Leite derramado

Ontem, pela manhã, eu derramei o leite quase todo que havia na vasilha. O que eu queria era apenas fervê-lo e preparar o meu café. Um café dos tantos que preparo e bebo quando estou em casa. Mas, sem querer, eu derramei o leite. Desastradamente encostei a caixa de leite na lateral da leiteira, que desequilibrou, virou e…

O líquido branco escorreu pelo espaço quase exíguo que existe entre o lado esquerdo do fogão e um armário sem utilidade posto no canto de uma das paredes da cozinha. Que angústia. Que angústia. Sem exclamação, repito: quanta angústia senti.

Tudo poderia ter sido diferente. Eu queria ir para a universidade cedo, dar continuidade à escrita da tese. Eu tinha terminado o meu banho, já tinha tomado o café da manhã, mas resolvi ferver o leite para preparar outro café. Mais uma xícara do tão precioso vício antes de dirigir-me à biblioteca, onde passaria o resto do dia. Era somente isso que eu desejava. Poderia ter sido diferente.

O vício de café. Café ao leite. Café em pó jogado ao fundo da xícara em que despejaria o leite quente, bem quente. Um pouco de canela em pó. Chocolate em pó também cai bem. Não havia mais chocolate. Somente canela e café solúvel. Mas o leite derramou, inundou aquele canto da cozinha. Quanta angústia eu senti naquele momento. Inquietei-me com uma sensação curiosa sobre um possível significado espiritual para aquele acontecimento. Eu não poderia, porém, ficar o dia todo ali, pressagiando o que o dia me reservaria.

Afastei o fogão. Fui à área de serviço. Regressei à cozinha, com panos, água com detergente, uma vasilha pequena. Ajoelhei… Depois de alguns minutos, tudo estava limpo. E, logo, eu devolvi o fogão ao seu lugar, passei o leite restante para outra panela, busquei a caixa de fósforos, acendi um palitinho e… pronto. Esperei ali, ao lado do fogão, atento. Está subindo, está subindo, está subindo. Desliguei.

Xícara já a postos, colher pequena rodeada por café solúvel que já havia sido depositado no fundo daquele recipiente em que, dentro de alguns minutos, eu despejaria o líquido branco recém-fervido. E assim foi: o vapor subia, o leite descia e diluía o pó preto. Alquimia realizada.

Bebi o café, vesti-me, pus computador, livro, caderno, lápis e caneta dentro da mochila. Saí de casa. Na Estação Campo Pequeno, eu apanhei o metrô e desci na Estação Cidade Universitária. De lá caminhei até a biblioteca da Faculdade de Letras, onde permaneci até quase o encerramento do expediente, com o objetivo de gerar palavras escritas e laudas para a construção de uma tese e, por conseguinte, para a conclusão do doutorado ainda neste ano acadêmico.

Eram aproximadamente 21h, quando eu havia regressado à casa. Depois de entrar, acomodei-me no sofá por um instante. Só então, busquei o celular e percebi as mensagens da minha mãe e do meu irmão e uma chamada perdida da minha irmã. Enquanto a minha mãe me enviou “Seu avô Luiz deixou de sofrer”, o meu irmão foi mais incisivo: “Ei, vovô faleceu”. O meu avô morrera havia pouco tempo. Considerando a diferença de fuso horário, se em Portugal eram 21h ou quase, no Brasil era fim de tarde.

Telefone em punho, liguei para casa, falei com o meu pai. Ele disse-me que, devido às precárias condições de saúde do meu avô, todos já esperavam que aquilo acontecesse mais cedo ou mais tarde. Vovô encontrava-se sobrevivendo com a ajuda de aparelhos há alguns dias. Os batimentos cardíacos desaceleraram desde o fim de semana, segundo me disseram. Preocupei-me com o meu pai, com a sua pressão. Ele parecia estar bem ou, ao menos, com as emoções sob controle. E eu tentei passar uma palavra de conforto e ainda, por fim, aconselhei-o a tomar conta de vovó, digo, a cuidar dela da melhor forma possível.

