Enquanto Sartre morria, o que eu fazia?

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A minha primeira vez

Ontem, eu recebi um e-mail de Severino Figueiredo, escritor, idealizador e editor d’O Emplasto, revista literária digital. Ele avisava-me do lançamento da quinta edição da revista. A sensação de regozijo foi inevitável. A minha primeira vez. Senti-me (e ainda me sinto) como quando publiquei o meu primeiro artigo numa revista científica.

Entre os escritores colaboradores, estão: Anthony Portes, Cássio Serafim, Dany Costa, Juliana Bianchini, Carlos Almeida, Raniery Abrantes, Casciano Lopes e Hyalle. Todos foram profissionalmente orquestrados pelo próprio Figueiredo.

Talvez alguém me tome como exagerado devido à emoção citada. Porém, devo aqui registrar que a iniciativa de contactar a Revista O Emplasto faz parte de uma série de movimentos que tenho realizado no sentido de construir e fortalecer a minha autoconfiança. A abertura do blogue está entre tais movimentos.

Ao ler os poemas e perceber a trajetória dos demais colaboradores, sinto-me um tanto verde. Devo assumir que o sou. Porém, como ser escritor era um sonho meu adiado desde a infância (Veja a crônica Rasgue a tela, se puder!), a publicação de três poemas meus n’O Emplasto pode ser considerado o meu desvirginamento literato junto ao público.

Diante de tal contentamento, resta-me convidar a todas e todos para visitar a página da Revista O Emplasto. Se estiverem no Facebook, curtam a página: facebook.com/revistaoemplasto.

Que não mudamos o mundo com poesia desconfiamos, mas podemos interagir, construir redes e buscar inspiração. Então, fiquem à vontade para baixar gratuitamente as cinco edições! E lembrem-se de divulgá-las!

O Vento

O vento
jogando-se,
espalhando-se,
perfumando-se
como folhas outonais,
como aromas primaveris,
como embriaguezes pluviais,
como uma mão fálica e aveludada e invasiva e perseverante
de movimentos incessantes e progressivos e voltívolos,
cadenciados e até… furtivos.

O vento vem-se em mim,
por dentro, afagando-me,
ao todo, usurpando-me,
por fim, fecundando-me.

O vento tem-me no fundo
alojado 
sementes
a germinar.

Oblação transgênero

A vós que cobiçais o vigor
dos fluidos que jorram
das minhas entranhas,
recebei-me a mim
sem pretensão maternal.

É por mera culpa católica,
a mim imputada pela blasfêmia cristã,
que aqui estou para servir-vos.
Gozai-vos uns dos outros
e provai da ignomínia
que a mim impusestes.

Se tiverdes fome, vinde
e dar-vos-ei de comer.
Aceitai como oblação
este corpo transgênero,
alimento saudável para o vosso mal,
semente para acoimar a paz clerical.

Fragmento de Carinho*

Implorar afeto
é difícil aceitar.
Mas é corajoso.
Pela tarde inteira, implorei
por um abraço singelo,
uma migalha de sentimento.
Meu olhar só suplicava
de carinho um fragmento
que dos anseios me salvasse.
À tarde, implorei
e, por fim, um sorriso
recebi.

* Escrito em parceria com Illa Ramos.

Entre solidões

Sob a benção da burguesia divina,
a minha razão está dominada.
Entre solidões e lutas palpáveis,
o meu coração dilacera-se
por um amor inimaginável.
Em plagas de calores
que influenciaram as minhas origens,
encontro uma ilha como companhia.
Será que sou Saraha?
Ou só um corsário,
vitimado por angústias identitárias,
a desperdiçar a flecha lançada?

Nunca me esqueça

Tenha-me, ao menos, na lembrança
como um presente de Iemanjá,
que, naquela noite estranhamente encantada,
me levou até você,
que na praia me esperava.

Esqueça-se nunca de mim,
nem que me tenha como nada.
Nada que lhe faça bater tão forte o coração,
a ponto de, até mim, mover-se
para beijar-me a testa,
antes de dormir.

Sei do seu cansaço,
dos seus objetivos
sempre maiores,
mas apenas lhe peço:
esqueça-me nunca.

Naquela noite,
a brisa jogava-me aos seus braços,
enlaçando-nos num terno amasso.
E, assim, por todos os tatos
em nossas almas digitalizados,
eu de você nunca me esquecerei.