Quando o tarô aconselha

— Não quero namorado, eu disse-lhe no dia em que o tarô aconselhava abrir o coração.

Apenas registando,
registrando,
registando,
estou sequelado.

— Não quero mais ninguém.

Apenas registrando,
registando,
registrando,
estou sequelado.

— Antes de resgatar-me a mim, não quero… — digo-me, quando o tarô aconselha abrir o coração.

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Um cabelo no meio da salada

No meio da salada tinha um cabelo. Havia um fio de cabelo na salada vegetariana. Um fio de cabelo castanho-escuro entre os vegetais. Havia cerca de 30cm de cabelo no meio da alface, do tomate, da cebola e da cenoura ralada. Nunca me esquecerei daquele fio de cabelo na minha salada, nem mesmo do que eu estaria por presenciar naquela tarde de terça-feira.

Lisboa, perto das 14h do dia 14 de fevereiro de 2017, eu e Murilo ainda não tínhamos almoçado, não tínhamos cozinhado nada em casa e já estávamos atrasados para o trabalho. Então, saímos de casa e caminhamos até um restaurante nos arredores da Fundação Gulbenkian.

Chegamos ao restaurante. Comida vegetariana, saudável, fresquinha e feita na hora, bom atendimento, boa localização, tudo por um bom preço. Não havia muito a matutar onde e o quê comer. Já conhecíamos o espaço. Lá estávamos.

A garçonete indicou-nos uma mesa e deu-nos uns minutos. Acomodamo-nos e verificamos o cardápio. Ela voltou e anotou os pedidos. Para mim: um rolo belga. Para Murilo: seitan com molho de tomate. Para beber: nada. Das vezes que lá vamos, costumamos não pedir nada para beber, mas eles insistem em trazer-nos um copo com água e uma rodela de limão, o que me faz lembrar um amigo da adolescência que falava que eu tinha cara de limão. Nunca compreendi por que ele dizia aquilo e ria logo em seguida.

Enquanto preparavam os pratos, Murilo lia uma notícia no celular, e eu assistia à TV, mas a fome, as horas e o trabalho a fazer ocupavam-me a mente. Tentava distrair-me a ver o programa televisivo, mas esse era bem desinteressante. E aí, para piorar, o aroma da comida a ser preparada atiçava-me o apetite e fazia-me o estômago roncar mais alto.

Ao nosso lado, havia uma mesa ocupada por um homem e uma mulher. Os seus pratos pareceram-me deliciosos, vi-os de relance e desviei rapidamente o olhar. Não é interessante e educado cobiçar a comida do próximo.

Nada parecia ajudar o meu cérebro a abduzir-me das preocupações, inclusive da necessidade premente de encher o bucho. De súbito, as vozes do suposto casal da mesa ao lado capturaram a minha escuta.

Os vizinhos desalinhavam-se, e eu passei a coser pistas para esboçar quem eles eram de facto. Bem vestidos, distintos, lustrosos, sem rugas ou quaisquer outras marcas do tempo, com um sotaque que me era familiar. A mulher, o homem, Murilo e eu, brasileiros, mas seguramente de procedências geográficas e socioculturais diferentes. Nada além da nacionalidade seria elemento de identificação entre nós, quiçá favorável à mínima empatia.

Enfim, os pratos. Atacamo-los. Uma, duas garfadas… Murilo verbalizou a sua satisfação com o seitan. Eu devo ter franzido a testa ou qualquer coisa do tipo, pois ele perguntou-me se havia algo errado. Deitei o garfo ao lado do prato, levei a mão direita à comida, juntei as pontas do polegar e do indicador e tirei do meio da salada um longo fio de cabelo castanho-escuro. Seria receita nova? Para mim, o cabelo era um ingrediente bastante inusitado. Um longo fio de cabelo castanho-escuro. Cerca de 30cm de filamento capilar.

Encostei tudo, chamei a garçonete e, com discrição, mostrei-lhe o cabelo. Ela, pronta e educadamente, pediu-me desculpas pelo incidente, pegou o prato e levou-o, mas, antes, disse que me traria um novo.

Olhei para Murilo e sussurrei: “Será que perceberam?”. Referi-me aos outros clientes presentes no local. Ele achou que não. Eu, sinceramente, não queria desestabilizar o almoço de ninguém. Tudo não passara de um desagradável incidente, o qual não abalaria a nossa confiança nos serviços do local.