Desliguei o telefone. E, como comumente ocorre, passei a avaliar o peso das minhas palavras destinadas ao meu pai. Demorei alguns minutos refletindo sobre a situação do falecimento, a experiência do luto, os seus sentimentos e os meus. Então, de súbito, lembrei-me do leite derramado.

Ontem, pela manhã, além da angústia, eu poderia ter sentido uma raiva pela perda do leite. Em tempos de crise, não penso que alguém goste de desperdiçar alimento. De modo particular, eu sou um tipo que não aprecia certas perdas, a saber, o leite derramado. Porém, entre encolerizar-me pelo meu movimento brusco e desastrado e decidir pela limpeza rápida, pela otimização do tempo e pela preparação de um novo café, eu optei pela segunda alternativa. Decidi que não podia chorar pelo leite derramado.

O meu avô faleceu em Mossoró, ontem, à tarde do dia 13 de Outubro de 2015. Eu não estava lá. Mesmo que estivesse no Brasil, eu não penso que estivesse com a minha família neste momento, por questões puramente circunstanciais (trabalho, estudo etc.). Eu sinto que ele se tenha ido. Todavia, felizmente, vovó respira. Foram anos cuidando de vovô, mesmo quando ele a fazia sofrer com mulheres, bebidas e cigarros. Foram anos ao lado dele, quando ele já não tinha força nem para levantar um copo de água. Foram anos em que ela deixou de viver.

Ontem, eu não chorei pelo leite derramado. Levantei a cabeça, arregacei as mangas da camisa, fiz o que tinha de fazer e segui em frente. Antes de encerrar o telefonema para o meu pai, eu fiz questão de lembrar-lhe que vovó ainda respira. Eu espero que ele, o meu pai, os seus irmãos e as suas irmãs deem o suporte de que vovó precisa para seguir em frente e para voltar a viver.

Rasgue a tela, se puder!

Rasgue a tela, se puder. Esta frase cair-me-ia bem hoje. Gostaria de usá-la para desafiar alguém que, um dia, amarrotou a minha estima, machucou a alma e adiou um projeto. Eu era ainda menino, vivendo com a família, no Conjunto Abolição IV, periferia de Mossoró. O meu pai possuía uma mercearia lá, a minha mãe era funcionária pública no posto de saúde do bairro vizinho, a minha irmã, o meu irmão e eu éramos três crianças de feitios diferentes e filhos de Seu Luiz Carlos e Dona Francineide.

Naquela época, a crise no Brasil era, sim, uma crise. Mesmo alguns canais de TV anunciando mentiras para encobrir interesses políticos mesquinhos, enfrentávamos problemas sociais e econômicos devastadores. A mercearia nunca conseguia ser mercearia. Por mais esperança que os meus pais tivessem, fazendo empréstimos a bancos e sortindo as prateleiras com artigos novos, as ações empreendedoras derrocavam poucas semanas depois, restando-nos as dívidas e os fiados, e o nosso comércio voltava a ser uma simples bodega. Ou nem isto! Tínhamos vergonha de assumi-lo como bar, sinônimo de vício e de prática não cristã. Mas, de facto, vendíamos pão e cachaça mais do que qualquer coisa.

Era uma tarde, quando eu geralmente ocupava o tempo fazendo os deveres da escola e atendendo na mercearia. Naquele dia, como muitos outros, o fluxo de clientes era mínimo. Pré-adolescente, com uma sexualidade que florescia tímida e temente à ideologia cristã, eu despejava no papel palavras difíceis de pronunciar. Tudo era pecado, como bem me ensinavam. Sobre o balcão, havia um maço grosso de papel de embrulho. Uma das folhas estava por menos da metade; a outra parte deveria ter-se ido protegendo um pão até à casa de alguma família do bairro.

De cabeça baixa eu estava, a caneta corria a superfície do papel e escorria a tinta azul no desenho lexical. A ânsia de registrar ali o que eu não poderia dizer, nem sabia como o fazer, nem que nome dar… era isso: a ansiedade de expressar-se.

_ Menino, seu pai sabe que você está estragando papel com essas besteiras?

