Assustei os alunos… Será?

Assustei os alunos, as alunas e qualquer um que cogitasse contratar os meus serviços de consultoria linguística, fosse para aulas fosse para revisão de texto. Torço para que não os tenha afugentado de vez.

Apenas descobri isso hoje, quando vi a foto do meu perfil de WhatsApp. Afinal, quem gostaria de ter como professor uma pessoa com esta cara?

Há alguns dias, tenho saído por alguns lugares de Lisboa a divulgar aulas de Português para estrangeiros. Isto acontece há cerca de duas semanas. Vejo sítios frequentados por falantes de outros idiomas e lá vou divulgar o meu nome, contactos e serviços.

Vez ou outra, retorno a alguns desses lugares e aproveito para observar como os meus anúncios estão. Papel destacado, um sorriso é-me arrancado. De imediato, vêm-me duas ideias: a primeira é o interesse de alguém por aprender Português, e a segunda, um aluno ou uma aluna para mim. Sinceramente, penso logo na segunda: oportunidade de trabalho.

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Quando regresso a um sítio e vejo que me vandalizaram a propaganda, questiono-me se foi ação de um concorrente ou de algum possível estudante decepcionado ou assustado com o semblante do professor, ou seja, a cara feia que você viu logo acima.

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Não obstante esses casos de vandalismo, notei que, na maioria dos locais, os anúncios conservam-se em bom estado ou foram removidos pelos prováveis discentes. Sim, os meus iminentes alunos e alunas, pois não me demorarão a chamar!

Entretanto, os dias passam-se… e ninguém me contacta. De facto, até então, ninguém me ligou. Por um lado, o silêncio deles tem-me deixado um pouco triste e desanimado. Por outro, tem-me feito refletir sobre estratégias de marketing; sobretudo, marketing pessoal.

Então, o que fiz de errado? Indaguei-me, antes de verificar o meu WhatsApp.

De início, voltei-me à mensagem no topo do anúncio, que redigi em Inglês, a enfocar o público estrangeiro em Lisboa. Elaborei o seguinte texto: “PORTUGUESE LESSONS”, em letras garrafais e seguido de “with a professional who holds a teaching experience in an international and multicultural environments. I have taught Portuguese as foreign language in Ghana and as maternal language in Brazil”, numa linha abaixo e em letras menores.

Julguei importante comunicar a minha experiência docente em Ghana e no Brasil. O contexto multicultural mencionado serve para ambos os países, mas, em especial, Ghana, onde o meu corpo discente era culturalmente diversificado. Algumas turmas abrigavam estudantes de países francófonos vizinhos, além dos ganenses. Muitos deles falavam três ou mais idiomas e desejavam acrescentar o Português aos seus conhecimentos linguísticos. Embora o anúncio ocultasse tais detalhes, introduzia com brevidade uma trajetória profissional. Logo, depois de pensar nisso, inferi que a causa da demora não seria o texto; senão, muitos recusariam o contacto telefônico e o endereço de e-mail.

Foi, então, que resolvi ver a minha foto do WhatsApp, pois, vez ou outra, fico a mudar aquilo. Ponho uma, ponho outra… e até me esqueço da cara que lá tenho.

Ui! Assustei-me a mim mesmo. Só aí entendi por que, noutro dia, um amigo me perguntou se estava tudo bem comigo. Que cara feia, hein! Ali estava a causa. O professor. Eu mesmo. Euzinho espantei os alunos, as alunas, os clientes de revisão de texto… e a mim mesmo.

Agora, torço para que o efeito do susto seja reversível. Não há como mudar o passado, mas há como construir um presente melhor ou, ao menos, investir no hoje, concentrar-se no que está ao alcance, na melhoria das condições de vida imediatas.

Revelada a causa do problema, parti para a solução: alterar a fotografia de rosto do WhatsApp. Algo, a princípio, fácil de fazer, mas qual das minhas caras atrairia mais clientes, digo, alunos e alunas a curto prazo? Melhor: qual delas não os poria a correr?

