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Há
nem alegrias
nem tristezas:
aquando
juízes trabucam como
atalaias e verdugos
à mercê dos imperialismos,
aparentemente caducos, mas,
a todo momento,
de sobreaviso para o bote.
(E sempre haverá a chance de mais um,
o próximo golpe.)
Há
nem alegrias
nem tristezas:
aquando
magistrados tramam
ódios contra
os pobres,
os oprimidos,
os subalternos e
os seus parcos representantes.
Há
nem alegrias
nem tristezas:
aquando
togados se convertem
nos mais vis
comissários da desordem.
Há
nem alegrias
nem tristezas:
aquando
os forenses pelejam
para encarcerar
a esperança.
Há
anojamento da Justiça.
Não sei se você conhece os seus vizinhos, mas eu estou a dar pela presença dos meus a cada dia, cada vez mais. Tento ser simpático, mas não para integrar-me à suposta comunidade ou para construir qualquer relação estreita. Sou simpático, acho eu, por ser simpático. A antipatia consome muita energia e gera energias negativas. Não faz bem a ninguém, suponho.
Se um dia algum vizinho precisar de ajuda, seguramente estarei disposto a ajudá-lo. Foi assim, quando vivi em Arroios. A senhora de 91 anos de idade, moradora da cave, estava caída nas escadas, com a cabeça a esvair-se em sangue, a suplicar a Deus que não lhe levasse, pois tinha muito a fazer nesta vida. Nesse dia, prontamente tentei assistir a neta que chegara um ou dois minutos antes de bater à minha porta, desesperada, a gritar por socorro: “A avó está a morrer. Ajuda-me, por favor”. Telefonei para a ambulância e, mais tarde, auxiliei a equipa do INEM a transportar a senhora até à viatura.
Doutra vez, quando morei nos Anjos, também teria ajudado a vizinha do piso de baixo, se fosse o caso. Achei que estivesse em cativeiro. O piso de madeira fazia-me saber de toda a sua vida, quase tudo, mas, sem dúvida, de todas as suas desavenças com a parceira. Elas possuíam uma cadela a quem deram um nome de gente. Eram, assim, no apartamento de baixo três fêmeas, cada uma com nome próprio de humano. Por este motivo, eu nunca sabia se Raquel era a dona ou a cadela, que, presa, se punha a arranhar a madeira velha do soalho.
Não me foi difícil imaginar que, depois de uma briga do casal, aquela que sempre se mostrava mais agressiva tivesse decidido amarrar a outra no quarto em baixo do meu. Assim me convenci durante muito tempo. Ponderei ir lá inquirir ou até participar a situação à APAV ou à PSP. Desisti disso num dia qualquer, a meio da semana, o dia em que extravasaram humores. “Fizeram as pazes”, concluí. Afinal, Raquel era a cadela, já as donas chamavam-se… as donas da Raquel.
Contudo, devo dizer que há vizinhos e vizinhos. Já o disse, já lho disse. Mas ainda não comentei sobre aqueles que, nos últimos seis meses, de regresso a Arroios, no meu mais recente poiso, acabei por encontrar. Não sou refilão. Gostaria de sê-lo e de subir ao primeiro andar e protestar. Talvez devesse ir à porta do lado direito e pedir para se calarem. Até hoje nunca o fiz. Sinto-me ultrajado por mim mesmo, quando sei que estou no meu direito e, mesmo assim, não o reivindico. Quero, porém, convencer-me de que o melhor é estar vivo: há casos de vizinhos que matam vizinhos por muito pouco que se diga.
Recentemente, no primeiro andar, mesmo em cima do meu quarto, alguém arrasta uma cadeira por longas horas noturnas. Poderá sofrer de insónia. Não sei se é esse o caso. Imagino também aquelas cenas de tortura em filmes de suspense: poderá estar amarrado a uma cadeira, a debater-se para alcançar cada canto do seu quarto. Não ouço diálogos. Não tenho a menor ideia se é morador ou moradora. A voz “humana” — sim, entre aspas — que escuto, a única, pertence ou à Alexa ou à Siri. Às 9h, a Siri — talvez a Alexa — grita: “É hora de acordar”.
