Cês, cês-cedilha e esses no Clandestino

«Sopa de tomate, raviólis grelhados e com recheio de carne, arroz chao-chao, sopa ácida e picante, arroz branco, chop suey de gambas, raviólis com recheio de vegetais…»

«E a quantidade?»

«Um de cada, depois pedimos mais.»

A empregada de mesa deixou-nos papel e caneta. Fomos céleres em escutar o bucho de cada um. Parecia até uma conferência de panças.

«Ah, mas é melhor pedir logo dois raviólis de cada tipo.»

«Tens razão.»

«Então, vamos lá…»

Dentro de poucos minutos, buscávamos a empregada de mesa, com os pedidos devidamente anotados. Vimo-la e acenamos. Ela, tão ocupada com uma mesa repleta de gente, ignorou-nos sem cerimônia. Na segunda tentativa, sem intervalo entre esta e a primeira, nenhum sinal por tímido que fosse. A fome daquela turma deveria estar mais comprida do que a nossa. Na terceira, um de nós pôs-se de braço erguido, a balançar o papelinho num ato de desespero, como se esse fosse uma bandeira improvisada por indivíduos ilhados, a pedir socorro.

Lá estávamos no Clandestino, como é conhecido talvez o mais famoso restaurante chinês de Lisboa. É importante salientar que é um restaurante popular ou, melhor, um popular restaurante popular ou, ainda melhor, um restaurante que é chinês e popular e bastante frequentado e muito barato e, por ser barato, bastante conhecido e frequentado e popular. É lógico que a comida é gostosa, tem de ser gostosa para cativar os clientes. E o é! Não sei se me faço compreender ou se apenas encho o texto de palha, como dizem em Portugal (ou, como dizem no Brasil, encher linguiça.).

Dizem que existem muitos clandestinos pela cidade, mas refiro-me mesmo àquele Clandestino, com cê maiúsculo, que de clandestino nada tem e que parece ser frequentado por todos e todas que passam pelo Largo da Severa, na Mouraria. Não raramente, forma-se fila ao longo da escada. Quando o dia está tranquilo, um arranja logo uma mesa ou, no máximo, espera uns minutinhos, quando a fila é mínima e concentrada na entrada do estabelecimento, localizado no segundo piso de um edifício pequeno e descerimonioso daquela zona. Nesse dia, a sorte estava do nosso lado.

A empregada de mesa retornou para recolher o papelito com o nosso pedido de socorro, leu-os para si e, logo em seguida, repetiu-os em voz alta para confirmá-los conosco:

«Para bébé?»

«Hã?»

«To drink? Vinho? Wine?»

«Vinho com picante combina?», não nos tínhamos decidido. De facto, não nos tínhamos atentado para bebidas, quando a fome agudizava.

«To drink?», a empregada de mesa interrogou-nos de novo, com certa impaciência, pois outros estômagos gritavam a sua fome e um grupo de pessoas serpenteava-se à porta.

«Prefiro a cerveja ao vinho agora.»

«Cerveça? Beer?»

«Uma, duas… alguém mais?»

«Ok, três cerveça.»

«Isto, três cervejas.»

«Super Bock?»

«Para mim, uma chinesa.»

«Cineça?»

«Sim, por favor.»

«Super Bock.»

«Quero uma chinesa também.»

«E uma água, para mim.»

«All?»

«Yes.»

«Ops, a Chinese beer, please.»

A empregada de mesa olhou-nos com um «hã?», mas logo percebeu que o pedido vinha de outra mesa. As vozes cruzadas não se deviam ao nível da nossa fome. Ali, a concorrência é notada não somente pela espera, mas também pelo comportamento dos frequentadores, que falam, gargalham, brindam, fazem os seus pedidos… todos e tudo simultaneamente.

«Tô morrendo de fome.»

«Também, mas, enfim, após algum tempo de espera, ansiedade e sofrimento, eita, lá vêm, lá vêm, lá vêm…»

«Agora, sim.»

«Até que enfim! Tô morta.»

«E eu?»

«Quase sepultado.»

«Oh, walking-dead-people, chegou, mas, ei, e as cervejas?»

«Please, we ordered some beers and water.»

«One minute, ok?»

«Ok. Thanks.»

«Passa-me os raviólis, por favor.»

«Me dê esse prato aí, por favor.»

«Passa-mo, antes que eu morra.»

«Toma-o, exagerada.»

«Pegue aí, ó.»

«É sério, estou faminta.»

Empanturrávamos por quase uma hora. Entre os vaivéns de pratos, papeávamos amenidades sem nos dar por saciados.

«Raviólis fritos.»

«Sim, sim, mais um prato.»

«Ah, mais duas cervejas.»

