«Gay.»

«Gay.»

Tornei o rosto e vi-o de costas. Já não me olhava. Observou-me tempo suficiente para ler-me e identificar-me talvez com o rótulo mais fácil para si.

Aconteceu-me noutro dia, quando subia uma travessa que liga a Avenida Almirante Reis à Rua do Benformoso, em Lisboa. Ele passou por mim e cumprimentou-me com um “gay“. Poderia ter sido um “paneleiro”, mas foi um “gay“.

Pegou-me de surpresa, realmente não esperava e, se tivesse pensado melhor, se de facto tivesse a chance de interagir com aquele indivíduo, ter-lhe-ia interpelado se ele também o era. Talvez lhe tivesse perguntado se estava tão na cara a minha “gueitude”. Se me confirmasse que estava, eu sorriria feliz da vida. Uma vez fora do armário, não me venham impô-lo de novo.

Porém, nada disse. Houve nenhuma interação para além da sua voz e da minha escuta. Segui para a casa. Fiquei sem saber se aquele “gay” significaria um “Boas-vindas” e um “Sinta-se em casa”, uma vez que sou novo na área, ou se seria um insulto e um aviso do tipo “Cuida-te, que tô de olho em ti”.

Fiquei intrigado. Seria aquela uma expressão de homofobia? Seria uma atração pelas minhas feições confusas para alguns tanto quanto familiares para outros, resultantes da união entre tipos humanos diferentes? Terá sido pela aparência, pelas duas argolas grossas que pendem das minhas orelhas e que me dão um ar distinto e, ao mesmo tempo, ordinário, com a barba preta, fechada e volumosa? Terá ele me achado um “boy formoso” na Benformoso?

De facto, em torno do seu “gay”, só há espaço para ilações. A única certeza que tenho é a de que lhe chamei a atenção. Fui notado por alguém cujo rosto desconheço e que pode estar incomado com a minha presença na Benformoso, mas também pode estar entusiasmado.

Se me tivesse dado a oportunidade da interlocução, indagava-me «Gay?», e ter-lhe-ia eu respondido com brio:

«Bem gay

“Quem cozinha dos dois?” – quando homofobia e sexismo azedam o dia

“Quem cozinha dos dois?” — ela perguntou-me. Há segundos que mais parecem uma eternidade. Eram os poucos segundos necessários a responder uma questão elaborada de forma simples e direta. Estava ali a interagir com uma colega da universidade, alguém que até poderia considerar amiga e que conhecia a minha situação conjugal com Murilo e, por conseguinte, a minha orientação afetivo-sexual.

Que importância esta informação teria para alguém, além das partes envolvidas num relacionamento, casamento ou como se queira chamar? Será que indagaria a mesma questão a um casal heterossexual? Sinceramente, suponho que não o fizesse e que tomasse por certo de que a esposa — ou namorada, a depender do caso — estivesse com a incumbência de cozinhar, limpar e realizar outros afazeres ditos “do lar”. Presumo isto porque, numa perspectiva heteronormativa e patriarcalista, se entende que o trabalho doméstico fique a cargo das mulheres. As atividades são distribuídas entre os indivíduos com base nas suas genitálias, conforme práticas discursivas e não-discursivas binárias que circundam os seus corpos. Em geral, sobrecarregam quem que tem uma vagina ou quem julgam pertencer ao universo qualificado como feminino.

Eu elucubrava sobre o motivo do questionamento. Falávamos sobre qualquer assunto que não a rotina doméstico-familiar numa ótica heteronormativa. Embora ela tentasse dissimular a sua curiosidade dizendo que o marido também cozinhava, eu não a aceitaria como inocente. Súbita e tacitamente, homofobia e sexismo tornaram-se nos pratos principais de uma interlocução que deveria ser tranquila, gostosa e palatável. Recuso-me, porém, a digerir homofobia, sexismo e outros “ismos” que queimam como pimenta quando entra e quando sai. Ora “Quem é que cozinha” não significa a mesma coisa que “Fulano também cozinha”: nesta oração, há inclusão e partilha de tarefas; naquela, há exclusão e imposição de um trabalho que se considera apropriado para um indivíduo com determinado sexo ou identidade de gênero.

