Macaíba a todo calor

Chegamos ao Chico após a hora do almoço, mas tínhamos posto quase nada na boca. Éramos cinco: Gabi, Marilu, Marcos, Sandro e eu. Mal entramos na casa, logo saímos. Afinal, com fome e sede, o Bar da Rosa seria o nosso destino. No caminho passamos pelo centro da cidade para sacar dinheiro. Esbarramo-nos nos cartazes “Estamos em greve”. A greve dos bancários prolongava-se à medida que os patrões evitavam o diálogo e a negociação. Isto obrigava-nos a perambular pelo coração da cidade, à busca de um caixa eletrônico disponível.

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Da esquerda para a direita: Marilu, Marcos, Chico, Cássio e Sandro. Foto de Gabi (Gabriela) Albano, Macaíba/RN, 1º/10/2016

Já estávamos quase a meio da tarde. Mais cedo, entretanto, teríamos sido envolvidos pela confusão harmoniosa dos corpos que mesclam na encruzilhada da multidão, com os seus suores, cheiros e sons. Já me imaginava passando por um corredor estreito entre uma tenda e outra. Sentia o peixe roçar o meu antebraço, fazendo cara de nojo com a ideia de estar a feder não somente a região atingida, mas braço, mão, perna, tudo. Logo em seguida, a um ou dois metros do animal atrevido, desviava da vendedora que carregava sobre a cabeça um saco enorme e pesado, cujo conteúdo lhe era a garantia do sustento da semana.

Serra, traíra, tilápia… tudo bem fresquin. E, se quisé, descamo e tiro as tripa agora mermo. Vai querê? Beiju, tapioca quentinha, pé-de-moleque… e ainda um café feito na hora. Venha aqui, meu patrão, chegue. Agora, não, chefe, depois passo aí. Vou ficar esperando. Oh-povo-o-ó. Num é não, menina? Esse povo num compra porra nenhuma. Tudo liso. É a crise, mulé. Olhe a banana da terra, banana maçã, banana prata. Comé-é-qui-é? Vai querê a banana ou num vai? Cebola, tomate, pimentão, tudo por… Já tem a mistura pro almoço? Ei, amiga, promoção de calcinha e sutiã. Quer dar uma olhada? Olhe a manga matuta. Olhe o alfenim bem docin… Aproveite que a promoção é só hoje. Tacabano, viu? Taaacabaaaanu, tô dizeno, tacabanu. Dez cebola por dois real, querida! Aproveite, comade. Baratotal.

As eleições municipais a suceder no dia seguinte davam um toque especial àquela alquimia de perfumes, sons e cores. Da feira restavam vendedores a desmontar barracas, compradores atrasados a tentar a sorte na hora da xepa, lixo amontoado à beira das calçadas, gatos e cachorros a farejar as vísceras de algum bicho morto e, assim, garantir a refeição do dia.

Era 1º de Outubro de 2016, sábado, dia de feira em Macaíba. Pessoas agrupavam-se numa casa comercial, a fim de acessar a sua conta bancária num terminal eletrônico. Marilu, Gabi, Chico, Marcos, Sandro e eu rapidamente compusemos o rabo da fila, posição que não demorou a ser ocupada por outros indivíduos.

A rua ainda estava agitada. Mas, infelizmente, já desmontavam a feira, o evento sabatino mais famoso do município. Já se vão mais de cem anos, milhares de sábados. E isto graças a um tal Fabrício Gomes Pedroza, como contam os historiadores que, para explicar o surgimento da feira de Macaíba, remontam ao despontar da segunda metade do século XIX1.

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Foto de Marilu Albano, Macaíba/RN, 1º/10/2016

Aguardávamos a vez na fila e inevitavelmente pensávamos em que partido aqueles homens e mulheres votariam. Se perguntássemos, talvez recebêssemos como resposta “Não voto em partido, voto em pessoas”. É assim mesmo: quem vê cara não vê partido. Talvez isto explique os resultados a serem revelados ao fim do domingo: a direita avança no mundo. Como convencer alguém do contrário? Digo: como convencer das conquistas que obtivemos nos últimos anos e da importância de não votar em alguns partidos? Como explicar a um eleitor sofrido e bombardeado por uma mídia de massa corrupta que não existe candidato sem um grupo político por trás, sem um partido e sem propósitos ideológicos?

A fila andou e chegou a vez de cada um. Deixamos a política de lado, ao menos por uns instantes. Éramos poucos para enfrentar os recrutas da politicagem que, do lado de fora, distribuíam santinhos de candidatos, seguravam bandeiras, vestiam a camisa de muitos daqueles que não nos escutam e que não trabalham por nós nem para nós, os seus possíveis eleitores. E, afinal de contas, o dia era de alegria.

Com o suficiente em mãos para “forrar o bucho e molhar o bico”, partimos em direção ao Bar da Rosa. Lá nos deliciamos com patê de siri, tapioca e cerveja bem gelada. O papo correu solto. Memórias do fundo da caixola revelaram-se a torto e a direito. Depois daí, visitamos o Engenho do Ferreiro Torto, um dos marcos históricos norte-rio-grandenses.

E, assim, a tarde transcorreu sob o calor de uma amizade de mais de uma década. São as boas recordações que alimentam as saudades e vontades de encontros futuros.

Notas:
(1) Informações históricas sobre o município de Macaíba/RN são encontradas em História e Genealogia, de Anderson Tavares de Lyra: «www.historiaegenealogia.com». Nesse blogue, há uma entrada dedicada à feira (Clique aqui.). Pormenores sobre a constituição de Macaíba como polo comercial norte-rio-grandense ainda na segunda metade do século XIX também são disponibilizados em Feira de Macaíba/RN: um estudo das modificações na dinâmica socioespacial (1960/2006), dissertação de mestrado de Geovany Pachelly Galdino Dantas (Clique aqui.).
(2) As fotografias foram editadas conforme o propósito do texto. As imagens originais encontram-se nos perfis de Facebook de Gabi e Marilu Albano, respectivamente.

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