Ainda sobre a mulher negra presa no banheiro de um supermercado em Lisboa

Onde estará a senhora negra e de meia-idade que, ontem, por volta das 16h, foi aprisionada no banheiro de um supermercado, em Lisboa? O que lhe terão feito os dois funcionários brancos que a forçaram a entrar na casa de banho e ali ficar, contra a sua vontade?

Hoje, despertei atormentado com o facto que testemunhei no dia anterior. Verifiquei o e-mail, mas nenhuma resposta do supermercado me tinha chegado. Mortifiquei-me a pensar que eu deveria lá ter permanecido até que liberassem a mulher, até que a polícia chegasse, até… Mas não fiz nada disso. E, agora, o que terá sido da senhora?

Antes de sair de casa, telefonei ao sector de “Apoio ao cliente” da empresa. Atendeu-me uma senhora que se identificou como Maria. Expliquei-lhe o motivo da minha chamada e comuniquei-lhe o meu e-mail enviado ontem, domingo, 17 de junho de 2018.

Para a minha surpresa, segundo a Maria, o sistema informático do supermercado não recebera a minha queixa. Inexistia registo do meu e-mail, do meu nome, do meu telemóvel, da minha morada e do facto denunciado por mim, a saber, o crime de cerceamento de liberdade de uma mulher por funcionários daquela empresa.

Depois de detalhar o acontecimento à Maria, perguntei-lhe se era aquela a orientação da rede de supermercados aos seus empregados. Deixei-lhe claro que não estava a defender ações de roubo ou qualquer ação congénere e compreendi que necessitassem de tomar medidas para proteger os produtos e o estabelecimento. Porém, conduzir uma pessoa à força para dentro de um cubículo não me parece ser uma atitude legal.

Maria, do outro lado da linha, afirmou que esse não era o posicionamento daquela rede de supermercados. Disse-me que, naquele momento em que falávamos ao telefone, a minha reclamação estava registada e que seria encaminhada para a devida apuração do facto.

Antes de despedir-me, assegurei-me de pedir-lhe um prazo para obter uma resposta da empresa. Ela deu-me uma semana. Resta-me, portanto, esperar e ver o que poderá acontecer. Não obstante, não me surpreenderei se nada fizerem sobre o caso, pois essa cadeia de supermercados estrangeira a atuar em Portugal responde a menos de 5% das reclamações dos seus clientes registadas no Portal da Queixa. Caso nenhuma providência seja tomada, valerá revelar o nome do supermercado e boicotá-lo. Afinal, aquele acontecimento poderá configurar-se num crime.

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Supermercado aprisiona mulher em casa de banho

Supermercado aprisionou uma mulher na casa de banho. Com vários clientes a testemunharem a cena, funcionários de um supermercado localizado numa zona histórica e turística de Lisboa cercearam a liberdade de uma senhora negra e de meia-idade. Dois funcionários impediram a mulher de sair do local, submeteram-na à humilhação perante todos os presentes e prenderam-na no banheiro, de onde ouvíamos os seus pedidos de socorro.

Sou cliente da loja devido à sua localização próxima de casa e devido a alguns produtos e preços acessíveis. Sempre tive elogios aos funcionários, quando me foi necessário abordá-los para dirimir dúvidas sobre ofertas ou outro assunto relacionado aos produtos do meu interesse.

No entanto, hoje, domingo, 17 de junho de 2018, foram os próprios funcionários a macular o meu dia e a deslustrar a imagem daquele estabelecimento comercial. Fizeram-no exatamente entre às 15h50min e às 16h05min, quando lá estive a comprar pão e batata-doce e quando infelizmente me encontrei entre testemunhas daquela cena triste, infeliz, lastimável de facto.

Uma senhora estava a tentar deixar o local e foi impedida por uma funcionária, que barrou a passagem da primeira e, com certa impaciência, ordenou que o caixa chamasse outro funcionário. Este, ao chegar, ajudou a primeira funcionária a prender a senhora, uma suposta cliente, dentro do banheiro da loja.

O clima ficava tenso. Uma fila formava-se e alongava-se no único caixa a atender-nos. Todos viam o que se passava. Em poucos minutos, foi aberto outro caixa, ao qual passei. Ao ser atendido, perguntei a um dos funcionários que conduzira a senhora para dentro do cubículo o que estava a acontecer. Ele disse-me não valer a pena compartilhar qualquer informação comigo. Eu fiz-lhe um gesto de que aquela situação era desagradável e não me parecia justo e justificável o aprisionamento daquela mulher na casa de banho, de onde ouvíamos os seus pedidos para dali sair.

Entre os clientes, havia a suspeita de que a cliente-aprisionada poderia ter roubado ou tentado roubar algum produto da loja. A considerar um diálogo entre a senhora e a primeira funcionária mencionada, — quando a senhora afirmava não levar nada consigo, e a funcionária a mencionar a palavra “polícia” —, insisti com o segundo funcionário se eu poderia ajudar e pagar o produto que a senhora tentara roubar. Perguntei-lhe qual produto fora o objecto do suposto crime e ofereci-me a pagar por ele. Ele, por sua vez, recusou a minha tentativa de ajudar a senhora, porém manteve-a aprisionada dentro daquele compartimento, enquanto clientes se juntavam ao longo do caixa ao lado da casa de banho, de onde – repito – a senhora pedia ajuda.