Sentia os efeitos desses discursos desde criança, quando tentava ajudar a minha mãe em simples tarefas, como lavar a louça ou faxinar. Não raramente, observei o desconforto e até temor de homens e mulheres da família que falavam qualquer coisa como “Isto é serviço de mulher.” Este é o tipo de situação comunicativa que revela a estreita relação entre sexismo e homofobia. E ainda denuncia como estes são utilizados para impor concepções de normalidade e anormalidade e, em consequência, projetos de vida que enclausuram muitos de nós. Eu gostaria de ter-lhes retorquido naquela época. Se fosse já muito atrevido, ter-lhes-ia dito “Não cai nada, não. Não é colado com cuspe.” Mas não estou seguro de que me livrasse facilmente daquele assédio. 

Aquele rápido intervalo entre pergunta e resposta — quase eterno na minha mente — conduziu-me a eventos escondidos na memória. Além dos momentos da infância de quando espanava a estante ou lavava os pratos para mamãe, recordei-me de um encontro com a mãe de um ex-namorado meu. Na altura, a minha então sogra soube que o seu filho e eu iríamos morar juntos. Ela perguntou-me quem de nós dois iria cozinhar, porque, segundo ela, o seu filho nada sabia sobre esses assuntos. Percebi ali uma expectativa e pressão para que um de nós assumisse papéis de gênero fixos e determinados tradicionalmente pela sociedade heteronormativa e patriarcalista.

Foi nessa visita ao passado que fui buscar a resposta para a colega acadêmica. A minha sensação naquela altura foi parecida com a que senti recentemente. Não entendia e ainda não compreendo bem este tipo de indagação. Será que os dois não podem cozinhar? Será que as duas partes envolvidos num relacionamento não podem responsabilizar-se, igualmente, pela lida doméstica?

A divisão de tarefas domésticas nada tem a ver com capacidades ou incapacidades inatas de cada um dos corpos-sexuados. Será que toda menina nasce predisposta a gostar de cozinhar? E ainda detentora de habilidades especiais para fazê-lo? É evidente que não. Somos treinados e treinadas desde pequenos para isso ou aquilo. Se uma criança não segue o roteiro que lhe impõem mesmo antes do nascimento, ela é posta sob escrutinação por boa parte da sua vida. É posta sob vigilância constante para “vestir” uma identidade que pode não ser o seu número.

Quem é que cozinha, afinal? Respondi-lhe à queima-roupa: “Quem tem fome!” Ora, se o casal é composto por um homem e uma mulher, ele não deve esperar que ela ponha tudo à mesa para que possa comer. Genitália não é — ao menos, não deveria ser — pré-requisito para trabalho algum. Por sua vez, se o casal é composto por duas pessoas do mesmo sexo, digo o mesmo. A identidade de gênero não deve ser pré-requisito para assumir essa ou aquela função.

Portanto, esta deveria ser a regra de uma casa: divisão igualitária do trabalho entre os cônjuges, independentemente de sexo, de identidade de gênero ou de sexualidade. Sentiu fome? Vá à cozinha, pegue os ingredientes necessários, prepare o prato e sirva-se. Se quiser, faço-lhe companhia, mas sem homofobia e sexismo, porque estes não são temperos e até azedam a vida.

Dia 4 de Outubro

Duas esquinas. Exatamente duas esquinas alcançadas no trajeto da morada dos meus pais ao barbeiro. Um homem sentado numa cadeira de balanço, feita de ferro, com assento e encosto de palha entrançada, debaixo de uma varanda que protegia a fachada da residência.

Por vezes, vínhamos da universidade, parávamos e sentávamos ali, debaixo da varanda, a conversar e a esquecer as horas. Depois de longa resistência a interromper o papo, despedíamo-nos com a certeza de que, se poupássemos minutos imediatos, teríamos outros tantos para usufruir na jornada seguinte. E, assim, lá estávamos no outro dia… e no outro… e no outro… se brincasse, a semana toda.