Enquanto os novos pedidos nos eram providenciados, as amenidades e as cervejas abrandavam-nos o ardor do picante. Eu tão entretido estava, que raramente sabia quem falava. Apenas escutava as vozes, tentava sintonizar o paladar e a audição, porém não era tarefa fácil. Mas recordo-me da palavra «s-e-C-ç-ã-o» proferida com certa ênfase no cê antes do cê-cedilha. Era uma voz feminina com sotaque português, que foi seguida por uma voz masculina com sotaque brasileiro a continuar a sua narrativa, sem sentir-se inibido pela entonação afetada da amiga. Ele, então, pronunciou «seção» de novo. A correção foi-lhe direcionada mais uma vez. Dessa vez, ele demonstrou o seu descontentamento com o comportamento da amiga:

«Ai, tá bom, né?! Vamos deixar a “secção” que também pode ser “seção” e vamos alegrar a nossa “sessão”, mas agora “s-e-s-s-ã-o” [soletrou compassadamente letra a letra], embora não sejamos um corpo deliberativo, mas vamos lá. Não nos desentendamos pela pronunciação ou pelo emudecimento de uma consoante, certo?»

«Cessão.»

«Como?», o meu amigo que falava tornou a cabeça e perguntou na direção da voz.

«Esqueceste a “cessão” com cê e dois esses. Só te queria dizer que concordo contigo, amigo. São tantos sons e tantas letras, que mais me importa falar e comunicar», o rapaz com sotaque angolano também entendia da língua. Achei que iríamos juntar as mesas, mas não foi para tanto.

Eu estava meio tonto e, no intervalo da conferência linguística, não esperei muito para buscar a empregada de mesa. Vi-a e aguardei que ela olhasse em minha direção. Fê-lo. Ergui a garrafa vazia e, com uma voz arrastada, implorei-lhe: «One more beer, please.» Escutei uma voz com sotaque cabo-verdiano: «Duas, por favor.»

Virei-me para o amigo para confirmar se era uma para ele e uma para mim, mas não: era um rapaz da mesa vizinha. Ali é sempre assim. A audição, o olfato e outros sentidos imiscuem-se. Confundimos todos, assim como as necessidades dos clientes.

«Quere algo más?»

«Por enquanto, não, mas é só por enquanto», rimos todos com a interação entre o grupo da mesa vizinha e a empregada de mesa.

Facilmente, percebe-se a confluência de sons, movimentos, cheiros (até de cigarro, pois, infelizmente, há quem fume lá dentro.), línguas, culturas, nacionalidades… São mundos que se encontram; às vezes, abalroam-se, mas só às vezes.

Era noite de uma sexta-feira ordinária, mas que se fazia especial, pois encontrávamos amigos para celebrar nada além da vida. E tudo ia tão bem até os cês, cês-cedilha e esses pousarem na sopa. Comecei logo a sentir a pimenta. Ardia a língua. Balbuciei para a funcionária da casa: «outa cerv…»

«Quere outra cerveça?», ela indagou-me. «Portugueça ó cineça?»

Agora foi o amigo cabo-verdiano que confirmou: «cineça, sim, cineça, melhor», sob uma chuva de regozijos.

Se estivéssemos ali a escrever, certamente não registaríamos (nem registraríamos) “ssinessa”, “cinessa” ou “xineça”. É que queríamos mesmo era a cerveja. Aperreava-me pensar em fazer transcrições ortoépicas ou fonéticas naquele momento, aquando as papilas gustativas estavam a dilatar.

É melhor (não) esquecer!

Mal pus os pés à rua e logo me apercebi de que, às pressas, saí do supermercado, sem conferir o troco que a caixa me dera. De pronto, veio à mente a imagem da nota de cinco euros e algumas moedas na palma da minha mão, a qual prontamente se fechou e levou a quantia ao bolso do casaco.

Entregara-lhe uma nota de dez para tirar o valor referente a cinco pães d’água e uma manteiga da marca mais barata. A compra custar-me-ia dois euros e menos de trinta cêntimos, restando-me sete euros e setenta e poucos cêntimos.

A imagem do troco na palma da minha mão estendida. A imagem da minha mão fechada a invadir a escuridão do bolso e ali confiar a quantidade de dinheiro que eu tinha.

Abri a algibeira, peguei todo o dinheiro, contei-o e… menos de sete euros, por volta dos cinco euros e alguns cêntimos. Ai, que raiva senti de mim mesmo.

Dois euros. Perdi dois euros. Já não dava para retornar ao supermercado e reclamar o meu direito. Como provaria que eu não tinha má intenção? Como provaria que a caixa se enganara com a conta, e não eu? Ao pôr os pés fora do estabelecimento, perdi a razão de reclamar os dois euros. Dois euros. Que merda. Que raiva. Dois euros. Perdi-os.