Enquanto vou ali trocar a foto, peço-lhe um favor. Sim, a você que me lê neste momento peço o favor de divulgar as minhas aulas. Se souber de alguém entusiasmado em estudar Português com sotaque brasileiro e com um professor que possui experiência no ensino do idioma tanto como língua materna quanto como língua estrangeira, basta entregar um papelito daqueles lá de cima.

Já me ponho a torcer que me venham e que venham rápido, enquanto há espaço na agenda. 🙂

Agradeço-lhe sempre pela leitura e pela divulgação. Até a próxima!

 

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Encontro ao pôr-do-sol

Clique sobre as imagens para observá-las melhor. E, depois, é só planejar o seu encontro ao pôr-do-sol. Espero que seja agradável.

Mole National Park, Ghana

O Mole National Park está localizado na Região Norte do Gana e possui uma área de 4.840 quilómetros quadrados de savana. É o habitat de elefantes, búfalos, veados, primatas, hienas, felinos selvagens, diversas espécies de pássaro.

Em Julho de 2013, visitei esse refúgio da vida selvagem, ainda preservado. Foram aproximadamente quinze horas na estrada, em um ónibus de Acra a Tamale. Daí tomei uma van até o parque.

A administração do Mole organiza dois tipos de visita guiada: uma num jipe; outra a pé. Ambas ocorrem na companhia de um guarda devidamente armado para prevenir o ataque de algum animal de grande porte.

Era um dia chuvoso. Por esse motivo, alguns guias tentaram desencorajar os visitantes a fazer qualquer expedição naquela tarde. Diziam que, em geral, os animais não saíam a alimentar-se sob a chuva. Relutantes, alguns – incluindo a mim – contactaram um guia que concordou com correr o risco de dar uma caminhada em vão.

Tivemos sorte! Mas mal o jipe partiu e logo vimos alguns elefantes. Rapidamente, o motorista e o guia pararam e conduziram-nos a pé, por dentro da mata.

A segunda visita guiada estava agendada para o dia seguinte, às 6h. A caminhada do alojamento até o local combinado com o guia permitiu-me observar um pouco da vida local. Cruzei com trabalhadores locais e habitantes de uma vila localizada nas circunvizinhanças ou talvez dentro da reserva.

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“Inside the Mole”, by Cássio Serafim, Ghana, 2013.

Depois da chegada do guia e de outros visitantes, seguimos uma estrada de barro e, em seguida, adentramos uma trilha no meio da mata. Em poucos minutos, fomos surpreendidos por um jovem elefante. Ele alimentava-se entre árvores de baixo porte. Pareceu não gostar da nossa presença. Observamo-lo por um momento e, depois, seguimos em frente.

Naquela manhã, tivemos a oportunidade de conhecer melhor aquela biodiversidade. No percurso, achamos a carcaça de um animal, que, segundo o guia, teria sido atacado por um leão há alguns meses. Mesmo um pouco apreensivos, avançamos. Passamos por um lago em que búfalos se banhavam. Em seguida, subimos uma colina até o albergue que fica dentro da reserva.

Naquele dia, depois do almoço, voltei para Acra e, ao sair do quarto do albergue, um javali descansava às margens da passadeira. Só deu tempo de tirar uma foto rápida e sair correndo, pois a van esperava-nos.

Desta viagem, eu nunca me esquecerei dos animais selvagens dos quais fiquei tão próximo, mas, principalmente, dos elefantes, espécies por que sou fascinado desde pequeno.

 

O taxista torcedor do Gana

Aconteceu-me há uns quatro anos, em Acra, Gana. Estava nas redondezas do Hospital Militar, perto da Estação 37, entre 18h e 19h. Muitas pessoas queriam voltar para casa. Dia de jogo: Brasil vs. Gana. Estava difícil pegar ônibus, tro-tro (como lá é chamada a van) e mesmo táxi. Empurra-empurra, disse-me-disse, corre-praqui, corre-pracolá… uma confusão danada.

Ufa. Depois de algum tempo, estava eu sentado dentro de um táxi, com mais três pessoas. Éramos todos estranhos uns aos outros. Só tínhamos algo em comum: sair dali em direção a Madina. De Zongo Junction, em Madina, eu ainda iria até Sakora, Sun City, bairro onde morava.

