é ele o culpado

não tenho endereço.
também não o tens tu.
desejado foste,
mas nunca aqui chegaste.

por ti depositei seis dinheiros,
mas nunca te pus as mãos.
nunca o teu corpo abri.
nunca nas tuas partes
imprimi a marca do meu suor.

e é ele o culpado.
kapa-dois-barra-lojadelivroeminglês,
o alfarrabista do instagram,
diz ter-te-me enviado,
mas não foi correio registado.

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Poema do anojamento


nem alegrias
nem tristezas:

aquando
juízes trabucam como
atalaias e verdugos
a mercê dos imperialismos,
aparentemente caducos, mas,
a todo o momento,
de sobreaviso para o bote
(e sempre há a chande de mais um,
do próximo golpe.);

aquando
magistrados tramam
ódios contra
os pobres,
os oprimidos,
os subalternos e
os seus parcos representantes;

aquando
togados se convertem
nos mais vis
comissários da desordem;

aquando
os da Justiça pelejam
para encarcerar
a esperança.


anojamento.

 

Da penetração ao gozo

Humedecida e rompida,
a terra abrigou a estirpe.
Lá está uma pivotante
forçando as entranhas
da terra manhosa.

Nalgum dia fruirei
do seu tronco largo,
da sua sombra,
do seu fruto.

A boca lambuzada,
os olhinhos revirados,
o corpo mole e relaxado
a saborear a polpa
no calor da rede.

refrigerante

símbolo de consumo
patrocinador de tudo
quimera de pertencimento
sabor especial
ilusão, destruição, conexão…
quiçá transformação
a flora intestinal
transtornada
pela fome, sede, ambição
do capitalismo.

eu não bebo o sistema,
mas ele todos devora.

O Vento

O vento
jogando-se,
espalhando-se,
perfumando-se
como folhas outonais,
como aromas primaveris,
como embriaguezes pluviais,
como uma mão fálica e aveludada e invasiva e perseverante
de movimentos incessantes e progressivos e voltívolos,
cadenciados e até… furtivos.

O vento vem-se em mim,
por dentro, afagando-me,
ao todo, usurpando-me,
por fim, fecundando-me.

O vento tem-me no fundo
alojado 
sementes
a germinar.

Oblação transgênero

A vós que cobiçais o vigor
dos fluidos que jorram
das minhas entranhas,
recebei-me a mim
sem pretensão maternal.

É por mera culpa católica,
a mim imputada pela blasfêmia cristã,
que aqui estou para servir-vos.
Gozai-vos uns dos outros
e provai da ignomínia
que a mim impusestes.

Se tiverdes fome, vinde
e dar-vos-ei de comer.
Aceitai como oblação
este corpo transgênero,
alimento saudável para o vosso mal,
semente para acoimar a paz clerical.

Fragmento de Carinho*

Implorar afeto
é difícil aceitar.
Mas é corajoso.
Pela tarde inteira, implorei
por um abraço singelo,
uma migalha de sentimento.
Meu olhar só suplicava
de carinho um fragmento
que dos anseios me salvasse.
À tarde, implorei
e, por fim, um sorriso
recebi.

* Escrito em parceria com Illa Ramos.

Entre solidões

Sob a benção da burguesia divina,
a minha razão está dominada.
Entre solidões e lutas palpáveis,
o meu coração dilacera-se
por um amor inimaginável.
Em plagas de calores
que influenciaram as minhas origens,
encontro uma ilha como companhia.
Será que sou Saraha?
Ou só um corsário,
vitimado por angústias identitárias,
a desperdiçar a flecha lançada?