“É melhor esquecer e estar atento da próxima vez em diante”, pensei. Fui para casa, com os meus pãezinhos d’água e a manteiga. Com aqueles dois euros, teria comprado até queijo. “É melhor esquecer,” pensei, “pois outros virão.”

Dias depois, regressei ao mesmo supermercado. Fui direto à secção de pães. Quatro pães d’água.

No caixa, coincidentemente, a mesma funcionária do outro dia. Desta vez, eu tinha moedas e daria o valor contadinho, para evitar mal-entendidos. Quatro moedas de vinte cêntimos.

“Sessenta e quatro cêntimos”, ela informou o valor da compra.

Passei-lhe as quatro moedas que separara.

“Obrigado e até próxima”, ela disse-me ao entregar duas moedas miúdas: uma de cinco e outra de um cêntimo.

Mais cauteloso, percebi que me faltavam dez cêntimos. Com a palma da mão ainda aberta, mostrei-lhe:

“Faltam dez cêntimos”, disse-lhe. “Dei oitenta.”

“Hã?”, ela fez cara de desentendida, mas, para a minha surpresa, pegou uma moeda de dez cêntimos e entregou-ma junto com as seguintes palavras: “Só vi setenta.”

Sem mais, agradeci e senti-me aliviado, mas, ao mesmo tempo, assarapantado. Uau. Por pouco, não perco dez cêntimos, assim como ocorreu com os dois euros noutro dia. Uau. Aprendi a lição, tenho de ser atencioso nesses momentos, mesmo que a fila esteja gigantesca e que pessoas apressadas e impacientes se chateiem por esperar um pouco mais. Uau. Epa. Como assim? Se só viu setenta, como me deu os dez cêntimos faltantes, sem nem conferir a nota da compra, nem contestar? Será que o supermercado não confere o registro do caixa ao fim do dia? Epa, de novo. Eu, de novo? Será que tenho cara de rico, a quem não faz falta unzinho aqui, outro acolá? Ou será que tenho cara de parvo, a quem vale tirar uns níqueis a cada ida ao supermercado?

“É melhor esquecer,” saí à rua, a falar comigo mesmo, ainda confuso, “mas… uau, dois, dez… fogo.” Outros andantes olhavam-me estranhamente. “É melhor não esquecer. É melhor não esquecer, pra não acabar a pão e laranja”, sem lhes dar a mínima, segui com o meu solilóquio, a cada passo em direção à casa.

Um cabelo no meio da salada

No meio da salada tinha um cabelo. Havia um fio de cabelo na salada vegetariana. Um fio de cabelo castanho-escuro entre os vegetais. Havia cerca de 30cm de cabelo no meio da alface, do tomate, da cebola e da cenoura ralada. Nunca me esquecerei daquele fio de cabelo na minha salada, nem mesmo do que eu estaria por presenciar naquela tarde de terça-feira.

Lisboa, perto das 14h do dia 14 de fevereiro de 2017, eu e Murilo ainda não tínhamos almoçado, não tínhamos cozinhado nada em casa e já estávamos atrasados para o trabalho. Então, saímos de casa e caminhamos até um restaurante nos arredores da Fundação Gulbenkian.

Chegamos ao restaurante. Comida vegetariana, saudável, fresquinha e feita na hora, bom atendimento, boa localização, tudo por um bom preço. Não havia muito a matutar onde e o quê comer. Já conhecíamos o espaço. Lá estávamos.

A garçonete indicou-nos uma mesa e deu-nos uns minutos. Acomodamo-nos e verificamos o cardápio. Ela voltou e anotou os pedidos. Para mim: um rolo belga. Para Murilo: seitan com molho de tomate. Para beber: nada. Das vezes que lá vamos, costumamos não pedir nada para beber, mas eles insistem em trazer-nos um copo com água e uma rodela de limão, o que me faz lembrar um amigo da adolescência que falava que eu tinha cara de limão. Nunca compreendi por que ele dizia aquilo e ria logo em seguida.

Enquanto preparavam os pratos, Murilo lia uma notícia no celular, e eu assistia à TV, mas a fome, as horas e o trabalho a fazer ocupavam-me a mente. Tentava distrair-me a ver o programa televisivo, mas esse era bem desinteressante. E aí, para piorar, o aroma da comida a ser preparada atiçava-me o apetite e fazia-me o estômago roncar mais alto.

Ao nosso lado, havia uma mesa ocupada por um homem e uma mulher. Os seus pratos pareceram-me deliciosos, vi-os de relance e desviei rapidamente o olhar. Não é interessante e educado cobiçar a comida do próximo.

Nada parecia ajudar o meu cérebro a abduzir-me das preocupações, inclusive da necessidade premente de encher o bucho. De súbito, as vozes do suposto casal da mesa ao lado capturaram a minha escuta.

