O Vento

O vento
jogando-se,
espalhando-se,
perfumando-se
como folhas outonais,
como aromas primaveris,
como embriaguezes pluviais,
como uma mão fálica e aveludada e invasiva e perseverante
de movimentos incessantes e progressivos e voltívolos,
cadenciados e até… furtivos.

O vento vem-se em mim,
por dentro, afagando-me,
ao todo, usurpando-me,
por fim, fecundando-me.

O vento tem-me no fundo
alojado 
sementes
a germinar.

Sábado

Sábado, ele foi à praia e encontrou-se. O sol, o mar, a areia, a brisa, o seu corpo e a sua alma, o espaço livre, aberto e infinito. Ele pouco se recordava de tais sensações. Esteve ali, atado a si mesmo.

“Homem na praia”, by Cássio Serafim, Portugal, 2015.

Tudo ele adiou: as leituras; a revisão dos capítulos da tese; a busca de editais; os e-mails pessoais… o planejamento do futuro. Há tanto tempo, ele desconhecia isto: ser a prioridade dos seus compromissos.

Sábado, ele agendou o presente sem arrependimentos. Poderia, contudo, ter sido outro dia.

Tecendo nós dois

Com cara de bobo,
olho a tela do computador,
esperando as suas palavras,
como se lhe admirasse
o rosto meigo bem próximo a mim,
como se lhe olhasse a boca
na expectativa de respirar
cada palavra proferida por você.

E você
só pronuncia amor e sentimentos nobres,
emudecendo os meus lábios falantes,
paralisando as minhas mãos inquietas,
compassando o meu coração disparado.

E as palavras
atravessando a tela,
entrando em mim,
tecendo nós dois.