Era a nossa amizade ainda incipiente que tecíamos. Com frequência, a sua mãe, mesmo cansada e meio adormecida, surgia à porta, a recordar que estava tarde. A minha mãe geralmente levantava ao ouvir a chave na porta. E, então, lembrava-me de que já era bem tarde para eu estar na rua e que ela, a minha mãe, ficava preocupada até o meu retorno.

Existiu quem, com malícia, perguntasse “Que amizade é essa, hein?”, para ouvir como resposta o silêncio seco. Olhares julgadores de familiares e vizinhos, entretanto, não nos impediram de ligarmo-nos em uma singela e duradoura ligação afetiva.

Os anos passaram-se e dividimos angústias e alegrias por motivos diversos. Foram os namoricos fortuitos e sem futuro, as falsas amizades, as verdadeiras também, as relações com colegas de trabalho… entre tantos assuntos que preenchiam as horas de conversa já não só na calçada da sua casa.

Alguns eventos marcaram datas intensamente. Em consequência, fortaleceram a relação através do apoio emocional que nos exigiram de um para o outro.

Foi assim quando a sua mãe adoeceu pela última vez. Tudo ocorreu de súbito: de um simples ferimento que desencadeou um caminho sem volta até o trágico momento em que a autoridade médica apareceu a dizer “Não teve mais jeito.” Daí, em meio a todo o luto, os procedimentos necessários ao sepultamento: do translado do corpo até o enterro na pequena cidade do interior, a cidade natal da mãe falecida.

Acompanhei-o sempre que pude. Vaivéns entre a casa, o trabalho e o hospital onde estavam. Às vezes, quando não podia ausentar-me do trabalho, lá estava ao seu lado, através da sintonia telepática ou com o auxílio da tecnologia.

Houve momentos que causaram tensões devido a divergências de opinião e de tomada de decisão. Mesmo assim, tivemos o discernimento de deixar a razão, digo, a amizade prevalecer.

Foi assim quando me confessou que uma parte dos seus ganhos era destinada à manutenção de vícios e privilégios do pai e do irmão. O primeiro ameaçava-o: se não desse dinheiro, vendia a casa. E, como o imóvel era a coisa mais importante deixada pela mãe, o meu amigo esforçava-se para protegê-la e, por isto, cedia às chantagens paternas. O segundo casou-se num momento da vida, teve uma filha, separou-se e, conforme orientação da Justiça, passou a pagar uma pensão à mãe da criança. No entanto, atrasava o pagamento dessa obrigação paterna e, sob o risco de ser preso, induzia o irmão, o meu amigo, à assunção daquele compromisso.

Eu protestava sem sucesso. Não é justo que você trabalhe para manter vícios alheios. Quem quer beber e farrear por aí que ponha a mão no bolso. Quem fez o filho que o alimente. Um absurdo, a meu ver, pois tanto o pai quanto o irmão saíam por aí, bebendo, comendo, gozando… E ele trabalhando, trabalhando, trabalhando, para ser desrespeitado dentro da própria casa. Somente depois do seu falecimento, eu soube que o seu pai o expulsou de casa, por não aceitar a sua sexualidade. É assim: há quem despreze o filho, mas não largue o osso, digo, o dinheiro do filho. O seu pai era assim.

“Não ceda às chantagens”, disse-lhe. Como professores, dedicávamos a maior parte do dia à sala de aula, por vezes três expedientes distribuídos em diferentes escolas, para ganhar um pouco mais ao fim do mês. “No fim, você morre e eles ficam aí”, acrescentei umas tantas vezes. E, infelizmente, foi o que sucedeu em Janeiro de 2013.

Estava eu no Gana, a trabalho. Nós não nos comunicávamos com a mesma frequência. Não raramente telefonei aos meus pais e fui indagado sobre o meu amigo. Preocupados, diziam-me: “Estão comentando que está muito doente. Você tem falado com ele? Está sabendo de alguma coisa?” As tentativas de contato acumularam-se, resultando num hiato quase eterno. Entretanto, eu já sabia que ele padecia das consequências de alojar um vírus tão nocivo em seu organismo, bem como sofria por negar a si o tratamento.