Pronto, táxi lotado, o motorista deu partida, mas, antes, deixou claro que só iria até Madina e que cada um pagaria 2Ghc. Durante o trajeto, muita conversa sobre futebol. Eu, calado. Alguém percebeu o meu silêncio. Obruni, where’re you from? Eu disse Brazil. Risos. Algumas piadas referentes à atuação do time brasileiro foram feitas. Eu sorri desajeitadamente. Eles continuaram envolvidos em suas apostas de quantos gols e coisas do tipo. Deixaram-me em paz. E eu sentia-me agradecido. Não estava para muita interação. Não aprecio futebol e, ademais, eu estava exausto devido ao dia de trabalho concluído ainda há pouco.

Stop. O táxi parou, alguém desceu, continuamos. Stop over there, please. Desceu alguém mais. À medida que a longa fila de carros avançava em direção a Zongo Junction, os passageiros iam descendo e, automaticamente, pagando o valor antes indicado. Conforme a dinâmica dos táxis compartilhados, descendo alguém no meio do trajeto, outra pessoa poderia juntar-se ao grupo restante, ocupando a vaga deixada. Este, porém, não foi o caso naquele dia.

A certa altura, dei-me conta que só estávamos eu e o taxista. Ele perguntou onde eu gostaria de descer, pois lá estava Zongo Junction, trânsito agitado e caótico, impossível de o táxi avançar um pouco mais. Logo, seria mais inteligente parar um pouco antes e caminhar para a estação mais próxima, a fim de pegar um tro-tro ou outro transporte para Sakora.

Here it’s ok. Eu falei isto dois ou três minutos depois. Ele fez menção de estacionar o carro, mas, com o trânsito engarrafado, nenhum automóvel mexeria do seu lugar por um tempo, e ele pediu-me para sair ali mesmo. Eu fi-lo de bom grado, mas, antes disso, tirei o dinheiro da carteira e estendi-lhe a mão. 4Ghc, ele pronunciou, recusando-se a aceitar o valor. Da-be-da-be-da-be… You said 2Ghc, chale. Eu disse que o valor tinha sido combinado antes e, então, não era justo ele mudar o preço naquele exato instante.

Apesar do cansaço, eu estava decidido a não ceder à chantagem. Proferi algumas expressões em Twi, surpreendendo-o e tentando fazer-me amigável e dissuadi-lo da tentativa de extorsão. Não obtive sucesso. Ele ainda tentou arrancar de mim o dobro do preço estipulado pela corrida, com argumentos bastante conhecidos por qualquer usuário de táxi em Acra, independentemente de ser estrangeiro ou nacional.

_ Obruni, this place is too far oooo. And traffic is too much.
_ Chale, it is not, you know, it is not too far. And traffic is always too much in Accra, you know.

Enquanto ele insistia falando de distância e congestionamento, eu perdia um pouco da minha paciência e, de súbito, elevei o tom de voz, dizendo que ou ele recebia aquele valor ou eu desceria ali mesmo e muito grato pela carona que ele me havia dado. Chale, if you don’t take this money, I only have to say Thanks for the ride. Ok?

Ele fitou-me surpreendido e, ao mesmo tempo, decepcionado por não ter logrado na chantagem. Eu estendi-lhe a mão com o dinheiro de novo.

Which team you support tonight?, ele indagou-me sorrindo. Oxente. Ainda mais esta, eu pensei. Orapor que time eu torceria? Sem paciência, eu gritei Ghana, man, Ghana, me patcho.

Ele gargalhou, pegou os 2Ghc, eu desci e fechei a porta do carro. Ele deu partida e acenou-me Obruni, obruni, goodbye ooo.

Eu sorri, por fim, e segui para a próxima estação. Em poucos minutos, eu deveria estar dentro de outro táxi, barganhando, argumentando e, com sorte, entendendo-me com mais um taxista, mas o destino seria outro. Hey, Sakora? E talvez, de novo, futebol fosse motivo de conversa. Oxalá eu soubesse usá-lo para barganhar o preço da corrida.