Quarentena: nota um

Alguém se tem esquecido de banhar-se tanto quanto eu durante esta quarentena? Estava com tanta vontade de tomar banho na última quarta-feira, mas acho que me esqueci de fazê-lo.

Dei-me conta da falta de banho a meio de uma aula. Estou a participar em um curso online. Ainda bem que a sala de aula é virtual, pois, só assim, o professor e os outros alunos não conseguem sentir-me o cheiro.

Às 20h, os colegas começaram a despedir-se. Uma colega disse “até à segunda!” Segunda? Que estranho! Se estávamos a meio da semana, — pensei —, por que razão não teríamos aula na sexta-feira?

Era já sexta-feira, quando me dei por isso tudo. Estava tão cansado e perturbado, que dormi a perguntar-me quando tomara banho.

Sábado, acordei sujo, mas seguro de que a vida tinha de tomar um novo rumo. Era 25 de Abril. Pus-me todo limpinho, com energias renovadas. Mesmo impedido de ir à avenida, nutri as boas memórias.

Como todo 25 de Abril, eu queria vivê-lo à grande! O peito cheio de ganas de descer a Liberdade, com o cravo no peito, a cantar “Grândola, Vila Morena”, que me eriça os pêlos dos pés à cabeça, sempre a ansiar por igualdade, fraternidade e oportunidade para, com segurança, viver os versos de Zeca Afonso: “O povo é quem mais ordena/Dentro de ti, ó cidade”.

Noite de quarentena, dia de insónia

De ontem para hoje dormi mal. Bem mal. Levantei pelas 11h, quase. O corpo, dolorido. Todo dolorido. A boca, ressecada. Bem ressecada. Tive sonhos em catadupa. Todos, pesadelos. Acordei por diversas vezes. O sono, intermitente. Bem intermitente.

Em um momento, a interrupção do adormecimento prolongou-se. Resolvi ler. Apanhei O local da cultura de Homi Bhabha, que deixara ao pé da cama. Antes de abri-lo na página em que parara, apanhei o telemóvel, que também estava ao pé da cama.

Abri uma página no telemóvel. Verifiquei os concursos literários abertos. Sempre faço isto. Tenho a esperança de que um dia vencerei um concurso desses, com um bom prémio monetário. Tenho a esperança de que um dia serei lido e consumido. Tenho a esperança de que um dia me tornarei num escritor profissional. Nunca mando um conto sequer; assim, não há esperança que dê jeito.

No telemóvel, ainda abri o Twitter. Visitei perfis que publicam vídeos pornográficos. Às vezes, mostram-se mais eficientes do que os sites especializados, a cujo acervo tenho a ligeira impressão de ter assistido por inteiro. Em dias de insónia, vê-se o quão útil é a punheta. Há mesmo quem veja a masturbação como uma atitude nacionalista, bom estratagema para os tempos que correm. Abri xvideos.com. Nenhuma novidade. Voltei à página dos concursos literários, na secção do mês. Sentimento de culpa por toda a minha procrastinação.

Apanhei o Bhabha. Dei continuidade à leitura de um capítulo. Concentração baixa. Sentimento de culpa por toda a minha procrastinação. Por que ainda não concluí a tese? Por que ainda não fechei este ciclo? Por que permaneço aqui?

Eram quase 6h. Fechei o livro. Dormi. Sono intermitente. Sonhos. Pesadelos. No último, eu estava casado com uma colega que precisava de legalização em Portugal. O estranho é que não reúno as condições para tal favor. No pesadelo, porém, casáramos. Ela necessitava somente de um marido legal. Após o casamento, cada um seguiu a sua vida. Ela sempre soube da minha gueitude. Um dia, do nada me apareceu com uma criança. Disse-me estar triste e de mim esperava o cumprimento das obrigações de marido. Que estranha. Perguntei-lhe se estava louca, mandei-lhe embora e anunciei-lhe o divórcio. Acordei.

Forcei-me o sono. Doutras vezes, digo, noutras noites de insónia, a tentativa malograria. Porém, desta vez, funcionou. Eram quase 8h, quando acordei com gritos. Levantei-me para ver de onde vinham. Após uns minutos, perturbado com os sons desconhecidos, dormi. Passava das 9h, quando acordei com outro berro. Era eu.

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10h e uns tantos minutos, despertei de vez. Doía-me o corpo. Não me saía da cabeça a cena de terror que vive ontem. Tento seguir todas as orientações da Direção-Geral de Saúde e as regras decretadas pelo estado de emergência para enfrentarmos esse pandemónio. Sim, a pandemia de covid-19 assembleia muito mais do que Trump, Bolsonaro e os seus sectários. Há mais demónios à solta.

Ontem, à tarde, estava eu mais do que acordado, quando estive dentro de um pesadelo. Desde que o Presidente da República decretou o estado de emergência, eu ficava em casa, em quarentena. Ontem, no entanto, saí. Fui à venda do senhor Massamá, para adquirir bens alimentícios essenciais: alho, gengibre, cebola, tomate, banana e uma coisinha ou outra a mais. Bens alimentícios, eu disse. Não pretendia encontrar o novo coronavírus nem mesmo o seu espectro, mas este persegue-nos na sombra.

Na mercearia, estavam somente a esposa e o filho do senhor Massamá. Além do dono, também se faziam ausentes os clientes habituais, antigos moradores da zona. Noutro dia, uma longa fila formara-se com esses fregueses a usarem luvas e máscara. Ontem, ao contrário, não tive de esperar para entrar e servir-me. Logo enchia a cestinha, com o propósito de confinar-me em casa por dias, protegendo-me do espectro do vírus. Quando estiquei o braço para alcançar as cebolas, escutei uma tosse seca por trás de mim. Segurei a respiração e virei a cara para ver o que se passava. A esposa do senhor Massamá tossia, tossia e, ofegante, tossia, sem soltar, entretanto, a caneta a calcular as compras de um cliente. O filho pôs-se nervoso: “O que foi? O que foi?” A mãe, mal disposta, respondeu-lhe: “Engasguei.” Fiquei confuso: será que deveria ter saído de casa? Prefiro estar com fome a estar com o vírus. Tarde demais. Prendi a respiração mais uma vez e dirigi-me ao caixa.

Agora, espero catorze noites de quarentena passarem. Oxalá não tenha mais pesadelos.