Os vizinhos desalinhavam-se, e eu passei a coser pistas para esboçar quem eles eram de facto. Bem vestidos, distintos, lustrosos, sem rugas ou quaisquer outras marcas do tempo, com um sotaque que me era familiar. A mulher, o homem, Murilo e eu, brasileiros, mas seguramente de procedências geográficas e socioculturais diferentes. Nada além da nacionalidade seria elemento de identificação entre nós, quiçá favorável à mínima empatia.

Enfim, os pratos. Atacamo-los. Uma, duas garfadas… Murilo verbalizou a sua satisfação com o seitan. Eu devo ter franzido a testa ou qualquer coisa do tipo, pois ele perguntou-me se havia algo errado. Deitei o garfo ao lado do prato, levei a mão direita à comida, juntei as pontas do polegar e do indicador e tirei do meio da salada um longo fio de cabelo castanho-escuro. Seria receita nova? Para mim, o cabelo era um ingrediente bastante inusitado. Um longo fio de cabelo castanho-escuro. Cerca de 30cm de filamento capilar.

Encostei tudo, chamei a garçonete e, com discrição, mostrei-lhe o cabelo. Ela, pronta e educadamente, pediu-me desculpas pelo incidente, pegou o prato e levou-o, mas, antes, disse que me traria um novo.

Olhei para Murilo e sussurrei: “Será que perceberam?”. Referi-me aos outros clientes presentes no local. Ele achou que não. Eu, sinceramente, não queria desestabilizar o almoço de ninguém. Tudo não passara de um desagradável incidente, o qual não abalaria a nossa confiança nos serviços do local.

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Entretanto, eu sabia, Murilo sabia, a garçonete sabia e talvez alguém mais soubesse: tinha um longo cabelo no meio da salada. E eu nunca me esqueceria daquela salada na vida das minhas papilas gustativas. Disso eu conscientizar-me-ia ao escrever este texto. 

Observei, portanto, discretamente os vizinhos e assegurei-me de que eles não perceberam nada. Bocas vorazes, por vezes, ofuscam a visão.

Eram do Sudeste do Brasil, com experiência profissional em São Paulo, a capital, e talvez fossem naturais de lá mesmo. Entre garfadas e mastigações, saíam-lhes expressões que denotavam ganância, ambição, negócios, dinheiro, lucros… Falavam de passaportes, duplas nacionalidades, aquisições, clientes que lhes rendiam números positivos nos seus extratos bancários. Puxa-aqui-e-acolá-tira-daqui-bota-acolá-estica-injeta-costura… no final, novinha-em-folha. Eram médicos, cirurgiões plásticos. A mulher assegurava que ofereciam muito mais e melhor do que o mercado local. O homem citava nomes de clientes cujas mamas, barriga e outras partes do corpo ele jurava ter magistralmente tocado e retocado. Parecia faltar pouco para inaugurarem uma clínica em Lisboa.

Escutei a voz ao meu lado. Era a garçonete, que me trazia a comida. Eu, entretido com os vizinhos fazedores de novos corpos e possuidores do segredo do rejusvenescimento, havia-me esquecido do rolo belga, da salada e, em alguma medida, das horas. Mas, aí, o cheirinho, a imagem… o apetite voltou.

Ocorreu-me de verificar o relógio. Os ponteiros trabalhavam obstinadamente. Apressei-me a serrar o rolo, juntar um pouco daqui, um pouco dali, levar o conteúdo à boca e engoli-lo (sim, engolir tudo mesmo, pois não havia tempo para mastigar!).

Os vizinhos surpreendiam-me cada vez mais com a sua avidez. Terminaram os seus pratos e pediram sobremesas. Duas sobremesas. Recordo-me de que uma delas era uma robusta fatia de napoleão, uma tentadora receita de origem ucraniana.

Era muita comida para ingerir. Mesmo assim, a conversa deles permanecia intensa. Transitaram da clínica para a casa da mulher. Ela queixava-se da filha, a qual morava com ela e hospedara um amigo por alguns dias. “Ai, só falava de política”, ela disse ao outro cirurgião, que, de pronto, elogiou o pedaço de napoleão. Ela insistiu em falar do amigo da filha: “Só falava de política. Que cara chato!”. O homem manteve o silêncio, quando a palavra “política” foi mais uma vez mencionada. A mulher encerrou o assunto, registrando o quão alegre ficou com a partida do hóspede. Observei que os dois evitaram o tema “política” a todo o custo. Fosse através do amigo da filha, fosse através dos relatos da própria mulher, “política” parecia causar-lhes algum mal-estar, talvez indigestão.

Levei a última porção de alimento à boca. Não demorou para a garçonete vir levantar o prato e, com um sorriso, perguntar: “Napoleão?”. Gostávamos daquela sobremesa, e ela sabia-o.