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Entretanto, eu sabia, Murilo sabia, a garçonete sabia e talvez alguém mais soubesse: tinha um longo cabelo no meio da salada. E eu nunca me esqueceria daquela salada na vida das minhas papilas gustativas. Disso eu conscientizar-me-ia ao escrever este texto. 

Observei, portanto, discretamente os vizinhos e assegurei-me de que eles não perceberam nada. Bocas vorazes, por vezes, ofuscam a visão.

Eram do Sudeste do Brasil, com experiência profissional em São Paulo, a capital, e talvez fossem naturais de lá mesmo. Entre garfadas e mastigações, saíam-lhes expressões que denotavam ganância, ambição, negócios, dinheiro, lucros… Falavam de passaportes, duplas nacionalidades, aquisições, clientes que lhes rendiam números positivos nos seus extratos bancários. Puxa-aqui-e-acolá-tira-daqui-bota-acolá-estica-injeta-costura… no final, novinha-em-folha. Eram médicos, cirurgiões plásticos. A mulher assegurava que ofereciam muito mais e melhor do que o mercado local. O homem citava nomes de clientes cujas mamas, barriga e outras partes do corpo ele jurava ter magistralmente tocado e retocado. Parecia faltar pouco para inaugurarem uma clínica em Lisboa.

Escutei a voz ao meu lado. Era a garçonete, que me trazia a comida. Eu, entretido com os vizinhos fazedores de novos corpos e possuidores do segredo do rejusvenescimento, havia-me esquecido do rolo belga, da salada e, em alguma medida, das horas. Mas, aí, o cheirinho, a imagem… o apetite voltou.

Ocorreu-me de verificar o relógio. Os ponteiros trabalhavam obstinadamente. Apressei-me a serrar o rolo, juntar um pouco daqui, um pouco dali, levar o conteúdo à boca e engoli-lo (sim, engolir tudo mesmo, pois não havia tempo para mastigar!).

Os vizinhos surpreendiam-me cada vez mais com a sua avidez. Terminaram os seus pratos e pediram sobremesas. Duas sobremesas. Recordo-me de que uma delas era uma robusta fatia de napoleão, uma tentadora receita de origem ucraniana.

Era muita comida para ingerir. Mesmo assim, a conversa deles permanecia intensa. Transitaram da clínica para a casa da mulher. Ela queixava-se da filha, a qual morava com ela e hospedara um amigo por alguns dias. “Ai, só falava de política”, ela disse ao outro cirurgião, que, de pronto, elogiou o pedaço de napoleão. Ela insistiu em falar do amigo da filha: “Só falava de política. Que cara chato!”. O homem manteve o silêncio, quando a palavra “política” foi mais uma vez mencionada. A mulher encerrou o assunto, registrando o quão alegre ficou com a partida do hóspede. Observei que os dois evitaram o tema “política” a todo o custo. Fosse através do amigo da filha, fosse através dos relatos da própria mulher, “política” parecia causar-lhes algum mal-estar, talvez indigestão.

Levei a última porção de alimento à boca. Não demorou para a garçonete vir levantar o prato e, com um sorriso, perguntar: “Napoleão?”. Gostávamos daquela sobremesa, e ela sabia-o.

“Não”. Olhamo-nos um ao outro e pressentimos uma longa digestão pela frente. Afinal de contas, havia ou não havia um longo fio de cabelo castanho-escuro e uns não-sei-quantos mililitros de botox e silicone no meio do nosso almoço? Acho até que isso tudo tenha sido só o aperitivo. E a política? Bem, essa, se não foi o prato principal, de certeza que foi o ingrediente onipresente.

“Café?”, a garçonete ainda insistiu, mas pedimos a conta.

Partilhando a alegria da primeira vez: a perda do “cabaço” de novo

Hoje vim aqui partilhar com vocês a alegria da primeira vez. Não foi inocentemente que pus como subtítulo “a perda do ‘cabaço’ de novo”. Adianto-me a dizer que espero não ferir suscetibilidades. Como vocês devem saber, no Nordeste do Brasil, a expressão “perder o cabaço” é, em geral, vulgar e chula, usada para referir à perda da virgindade. No entanto, o verbete possui, ao menos, quatro acepções. Até nome de peixe é!