Por sua vez, no lado direito do mesmo piso onde me encontro, os vizinhos estão quase sempre alcoolizados. Noutro dia, entrei lá e pedi uma sopa. Era ainda tarde, ou seja, cedo. Não havia outros clientes. Tomei a sopa bem apimentada, que foi um santo remédio para a prisão de ventre e a constipação nasal. Eram duas constipações, anal e nasal, nesse dia. São nepaleses e fizeram do local um bar. Trabalham do início da tarde até às tantas da noite, de domingo a domingo. Quando há muitos clientes, alongam o expediente, o que tem acontecido com regularidade nos últimos dias. Naquele dia, aproveitei e anotei o nome do sinal da internet deles e a respetiva senha. Vizinhos são para essas coisas também. Usei-a até ontem, quando percebi que os meus dados tinham sido ativados. Certamente alteraram a senha e não me disseram nada. Absurdo!
Agora passa da duas da manhã. Do meu quarto, escuto gritos. Pode ser briga ou celebração. É melhor manter o benefício da dúvida. Parecem animados os do lado direito. Já estou na cama. Vidros estilhaçam… Que ninguém se tenha aleijado. Tento dormir. Susto. O de cima caiu com cadeira e tudo, acho eu. Puxo o edredão. Faz frio. Talvez agora se arraste pelo chão. Quero dormir.
Às 9h, a Alexa — talvez a Siri — não perdoa: “É hora de acordar!”
Há tempos, um amigo mandou-me uma mensagem no WhatsApp a partilhar a sua ideia de investigação para o trabalho de conclusão do seu curso de graduação, o famoso TCC. Muito entusiasmado, ele gostaria de saber a minha opinião sobre o seu tema de pesquisa, que, citando as suas próprias palavras, seria “a descriminação sofrida pelo homem do campo quanto a sua linguagem”.
DESCRIMINAÇÃO? Estranhei o uso do vocábulo, mas, em primeiro lugar, congratulei-o pelo empenho em levar a vida académica a sério. O ingresso no ensino superior era-lhe um sonho antigo e fora alcançado havia menos de um ano. Mesmo com mais da metade do curso pela frente, ele já se preocupava com o TCC, ou seja, com o final do percurso.
Depois dos parabéns, julguei coerente chamar-lhe a atenção para os problemas linguísticos na sua frase. Afinal de contas, além de ser um estudante universitário, ele cursava uma licenciatura em língua portuguesa.
“Afinal, qual foi o crime cometido?” — perguntei-lhe por gracejo, na tentativa de que ele revisasse a frase e identificasse o emprego equivocado do substantivo descriminação. Imaginei que não fosse agradável enviar-lhe uma mensagem do tipo «Olhe, você escreveu errado e pá, blá, pá, pá, blá, blá». Optei pela sutileza, pensei eu, mas não surtiu o efeito expectado. Talvez lhe tenha soado como ironia ou sarcasmo.
“Que crime?” — disse-me, ignorando o erro linguístico e, com um tom quase agressivo, arrematou o seu descontentamento com o seguinte: “Este é o tema. Não entendeu, não, foi?”
Após essa reação, restou-me o confronto direto. Enviei-lhe a seguinte mensagem: “A DISCRIMINAÇÃO sofrida pelo homem do campo quanto À sua linguagem”. Todavia, sem o efeito esperado. Ele repetiu-me que era aquele o seu objeto. Explicou-me o significado do enunciado, do enunciado corrigido por mim, pois o dele produzia outro efeito de sentido. Depois, justificou-me a sua escolha.
Sem pestanejar, expliquei-lhe a diferença semântica entre os substantivos descriminação e discriminação. Conquanto não conste em todos os dicionários, o primeiro é mais utilizado no Brasil do que em Portugal. É formado a partir da junção do prefixo des e do sufixo ção à raiz do verbo criminar, que, por sua vez, é sinónimo de criminalizar e incriminar. O seu significado refere o ato de inocentar alguém acusado de ter cometido um crime. Por sua vez, o segundo substantivo é formado a partir da junção do sufixo ção à raiz do verbo discriminar e denota o ato de distinguir, diferenciar, julgar a partir de preconceitos sociais ou características de outra ordem. Acreditava eu que estivesse a contribuir para os primeiros passos do projeto de investigação. No caso, a simples adequação vocabular ajudaria a apresentar o seu objeto de estudo com clareza.
Porém, o meu interlocutor revelou o desconforto e a ofensa que eu lhe causara: “Eu peço ajuda e tu vem corrigir”. Acrescentou: “É claro que sei a diferença”. Nem por isso, deixou de dar uns pontapés na língua.