“Não”. Olhamo-nos um ao outro e pressentimos uma longa digestão pela frente. Afinal de contas, havia ou não havia um longo fio de cabelo castanho-escuro e uns não-sei-quantos mililitros de botox e silicone no meio do nosso almoço? Acho até que isso tudo tenha sido só o aperitivo. E a política? Bem, essa, se não foi o prato principal, de certeza que foi o ingrediente onipresente.

“Café?”, a garçonete ainda insistiu, mas pedimos a conta.

Livros em tempos de Facebook

No domingo passado, eu passava pela Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII. Caminhava entre as tendas das editoras, o olho corria rápido entre um e outro mostruário, umas capas prendem a minha atenção, aproximei-me e apanhei um livro de capa dura, bonito, papel fotográfico. Era uma reedição de um grande escritor português. Fetiche de bibliófilo. Prazer.

Tomei o livro entre as minhas mãos, admirei-o, senti-o. Comentei que me alegrava imensamente o facto de terem publicado o tal autor e a tal obra, que bem mereciam edição tão bem cuidada. Abri o livro. Decepção.

_ Mas o que é isto?, falei ao @RGMurilo, que estava comigo na hora.
_ O que foi? Não gostou do livro?, Murilo perguntou.
_ Da capa, mas não se compra um livro só pela capa, né?!
_ Olhe, é um título famoso. E a edição parece especial, como você já observou.
_ Sim, mas veja o recheio. _ eu disse isto, já abrindo o livro, folheando a ponto de ele perceber a “furada em que um leitor se meteria”.
_ Uau.
_ Uau mesmo! Como se pode gastar tanto papel, um papel especial, capa dura com excelente ilustração, para isto?
_ Provavelmente para facilitar a vida de leitor de Facebook! _ arrematou Murilo. _ Um livro com citações de trechos da obra original ajuda aqueles que necessitam de frases célebres para os perfis de Facebook e Twitter.

O diálogo aqui apresentado intentei transcrevê-lo o mais próximo possível do que aconteceu, embora não o tenha logrado; eu sei disto. Entretanto, achei bem inteligente a ideia do Murilo: livros em tempos de Facebook, a fim de tornar fácil a vida de quem precisa de poucos caracteres para alimentar a timeline.

Imagine, então, que um escritor já não pense em escrever um livro de contos, um romance ou de quaisquer outros géneros literários, mas, sim, um livro de frases para Facebook. Pode até embonecá-lo com diferentes emoticons. Afinal, o mercado editorial está a ajustar-se aos novos canais de leitura, escrita e interacção.

😛 ❤ 😀 ❤ 😉

Voo interrompido

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“A face da morte”, by Cássio Serafim, Portugal, 2016.

Era uma sexta-feira chuvosa no fim do mês de Janeiro. Eduardo estava em casa a trabalhar num projecto, até que decidiu sair e buscar um lugar para comer. Ele tem pouco mais de trinta anos e é um tipo calmo, dedicado ao seu trabalho, reservado, mas também sensibilizado com os problemas dos seus semelhantes. Ele vem de uma família humilde e, desde pequeno, foi ensinado que devia agarrar com unhas e dentes cada oportunidade que a vida lhe oferecia para ser uma pessoa melhor. Diante das dificuldades que os seus pais enfrentaram para educar cada um dos seus filhos, não era surpreendente que Eduardo se tivesse tornado num tipo que planeava cuidadosamente cada passo para transformar sonhos em objectivos… em realidade. Ele lutava pelo direito de ter direitos. Não se rendia a devaneios. Era um homem prático.

A busca por uma tasca para fazer uma refeição era somente uma desculpa para sair um pouco e tentar desanuviar. Como tem ocorrido com frequência, dentro ou fora de casa, ele martelava questões sobre o seu futuro, sobre o próximo passo logo após o término do actual contracto de trabalho, sobre o fim da sua estada em Lisboa. Por inúmeras horas, ele martirizava-se pelos falhanços cometidos no cumprimento de prazos e por sua insatisfação quanto aos resultados obtidos. Apesar de prático e realista, custava-lhe aceitar que não mantinha total controle sobre a própria vida. Ninguém o tem.

Ele saiu. Precisava de relaxar um pouco. Era difícil, mas que, ao menos, tentasse… Ponderava a respeito da sua vida, caminhava devagar, demonstrava um pouco de ansiedade. Como eu te disse, custava-lhe aceitar que não tivesse total domínio sobre a sua vida, apesar de ser um homem prático e cauteloso. Aparentemente, nada foge-lhe ao controle. É o que ele deseja.