Levantei a cabeça, assustado e envergonhado pelo flagrante. Aquele homem que entrara subitamente no estabelecimento havia-me lido sem que eu o percebesse, desdenhou e desdenhou de mim. Ele ignorava a palavra “privacidade” e o seu significado. Passou-me um sermão.

_ Oh, você, estruindo papel de embrulho. Depois, chega alguém pra comprar pão e o que você vai fazer? Eita, se seu pai pegar você, dá-lhe uma surra. Crie juízo, cabra.

Eu, menino tímido e acanhado na época, disse nada. Senti-me mal, muito mal, péssimo. As lágrimas esperaram alguns minutos, aguardaram a partida do invasor da minha privacidade e, depois, descambaram. Reduzi o papel, o embrulho, a escrita e a minha alma em pedaços. Primeiro, amassei-o com um desgosto tão intenso que eu, criança, não sabia explicar o que sentia nem por quê. Eu tentava imprimir tanta força naquele ato. E, como se não bastasse, eu desamassei e, então, comecei a arrancar cada pedacinho daquele finado papel de embrulho, triturando-o como estripando a alma.

Parece demasiado para uma criança. Porém, estava aquela criança na pré-adolescência, solitária, mal resolvida, com comportamentos de gênero já desde cedo criticados por alguns com frases inocentemente castradoras. O medo de que o filho fosse guei, o medo de que o sobrinho o fosse, o medo da honra manchada pela sexualidade do menino que não se enquadrava, que não jogava futebol, que não pegava as meninas, que ficava dentro de casa escutando Gil, Gal e os outros baianos, que não se dedicava muito à interação com outras crianças.

É interessante que ele era admirado por ser bom de matemática e de outros assuntos escolares, por ser um filho obediente, por ajudar ao pai e à mãe a tomar conta da mercearia e dos irmãos. No entanto, apesar disto, mais importante era vigiar e reprimir o menino estranho, um possível dissidente de um projeto de masculinidade hegemônica. Isto era mais importante do que permitir qualquer ensaio de criatividade, de escritura e de subversão de uma criança inocente. Temia-se o adulto em que ele poderia tornar-se.

O espaço daquele prospectivo embrulho de pão era um canal perigoso. Era povoado por uma caneta que parecia correr solta. Se o estranho amigo da família não surgisse inesperadamente, aquele papel seria o estopim de uma combustão de subjetividades. Aquele menino rabiscava o que sonhava ser quando crescesse. Ele imaginava que pudesse ser escritor. Hummm… Triste engano. Escritor? Ele tinha de sobreviver e sustentar-se. Depois de o papel-embrulho de alma ser atirado ao lixo, ele deixou aquele sonho de lado. Naquele contexto socioeconômico do país, ele até pensou que a única saída seria abrir uma banca em algum lugar, vender qualquer coisa e tentar a sorte na loteria. Que bom que o Brasil mudou, tem mudado gradativamente, ainda há muito por que lutar, mas que bom que os tempos são outros. O sonho de “quando eu crescer, eu quero ser” foi adiado. A cena do embrulho surgiu como punição. Porém, aquele menino, hoje adulto, voltou a acreditar na escrita como estratégia de construção de si, do fortalecimento da autoconfiança e do arrefecimento de emoções e traumas mal resolvidos.

Anos passaram, em outras plagas eu, aquele menino, estive e pude perceber que não importa o espaço e o tempo nem as crises a esses ligadas, mas é verdade que pão e cachaça são itens essenciais de qualquer cesta básica. Literatura seria dos gêneros supérfluos ou de luxo, se não fosse a minha cachaça e o meu pão de cada dia. Mas, mesmo durante o adiamento de um sonho, eu ainda me ensaiava, construía-me, rabiscava e arriscava-me. O projeto de tornar-se um escritor foi adiado por anos.  Mas, os tempos são outros. E o papel, entre as tantas utilidades que ganhou em minha vida, também surgiu com novas texturas. Já não é de celuloide, é virtual, democrático, acessível e… difícil de rasgar.