Se sabia a diferença entre os substantivos, perguntei-me a mim mesmo, qual a razão de não corrigir os equívocos a tempo? Como eu poderia ajudá-lo sem a emenda linguística? Negligenciar a descuido de um amigo e ainda colega não seria um comportamento honesto da minha parte, principalmente na condição de revisor de texto e professor de português.
De todo modo, esquivei-me de qualquer reparo às suas falas, pois, se eu comentasse algo a respeito da conjugação do verbo quando o sujeito é a segunda pessoa do singular, não sei o que aconteceria. Ele seria capaz de escrever em letras capitais: «LÁ VEM TU DE NOVO!” Resolvi nada referir quanto à concordância verbal, pois não sei se perceberia se eu lhe dissesse: “Agora, tu vens com outra calinada”.
Silenciei-me para evitar indisposições e até animosidades. Além do mais, era ele quem me solicitava a opinião sobre o seu objeto de investigação. Se fosse o contrário, digo, ele a alertar-me sobre algum erro gramatical que eu cometera, eu agradecer-lhe-ia o favor. Confesso que me envergonho quando negligencio o nosso idioma. Esperava do colega — e amigo — uma reação que não aquela, principalmente por se tratar de um futuro professor da nossa língua materna.
Passados alguns minutos, enviou-me o seguinte: “A culpa é deste celular, que corrige tudo errado”.
Respondi-lhe: “Compreendo, pois, às vezes, a tecnologia complica”. Disse-lhe isto, mas convicto de que não era o caso.
Depois de minutos, mandou-me um “É”, bem seco.
“Mas não há como descriminar quem incrimina o celular” — insisti.
“Sei” — enviou-me, mais seco do que o “é”.
“Até porque tu serás um professor de português, não é?!”
Ficou off-line.
“— Oi, pai, como andam as coisas por aí?
— Está indo, mas é muita violência, como você sabe.
— Que violência, pai?
— A violência. O povo sendo assaltado a qualquer hora. Basta pôr os pés na calçada.
— Pai? Pelo amor de Dadá, olhe os exageros.
— Éééé… É assim mesmo, meu filho. Tem até menor de doze anos armado, roubando carro.
— Pai? E está assim mesmo, é? Desse jeito é? Crianças de doze anos, armadas, assaltando carros?
— Meu filho, lá vem você. Eu estou dizendo que um menor de doze anos foi pego com arma. Pronto.
— Ah, tá. Então, foi um caso, né?!
— E o que foi que eu disse?
— O senhor falou de um jeito que deu pra entender que agora as crianças de doze anos andam portando arma de fogo e assaltando por aí. Desculpe-me, mas é o problema da generalização. Veja que, por essas e outras, estão para aprovar a redução da maioridade penal.
— E não é pra aprovar não?
— Não. Reduzir a maioridade penal não resolve problemas sociais que são criados também por essas falas sobre a insegurança pública.
— Então, o que vão fazer se estão roubando?
— Pai, quem está roubando? O senhor está roubando?
— Lá vem você. Que história é essa, rapaz?
— Pai, o senhor fala de um jeito e não presta a devida atenção. É verdade que todas as pessoas, inclusive as crianças, roubam aí? É isto o que o senhor quer me dizer?
— Não, meu filho, não, claro que não.
— Então, pai, veja o perigo da generalização. O senhor já é avô e os seus netos terão doze anos um dia. Imagine, então, a situação: quando alcançarem os doze, ambos estarão roubando?
— Bote essa boca pra lá, rapaz. Lá vem você. Que história é essa, hein?
— Então, pai, essas falas nada ajudam, só pioram as nossas vidas. Quem ganha com essa ideia de que a violência está por todos os lados…
— Tá bom, tá bom… Eu só falava da violência que a gente vê no Brasil.
— Quem ganha? Não somos nós, sabia disso? São alguns grupos privilegiados, pois, em torno dessa ideia e da disseminação de uma violência para além daquela que é real, gera-se toda uma rede de práticas: segurança privada, pauta jornalística, planos de seguro para isso e aquilo…
— Tá bom, rapaz. Eu só falava da situação em Mossoró. Só isso.
— Pai, sabe o que é pior? Essas falas, essas ideias que correm soltas por todos os lados geram discriminação e violência contra aqueles que, injustamente, são julgados como agentes da violência, mas que, na verdade, são as maiores vítimas. Essas ideias acabam gerando preconceitos de classe e racismo principalmente contra a população pobre e negra.