Entrementes, sucedem-lhe acontecimentos como este que eu cá estou a ti contar. A tarde seguia nebulosa. A chuva dera tréguas, mas a neblina fina era constante. Eduardo andava sem pressa, sob o guarda-chuva azul. Ele passava por uma rua próxima a uma conhecida fundação cultural da capital portuguesa. Caminhava pela calçada em frente a um edifício provavelmente do tempo do fascismo. De súbito, baixou a vista e surpreendeu-se com um corpo desfalecido. Não tenhas dúvida: havia um corpo no meio do caminho.

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“Havia um corpo no meio do caminho”, by Cássio Serafim, Portugal, 2016.

Eduardo fechou o seu guarda-chuva, encostou-o no muro do edifício, agachou-se e curvou-se o quanto pode na direcção do cadáver. Ficou muito próximo. Já não respirava. Era apenas um corpo morto no meio da calçada. Era jovem e já nada significava para quem quer que fosse. Pedestres passavam, e a apatia era visível no ritmo dos seus passos.

Olhou-o nos olhos. Imaginou ver-se reflectido na pupila do outro. Isto causou-lhe uma estranheza. O que sentia era mais do que uma simples vertigem. Quanta vida ficou por viver? Ou quanta vida deixou de viver? Eduardo perguntava a si.

Estava morto numa via pública, nas proximidades de uma famosa arena de touradas e de um grande espaço de exposições de Lisboa. Isso parecia controverso ou, no mínimo, intrigante. O quão espectacular seria o fim de um mortal ordinário se comparada com os eventos em que ceifam vidas na arena dos touros? O quão espectacular seria o desaparecimento de um mortal ordinário se comparada às caras exposições de arte cujo motivo pode ser a morte e a vida alheias? Poder-se-ia indagar isso e muito mais, mas Eduardo não estava para tanta filosofia. E, caso estivesse, seria provável não chegar a nenhures, ao menos não naquela ocasião.

Eduardo topou com um cadáver abandonado ali na passagem dos pedestres. É provável que tenha sido vitimado pela inveja de seres mal intencionados. Eduardo conjecturava sobre as possíveis causas daquele falecimento.

Era um pássaro jovem que, ainda há pouco, tinha pulado do galho, ensaiando a sua independência e inaugurando a sua primeira aventura na vida, o primeiro voo. Ensaiou percorrer um trajecto aéreo incomensurável. Almejava a liberdade.

No entanto, mal aprendeu a sonhar, mal começou a voar, caiu abatido no meio do caminho. Em pleno voo, foi perseguido e atacado de diferentes maneiras. Esforçou-se por atravessar incólume aquela batalha, mas foram bicadas incontáveis… em várias partes do corpo. As asas foram golpeadas, estavam aleijadas e para nada serviam. O voo foi suspenso precocemente.

Afinal, o que é a morte se não um voo interrompido? Eduardo apanhou o guarda-chuva e preparava para regressar à casa. Sem ter nada a fazer para reanimar o pássaro morto, ele permaneceu no local, a admirar a morte e a reflectir sobre a sua própria vida por alguns minutos.

Aquele corpo poderia ser o seu. Todo o caminho percorrido naquele dia nebuloso levou Eduardo a encontrar a si próprio. O pássaro já não respirava. Porém, nem sempre a interrupção de um voo implica o fim do percurso. Digamos que possa ser uma breve parada para reabastecer e logo seguir adiante.

E a fome de Eduardo? Ah, como eu te disse antes, aquilo lá era apenas um pretexto para sair de casa e desanuviar. Se ele relaxou um pouco? Sinceramente, eu não acredito que o tenha.

 

“Quem pode parar a dor?”

“Quem pode parar a dor?” foi uma resposta incisiva dada pela escritora porto-riquenha Yolanda Arroyo Pizarro a uma pessoa que estava na plateia. Era uma mesa-redonda num congresso de escritoras africanas em Acra, Gana, em maio de 2013. Após a explanação de cada escritora que compunha a mesa, uma jovem ganesa – também escritora – solicitou a palavra, questionou por que mulheres escritoras africanas e da diáspora narravam histórias de sofrimento e dor e, por fim, recebeu aquela resposta de Pizarro.

A intervenção de ambas as escritoras gerou muitos posicionamentos por parte de outras participantes. Em um momento, o debate parecia encaminhar-se para corroborar a constante presença da dor nas narrativas de escritoras africanas e a urgência de expressá-la.

No entanto, apesar de sermos conscientes da capacidade de a literatura expressar muitos sentimentos para além da dor, quando Pizarro lançou aquela questão, referia-se às dores causadas durante anos, décadas, séculos de infortúnios impostos ao continente africano por parte de empresas colonizadoras europeias, mas não apenas. A escritora porto-riquenha aludia especialmente aos sofrimentos infligidos às mulheres, especialmente negras, por meio de vários sistemas de dominação.