Saí da loja aturdido com o tratamento destinado àquela mulher. Conquanto nenhuma ação ou tentativa de roubo esteja a ser justificada por mim, assevero aqui o meu desconforto em estar ali e não poder ajudar a senhora, pois o representante do supermercado impediu-me. Compreendo a sua necessidade de impedir as ações de roubo na loja, mas não posso concordar com a atitude dos dois funcionários — ou da própria loja — de fechar uma mulher negra, de aparência humilde e de meia-idade no banheiro, de cercear a sua liberdade e de submetê-la a toda aquela humilhação.

Da loja à casa, não encontrei os policiais que, com frequência, estão nas redondezas. Voltei aturdido com o que presenciei e frustrado por nada ter feito. Entrei e, de imediato, abri o computador: busquei a loja online, acedi à secção de “Apoio ao cliente” e reportei o ocorrido. E agora?

Agora, espero que o acontecimento seja devidamente apurado e que facto congénere não se venha a repetir. Todavia, ante todo o exposto acima e não obstante a minha ação, na condição de consumidor e cidadão, a inquietação e a sensação de impotência permanecem comigo. Pergunto-me: será essa a orientação do supermercado aos seus funcionários, para desrespeitar os direitos humanos? Como combater esse tipo de ação? O que fazer agora? O que terá acontecido àquela mulher? Saberá a sua família do seu paradeiro? Terá ela uma família em Lisboa? Qual será a sua sorte?

É melhor (não) esquecer!

Mal pus os pés à rua e logo me apercebi de que, às pressas, saí do supermercado, sem conferir o troco que a caixa me dera. De pronto, veio à mente a imagem da nota de cinco euros e algumas moedas na palma da minha mão, a qual prontamente se fechou e levou a quantia ao bolso do casaco.

Entregara-lhe uma nota de dez para tirar o valor referente a cinco pães d’água e uma manteiga da marca mais barata. A compra custar-me-ia dois euros e menos de trinta cêntimos, restando-me sete euros e setenta e poucos cêntimos.

A imagem do troco na palma da minha mão estendida. A imagem da minha mão fechada a invadir a escuridão do bolso e ali confiar a quantidade de dinheiro que eu tinha.

Abri a algibeira, peguei todo o dinheiro, contei-o e… menos de sete euros, por volta dos cinco euros e alguns cêntimos. Ai, que raiva senti de mim mesmo.

Dois euros. Perdi dois euros. Já não dava para retornar ao supermercado e reclamar o meu direito. Como provaria que eu não tinha má intenção? Como provaria que a caixa se enganara com a conta, e não eu? Ao pôr os pés fora do estabelecimento, perdi a razão de reclamar os dois euros. Dois euros. Que merda. Que raiva. Dois euros. Perdi-os.

“É melhor esquecer e estar atento da próxima vez em diante”, pensei. Fui para casa, com os meus pãezinhos d’água e a manteiga. Com aqueles dois euros, teria comprado até queijo. “É melhor esquecer,” pensei, “pois outros virão.”

Dias depois, regressei ao mesmo supermercado. Fui direto à secção de pães. Quatro pães d’água.

No caixa, coincidentemente, a mesma funcionária do outro dia. Desta vez, eu tinha moedas e daria o valor contadinho, para evitar mal-entendidos. Quatro moedas de vinte cêntimos.

“Sessenta e quatro cêntimos”, ela informou o valor da compra.

Passei-lhe as quatro moedas que separara.

“Obrigado e até próxima”, ela disse-me ao entregar duas moedas miúdas: uma de cinco e outra de um cêntimo.

Mais cauteloso, percebi que me faltavam dez cêntimos. Com a palma da mão ainda aberta, mostrei-lhe:

“Faltam dez cêntimos”, disse-lhe. “Dei oitenta.”

“Hã?”, ela fez cara de desentendida, mas, para a minha surpresa, pegou uma moeda de dez cêntimos e entregou-ma junto com as seguintes palavras: “Só vi setenta.”

Sem mais, agradeci e senti-me aliviado, mas, ao mesmo tempo, assarapantado. Uau. Por pouco, não perco dez cêntimos, assim como ocorreu com os dois euros noutro dia. Uau. Aprendi a lição, tenho de ser atencioso nesses momentos, mesmo que a fila esteja gigantesca e que pessoas apressadas e impacientes se chateiem por esperar um pouco mais. Uau. Epa. Como assim? Se só viu setenta, como me deu os dez cêntimos faltantes, sem nem conferir a nota da compra, nem contestar? Será que o supermercado não confere o registro do caixa ao fim do dia? Epa, de novo. Eu, de novo? Será que tenho cara de rico, a quem não faz falta unzinho aqui, outro acolá? Ou será que tenho cara de parvo, a quem vale tirar uns níqueis a cada ida ao supermercado?

“É melhor esquecer,” saí à rua, a falar comigo mesmo, ainda confuso, “mas… uau, dois, dez… fogo.” Outros andantes olhavam-me estranhamente. “É melhor não esquecer. É melhor não esquecer, pra não acabar a pão e laranja”, sem lhes dar a mínima, segui com o meu solilóquio, a cada passo em direção à casa.