— Meu filho, eu já disse que só tava falando do que a gente vê por aqui.
— Pai, nós sempre moramos na periferia: antes, vivíamos no Abolição; hoje, o senhor e mamãe estão no Bom Jardim. Quem sofre os efeitos dessas generalizações? Certamente, não é quem mora no Conjunto Nova Betânia ou noutros bairros residenciais elitizados da cidade.
— Eu sei, meu filho, mas…
— Eu sei, pai, mas violência há em todos os lugares. Imagine se eu ficar o tempo todo contando ao senhor os casos de violência que ocorrem por aqui. Uma amiga foi assaltada em Roma, um amigo foi furtado em Lisboa, outro caiu do penhasco ao tirar uma selfie, outra foi estuprada nas ruas de Coimbra, outra perdeu a máquina fotográfica e outros pertences perto de onde eu morava, uma amiga com doutorado e sem emprego… Ah, e há as bombas terroristas que caem aqui e acolá e são bem propagandeadas aí, no Brasil, pelos meios de comunicação. Ah, o caso do…
— Tá bom, homem. Aff…
— O senhor imagina já o efeito dessas histórias?
— Vou chamar sua mãe pra falar com você.
— O senhor não quer mais falar?
— Neide, venha. Ele quer falar com você.
— Pai, é só porque eu tenho medo de generalizações. Quando falam mal de homossexuais, o senhor me engloba, então? Digo, se um homem gay matasse alguém, o senhor acha que eu também mataria, já que sou gay?
— Neide, venha logo. Oh, Neide? Venha. Ele quer conversar, venha logo.
— Pai? Pai, está escutando?
— Lá vem sua mãe. Tchau, meu filho.”
— Foi assim que ele encerrou a conversa. Geralmente, é mamãe que fica mais tempo comigo ao telefone, mas ontem ele queria falar. Ligo semanalmente para saber como estão, para dizer como estou, para escutá-los e para que me escutem. É sempre assim: esteja eu em Natal, em Accra, em Coimbra, o telefonema semanal para os meus pais é religioso, quase missa dominical, mas, às vezes, dá-se na segunda, na terça, na quarta… Não há dia certo, só tem de acontecer. E não é diferente agora que estou cá em Lisboa.
Do outro lado da linha.
— Como assim? Assuntos maçantes com o meu pai e a minha mãe? A que te referes?
Do outro lado.
— Vê lá o que estás a dizer, pois eles é que trazem a política para o centro da conversa.
Do outro lado.
— Sim, digo-te. Eles trazem-me o tema, sim, senhor! Trazem-mo, sim, senhor. Já to disse. Ou tu pensas que a segurança pública e a inflação não são questões políticas?
Do outro lado.
— Ah, então, agora me estás a dizer sobre que temas devo tratar com os meus pais? Entendi-te bem, Miguel? Então, estás a sugerir que eu passe a jogar conversa fora e a dizer como é viver na Europa, como é viver em Portugal, como são os palácios de Sintra, as alcovas da realeza destronada, é isso mesmo? Oh, Miguel, deixa-me perguntar-te: és inocente ou o quê? Pensas que viver em Lisboa implica estar imune à política de cá e de lá?
Do outro lado.
— E tu, como português que és, enches agora o peito com a tua identidade europeia? Então, pensas que isto não é política?
Do outro…
— Miguel? Estás aí?
Do outro…
— Oxente, acho que a ligação caiu. Fogo.
Do outro…
— Miguel? Alô? Tás mouco? Tás mudo? Tá?
Do outro lado.
— Olá!
Do outro lado.
— Quem? E o Miguel?
Do outro lado.
— A mãe do Miguel? Olá! Prazer em falar com a senhora. Não sabia que estavas em Lisboa.
Do outro lado.
— E o Miguel?
Do outro lado.
— Saiu?
Do outro lado.
— Mas está tudo bem?
Do outro lado.
— Ah, não há problema. Essas urgências acontecem. Só espero que ele fique bem e que tudo se resolva logo. Depois, chamo-o e marcamos um café.
Do outro lado.
— Também gostei de falar com a senhora. Adeusinho.
Observação: a primeira parte deste texto foi publicada neste blogue com o título “Eu, papai e as generalizações“.