A minha intenção é mesmo partilhar uma alegria com vocês. E uso aqui cabaço metaforicamente para registrar o meu desvirginar ante uma nova oportunidade que a vida me ofereceu. Sim, novas oportunidades, novos desafios na vida promovem, em alguma medida, um desvirginar. Então, compartilho a minha primeira experiência à frente das câmeras, sob a direção de Murilo Guimarães, escritor, realizador de vídeos, colaborador da Tribuna do Alentejo e doutorando do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (Para conhecer a sua produção, visite o seu blogue. Clique aqui.).

Foi há aproximadamente um ano que Murilo convidou a mim, a Amanda Guerreiro e a Terêncio Lins, para participarmos de um videoclipe. No vídeo, Amanda representou a Fascista Modernosa; eu, o Fascista Machão; e Terêncio foi o responsável por dar voz ao texto que incorpora uma forte crítica à maneira como temos sido manipulados e como temos manipulado o contingente de informações que nos chegam por meio dos agentes formadores de opinião, incluindo as plataformas de rede social, como Facebook, por exemplo. As filmagens deram-se em alguns locais das freguesias de Avenidas Novas, Campo Pequeno e Entre Campos, em Lisboa.

Convido a todos vocês a assistirem ao videoclipe “Ao Amigo do Fáscio”, que foi ontem relançado no YouTube. Espero que gostem do trabalho e, se eu não estiver pedindo demais, ficaria muito grato se dessem uma curtida e nos ajudassem a divulgar o trabalho.

 

Ainda aproveito o momento para convidá-los a se inscreverem no canal do Youtube de Murilo Guimarães, no qual este e outros vídeos estão disponíveis (Clique aqui.).

Juro que, se eu ficar famoso, dou um autógrafo. Brincadeirinha! Beijossssss. 😀

Um “nós” sem genitália

Santa Diabólica Elucidativa da Solidariedade Feminista: “Quem sou eu? [Risos] Ora, quem sou eu? Quem sois vós? Dizei-me, primeiro. Melhor: quem somos nós?”

Serafina: “Eu sou a sujeita que passou a existir depois da morte do sujeito. Ou seja, o sujeito morreu e nem me convidaram para o funeral. Nem pra carpideira servi. E, depois do enterro do sujeito, disseram-me que eu poderia existir, que poderia ser sujeito ou sujeita.”

Ioco S.: “Tenho pau, bunda, vagina, cloaca, possuo buracos donde se entra e sai e onde me embrenho. Tenho prazer em ensaiar-me naquilo que ignoro, que desafia e que te encanta, espanta e causa ojeriza.”

Cássio S.: “Busque-me o vinco. Vá, venha, vá… Está quente. Mais um pouco você o encontrará. Ei, pare! Pare! Não tente virar-me. Estou avisando, dona Santa. Não tente. Quer assustar-se? [Risos] Do outro lado, o que vai encontrar? [Gargalhadas] Você não sabe?”

“Púbis”, by Ioco S./Cássio Serafim, 2014.

Ioco S.: “Busca-me o vinco. Não tenta virar-me. Não queiras assustar-te. Pois, do outro lado, que vais encontrar?”

Santo Transebastião: “Eu sou a fonte de alimento para o sanguessuga que existe em todos vocês e que, entre as minhas pernas, vem aliviar a sede. Que sede? A sede do patriarcado.”

Santa Diabólica Elucidativa da Solidariedade Feminista: “Quem somos, então? Está ainda mais difícil definir esse ‘nós’, uma vez que cada um fala somente de si. E, ainda, parece-me que tentam e que tentamos definir-nos a partir da ausência ou da presença deste ou daquele órgão em nossos corpos. E, ainda, parece que a importância de cada um se dá de acordo com o órgão que possui. Se alguém tem um pênis, este vale mais no mercado das relações sociais. Se tem uma vagina, o valor é reduzido e ainda mais dependendo dos seus níveis de melanina. Enquanto o mundo social for organizado sob uma perspectiva ideológica que é BIO-lógica, a igualdade de gênero será um sonho bem distante. E, se nós, feministas, participarmos desta lógica sem lógica, a sororidade entre mulheres feministas e a desejada solidariedade entre mulheres e homens feministas também serão de difícil alcance. Imaginem se a linguagem comum tão sonhada for construída apenas por meio de corpos com determinada genitália em comum! Como poderemos construir uma solidariedade, uma linguagem comum, um suporte político feminista, antirracista, anti-colonial? Já não será a hora de construirmos um ‘nós’ sem genitália? Será possível tê-lo?”