Depois de um intenso debate, Pizarro retomou a palavra e acrescentou à sua resposta inicial a célebre frase da escritora Audre Lorde: “O silêncio não te protege”. Se as dores existem em decorrência de acontecimentos passados sobre o indivíduo ou uma coletividade, a recordação e a expressão das feridas psíquicas abertas podem ser os primeiros e talvez mais importantes meios de começar o processo de cura.

Logo, se sabemos que o silêncio não nos protege, somente nós podemos parar ou mitigar as nossas dores. Se a escrita oferece um momento de intervenção e a possibilidade de construir alianças de solidariedade, como diz Yvonne Vera, em seu prefácio à coletânea Opening Spaces: Contemporary African Women’s Writing, a literatura, portanto, pode tornar-se num remédio e numa arma para resistir, transformar, libertar(-se) das dores do passado e evitar um futuro flagelado por injustiças históricas.

Notas:
1. Para conhecer o trabalho literário de Yolanda Arroyo Pizarro, visite o seguinte endereço: «http://narrativadeyolanda.blogspot.pt/».
2. O congresso de mulheres escritoras africanas e da diáspora a que me refiro é o Yari Yari NTOASO: Continuing the Dialogue, que aconteceu em Acra, Gana, de 16 a 19 de maio de 2013.
3. Vera, Yvonne (Ed.). Opening Spaces: Contemporary African Women’s Writing. Harare, Zimbabwe: Baobab Books, 1999.

Eu só queria pão

Bastou-me pôr os pés na calçada da padaria. Um indivíduo desconhecido interrompeu-me as passadas, pondo-se à minha frente. Surpreendido, parei para evitar o esbarro. Era um rapaz que me oferecia um panfleto com dizeres religiosos. “Não, obrigado”, recusei o panfleto e, enquanto eu tentava desviar dele e seguir para os meus pães, ele, insistente, manteve o braço estendido à minha frente, com o papelinho, e pronunciou qualquer coisa que eu não compreendi propriamente.

A gente fica velha e tem a sua audição comprometida. Eu estou nesta fase. Então, solicitei-lhe que repetisse o que havia dito. “É a palavra de Deus”,  ele proferiu confiante. E eu, sem vacilo, respondi-lhe: “Não, obrigado.” Estava um pouco apressado. Ia à padaria e, em seguida, retornaria à casa para tomar café, antes de dirigir-me ao trabalho.

A minha rejeição àquele panfleto não deveria significar desrespeito à fé alheia. No entanto, eu percebi que aquele jovem rapaz não aceitava nem sequer entendia que eu não quisesse receber o que ele me oferecia de graça e com um sorriso na cara. Ele não apenas não captava a minha resposta, como também se sentia intimamente ultrajado. Não era esta a minha intenção. Eu só queria pão.

“A música corajosa de um tambor distante”

Há factos em nossas vidas que podem suscitar novas experiências, descortinar veredas e inaugurar novas trajetórias pessoais. Há livros que fazem o mesmo, encetam novas leituras, interpretações e relações entre o leitor e os livros que ainda entrarão em sua vida. Foi o que me aconteceu no Gana, país onde vivi durante quatro anos e onde me envolvi em múltiplos encontros com os seus devidos ensinamentos.

Foi em meados de 2013, quando uma amiga me emprestou o livro Brave Music of a Distant Drum, de Manu Herbstein (2012), escritor sul-africano, naturalizado ganense. Dona Adelita, para além de ser uma pessoa querida, culta e de companhia agradável, sempre se mostrou uma amiga e de conselhos certeiros. No dia em que me entregou o livro, parecia dizer-me: “Você precisa de conhecer Ama”. E eu precisava mesmo, confirmei-o depois.

Viajei pelas mais de duzentas páginas escritas por aquele homem que tão sensivelmente registrou a história de uma mulher negra, velha, cega, escrava, que, quando jovem, princípio do século XIX, foi arrancada do seu universo e posta nos porões de um navio para, em longa jornada, cruzar o Atlântico e finar-se num rincão em plagas brasileiras.

Na transcorrência das laudas, eu não conseguia ler as palavras de um homem, do escritor, e nem sempre eu notava com precisão a interação entre as personagens. Porém, com vitalidade, sentia a voz de uma mulher forte que se fazia ouvir mesmo quando outros tinham o turno da palavra. Ama mostrou-se-me objeto de carne e osso, propriedade de outrem: indivíduos como ela tiveram as suas existências vilipendiadas por agentes de opressão e dominação interna e externa à sua terra de origem. Não obstante, Ama revelou-se-me sujeito: ela construiu a história de uma mulher cujas maiores características eram a sua firmeza de espírito, perseverança, destemor… uma narrativa repleta de aprendizagens, ensinamentos, tristezas, alegrias, ódios, amores… e, sobretudo, coragem de contestar o que parecia ser destino.