Meados de 2012, estive de férias no Brasil. Percebi os seus estrondos pulmonares, desconfortos intestinais, redução de peso repentina… Indaguei-lhe sobre as causas daqueles sintomas. Desconversou e, ante à minha insistência para verificar a presença do vírus no seu organismo, recusou-se a falar sobre o assunto.

Retornei ao trabalho e, como mencionei, quando estava no Gana, havia uma lacuna na comunicação. Porém, num certo dia, atendi a um recado que a minha irmã me transmitiu: uma mulher queria falar-me e o motivo da conversa seria a vida do meu amigo. Era uma amiga dele. Durante as férias, havíamo-nos encontrado numa churrascaria no centro da cidade. Fomos apresentados um ao outro. Depois daí, revimo-nos em contato de novo, quando o nosso amigo se debilitava devido à sua saúde a cada dia mais frágil. Ela contou-me todo o esforço que fez para convencê-lo ao tratamento. Quando conseguiu que ele fosse ao hospital, a situação era mais que grave: internamento imediato, a reação ao coquetel de medicamentos, a suspensão de contato com o seu mundo. Segundo ela, ele pediu que conversasse comigo. Gostaria de que eu fosse informado sobre o que acontecia. Do outro lado do oceano, amargurei-me pela minha ausência quando ele muito precisava de ajuda, apoio e cuidados.

O silêncio entre nós foi interrompido num dia de Dezembro, quando escutamos um ao outro pela última vez. Por sorte, alcancei-o no intervalo dos efeitos colaterais dos medicamentos. A voz falhava, mas dizíamos que era problema de conexão telefônica. Ficamos certos de que ele se trataria e, quando eu regressasse ao Brasil, estaríamos juntos. Prometi: dar-lhe-ia o suporte necessário para enfrentar a doença e a sociedade. Ele riu e chamou-me de “doido” por fazer tais promessas. Rimos juntos. Sofremos juntos. Alegramo-nos em alguma medida. A sua voz falhou mais uma vez, a chamada foi interrompida subitamente, retornei a ligação… nada… mais uma tentativa… nada… Preocupei-me. Contudo, encerramos o diálogo com a esperança de que nos veríamos de novo.

A ida ao Brasil ocorreu no ano seguinte. Porém, a esperança do reencontro não logrou. O seu estado de saúde agravou-se ainda mais. Apontava-se a grande alteração que o seu corpo sofrera em tão pouco tempo. No entanto, talvez por incerteza, talvez por preconceito, ninguém nomeava a enfermidade. Aproximadamente um mês após a nossa conversa, recebo a má notícia. Noites mal dormidas precederam aquele fatídico dia. Pressentia a iminência daquela terça-feira, 22 de Janeiro de 2013.

Goto, queimor, azia… não sei qual termo melhor descreveria a sensação. A reação a uma situação desconfortável gera sintomas. No meu caso, estes localizavam-se na garganta, no estômago, na região lombar, nos ombros… no corpo todo.

Avistei o homem velho sentado sob a varanda da casa da esquina a dois quarterões da casa dos meus pais. Enxerguei-o de longe.

Cumprimentei-lhe a mão estendida. Soube que o filho mais novo, — hoje, o único vivo —, reside em Fortaleza, com uma mulher. Inferi, então, que passou a pagar a pensão da própria filha; do contrário, tinha sido preso por não a pagar. Será que está fugitivo? Se fosse este o caso, o pai demonstraria aflição, mas mostrou-se tranquilo com a mudança de residência do filho, alegando que, vez ou outra, ia visitá-lo. O senhor, por sua vez, pareceu-me bem disposto. Por pouco, não passa por turista, mas não há turismo por essas bandas periféricas da cidade.

O homem velho sentado sob a varanda da esquina a dois quarteirões da casa dos meus pais fez nenhuma menção ao dia de hoje, 4 de Outubro. A data marca o nascimento do seu filho mais velho e, coincidentemente, do meu melhor amigo, — hoje, morto por um vírus assassino e pelo preconceito do próprio pai.