele sonho de lado. Naquele contexto socioeconômico do país, ele até pensou que a única saída seria abrir uma banca em algum lugar, vender qualquer coisa e tentar a sorte na loteria. Que bom que o Brasil mudou, tem mudado gradativamente, ainda há muito por que lutar, mas que bom que os tempos são outros. O sonho de “quando eu crescer, eu quero ser” foi adiado. A cena do embrulho surgiu como punição. Porém, aquele menino, hoje adulto, voltou a acreditar na escrita como estratégia de construção de si, do fortalecimento da autoconfiança e do arrefecimento de emoções e traumas mal resolvidos.

Anos passaram, em outras plagas eu, aquele menino, estive e pude perceber que não importa o espaço e o tempo nem as crises a esses ligadas, mas é verdade que pão e cachaça são itens essenciais de qualquer cesta básica. Literatura seria dos gêneros supérfluos ou de luxo, se não fosse a minha cachaça e o meu pão de cada dia. Mas, mesmo durante o adiamento de um sonho, eu ainda me ensaiava, construía-me, rabiscava e arriscava-me. O projeto de tornar-se um escritor foi adiado por anos.  Mas, os tempos são outros. E o papel, entre as tantas utilidades que ganhou em minha vida, também surgiu com novas texturas. Já não é de celuloide, é virtual, democrático, acessível e… difícil de rasgar.