E o destino poderia ter sido o silêncio ignóbil imposto pelas forças colonizadoras dos estrangeiros e pelas forças do patriarcalismo, tão intensas na terra de onde foi extirpada e naquela onde foi lançada. Ou poderia ter sido a cegueira; não à sua própria, mas refiro-me à cegueira hedionda, social e coletiva, de quem ─ por ímpetos colonialistas ─ se nega a perceber o brio daqueles que foram vitimados pela soberba dos imperialismos de diferentes procedências. No entanto, Ama reservou a si e a todo e qualquer leitor que se aventure por sua trajetória uma melhor sorte: a eternidade de uma voz, que, mesmo abatida pelas circunstâncias da morte, é capaz de entoar a música de um tambor distante, com ressonâncias em ouvidos alheios, ditando o ritmo do que possa vir a acontecer.

Esse ritmo confunde-se com a escrita da narrativa que apenas se fez possível pelas mãos de Zacarias, que viajou de Salvador até o engenho onde Ama se encontrava. A atenção reservada por aquele jovem àquela mulher velha, negra, cega, adoecida, resultou na prova maior dessas ressonâncias. Ela era a sua mãe, aquela que o nomeou Kwame Zumbi, nome inicialmente recusado por ele sob o argumento de que não era um nome cristão. Escutar e escrever a história daquela mulher provocou-lhe a descoberta da sua própria história. Enaltecido com a bravura da mãe, embevecido com a música que a sua voz manifestava, Zacarias enfrentou quem ele muito respeitava, a quem era tão grato pelos ensinamentos cristãos e quem, por fim, ele identificou como reais algozes do silenciamentos do tambor que existia em si. Após a morte da sua genitora, Zacarias regressou a Salvador, à casa do Senhor Gavin Williams e da Senhora Miranda Williams, os seus donos, tendo em mãos aquelas folhas preenchidas com a história que compreendia não somente a vida da sua mãe, mas de todo um povo e a sua própria. Lá, ele foi aviltado por seu Senhor Williams, que ficou completamente encolerizado, ao tomar conhecimento das revelações sucedidas quando do contato entre o seu jovem escravo e a sua velha escrava cega. Num ato de bravura digno de ser filho de quem era, Zacarias rechaçou o seu nome cristão e assumiu-se Kwame Zumbi, conforme o desejo de Ama e para o desespero do Senhor e da Senhora Williams.

No romance de Manu Herbstein, a escrita mostrou-se como estratégia e instrumento utilizados pela protagonista para resistir às forças que causaram o seu exílio além-mar e que subjugaram populações. Paralelamente, a escrita foi capaz de preencher os vazios da alma de Kwame e de impeli-lo a apropriar-se de pertencimentos culturais que lhe tinham sido omitidos. Uma vez consciente da história da sua mãe, Kwame retomou o processo de constituição de si sob uma nova perspectiva, em que a identidade é concebida menos como essência e mais como resultado de um processo representacional constante, incompleto e confuso. Quando em contato com a mãe e a sua história, Kwame não se via a partir dos mapas conceituais apresentados pelos donos. Ama forneceu-lhe outros sistemas representacionais, inseriu-o em outros campos semânticos, os quais remetiam a culturas vistas, sob a ótica branca e cristã, como bestiais, não divinas, pecadoras, incivilizadas. Ama, portanto, ofereceu a Kwame a chance de reler-se e reinscrever-se como sujeito de ancestralidade africana.

A história de Ama ecoa metáforas de cor, carne e alma que se materializam ainda hoje. Consequências do período de escravidão, tráfico humano e outras ações da empresa da colonização iniciada no século XVI permanecem estruturando certos sistemas socioculturais mesmo no período chamado pós-colonial, os dias atuais. Sofrimentos ainda são sentidos. Quem ou o que poderia parar a dor de Ama ou de tantas Amas que existiram? Seria o seu silêncio? Não. Como bem adverte o autor na introdução do romance, o silêncio em relação às atrocidades do período da escravidão não apaga aquele momento lutuoso, mas a produção discursiva em torno do mesmo poderá evitar que algo parecido suceda de novo. Nesse sentido, a literatura e, em especial, o livro de Manu Herbstein mostram-se a mim como um importante canal não só para se transmitir uma música corajosa mas também para promover uma ação transformadora.

Referência
HERBSTEIN, Manu. Brave Music of a Distant Drum. Markham: Red Deer Press, 2012.

Nota: este texto foi publicado pelo Portal Geledés no dia 23 de Dezembro de 2015. Disponível no seguinte endereço: «http://www.geledes.org.br/a-musica-corajosa-de-um-tambor-distante/».