Sábado

Sábado, ele foi à praia e encontrou-se. O sol, o mar, a areia, a brisa, o seu corpo e a sua alma, o espaço livre, aberto e infinito. Ele pouco se recordava de tais sensações. Esteve ali, atado a si mesmo.

“Homem na praia”, by Cássio Serafim, Portugal, 2015.

Tudo ele adiou: as leituras; a revisão dos capítulos da tese; a busca de editais; os e-mails pessoais… o planejamento do futuro. Há tanto tempo, ele desconhecia isto: ser a prioridade dos seus compromissos.

Sábado, ele agendou o presente sem arrependimentos. Poderia, contudo, ter sido outro dia.

Oblação transgênero

A vós que cobiçais o vigor
dos fluidos que jorram
das minhas entranhas,
recebei-me a mim
sem pretensão maternal.

É por mera culpa católica,
a mim imputada pela blasfêmia cristã,
que aqui estou para servir-vos.
Gozai-vos uns dos outros
e provai da ignomínia
que a mim impusestes.

Se tiverdes fome, vinde
e dar-vos-ei de comer.
Aceitai como oblação
este corpo transgênero,
alimento saudável para o vosso mal,
semente para acoimar a paz clerical.